Política e Resenha

O Companheiro que Não se Abandona

Política & Memória

O Companheiro que Não se Abandona

Lealdade, gratidão e os alicerces esquecidos de um projeto político

Por Padre Carlos
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Análise Política

Existe um princípio que atravessa exércitos, povos, culturas e gerações. Ele não está escrito apenas em manuais militares nem pertence exclusivamente ao universo da guerra. Trata-se de um compromisso moral profundo, quase sagrado: nunca abandonar um companheiro pelo caminho.

Os militares modernos o chamam de Leave No Man Behind — “não deixar ninguém para trás”. Mas a ideia é muito mais antiga. Ela aparece nos códigos de honra dos samurais, nos guerreiros espartanos, nos combatentes da resistência europeia e nos movimentos populares que ajudaram a transformar a história. Em todos esses ambientes existe uma compreensão simples: ninguém vence sozinho. Toda conquista é construída sobre ombros coletivos.

Talvez seja justamente aí que resida uma das maiores contradições da política contemporânea.

Quantos ficaram pelo caminho?

Quantos companheiros ficaram pelo caminho? Quantos dedicaram os melhores anos de sua juventude para construir um projeto político sem jamais colher os frutos do que ajudaram a semear? Quantos enfrentaram perseguições, preconceitos, derrotas eleitorais e dificuldades financeiras quando o Partido dos Trabalhadores ainda era uma esperança distante e não uma força consolidada?

É uma pergunta incômoda. Mas as perguntas incômodas costumam ser as mais necessárias.

Houve um tempo em que a direita baiana estava solidamente instalada nos alicerces do carlismo. Era um período em que defender um projeto popular exigia coragem, convicção e disposição para enfrentar o isolamento político. Muitos homens e mulheres dedicaram suas vidas à construção daquele sonho coletivo. Eram militantes anônimos. Não buscavam cargos. Não sonhavam com estruturas de poder. Sonhavam com transformação social.

Plantaram.
E muitos nunca colheram.

Essa realidade ajuda a explicar parte das inquietações que ainda percorrem setores históricos do PT baiano. Há companheiros que enxergam uma distância crescente entre aqueles que construíram a estrada e aqueles que hoje trafegam por ela.

Mas seria injusto generalizar. Nem todo PT é assim.

A lealdade como marca de Lula

E é impossível abordar esse tema sem mencionar aquele que continua sendo a principal referência política do partido: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma das características mais marcantes de Lula ao longo de sua trajetória foi a lealdade política. Concorde-se ou não com suas posições, existe um traço recorrente em sua história: ele raramente abandona aqueles que caminharam ao seu lado nos momentos difíceis.

A prova mais contundente surgiu durante os anos mais turbulentos da democracia brasileira. Em 2002, pela primeira vez na história do país, um operário chegou à Presidência da República. Não era apenas uma vitória eleitoral. Era a chegada ao poder de um projeto político construído por sindicatos, movimentos sociais, intelectuais, trabalhadores rurais, estudantes e militantes espalhados por todo o Brasil.

A reação foi proporcional ao tamanho da mudança. O que se seguiu foi um dos períodos mais tensos da vida política nacional. Juristas, acadêmicos e observadores internacionais passaram a utilizar um conceito que ganharia enorme relevância: lawfare — o uso instrumental das estruturas jurídicas para objetivos políticos.

Registro histórico

“Lula passou 582 dias preso. Anos que revelaram quem permanecia ao lado dos companheiros quando as luzes dos palcos se apagavam e os aplausos desapareciam.”

— O autor

O ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, enfrentou uma verdadeira maratona judicial, respondendo a dezenas de processos que, ao final, não produziram condenações capazes de sustentar as acusações mais graves que lhe foram atribuídas. Foram anos difíceis para os acusados, difíceis para suas famílias, difíceis para a democracia.

A fotografia que fala por si

E é justamente por isso que uma fotografia antiga pode dizer muito mais do que parece. Recentemente, uma lembrança do 5º Encontro Nacional do PT, realizado em Brasília nos dias 4 e 5 de dezembro de 1987, trouxe de volta um sentimento que talvez esteja faltando na política atual: o companheirismo.

Naquela época não havia ministérios para disputar. Não existiam máquinas administrativas para ocupar. Não havia o poder institucional que viria anos depois. Existiam apenas homens e mulheres reunidos em torno de uma ideia. Construíam relações de confiança. Fortaleciam amizades. Compartilhavam sonhos. Acreditavam que a política podia ser um instrumento de transformação coletiva.

Projetos políticos sobrevivem por programas. Mas se tornam grandes por pessoas.

Gratidão como inteligência política

E nenhuma organização consegue preservar sua alma quando esquece aqueles que ajudaram a construí-la. Os partidos mudam. As lideranças envelhecem. As conjunturas passam. Mas a gratidão continua sendo uma das formas mais elevadas de inteligência política.

Porque quem abandona os companheiros que ajudaram a erguer a casa corre o risco de descobrir, tarde demais, que as paredes continuam de pé, mas os alicerces já começaram a ruir.

E nenhuma construção resiste por muito tempo
quando esquece quem lançou suas primeiras pedras.

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Padre Carlos

Análise política e reflexão social

Bahia, Brasil