Política e Resenha

O Cristo da Serra: Memória, Fé e o Dever de Preservar a Alma de Vitória da Conquista

 

Há monumentos que são apenas pedra.
Há outros que são memória.

E há aqueles raros — quase sagrados — que se transformam em consciência coletiva de um povo.

O Cristo Crucificado da Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, pertence a essa última categoria. Ele não é apenas uma escultura. Ele é um símbolo que respira história, fé e identidade nordestina. Por isso, discutir seu tombamento como patrimônio cultural não é apenas um gesto administrativo: é um ato de gratidão histórica.

Porque preservar o Cristo é preservar a própria alma de Conquista.

Quando a fé encontrou a política pública

A história começa em 1963.

Naquele tempo, romeiros subiam a Serra do Periperi por trilhas abertas no mato. Era uma peregrinação silenciosa, quase bíblica. Subiam para rezar diante de um velho cruzeiro de madeira, castigado pelo tempo e pela solidão.

A cada ano, a mesma súplica chegava aos ouvidos do então prefeito Pedral Sampaio:

— “Prefeito, cuide do nosso cruzeiro.”

Pedral não era apenas um administrador. Era um homem que entendia que cidades também têm espírito.

Foi então que nasceu a ideia: erguer ali, no ponto mais alto da cidade, um símbolo que pudesse ser visto por todos — um sinal de fé, mas também de identidade.

Entre os que participaram daquela visão estava o jovem vereador Raul Ferraz, que teve uma intuição decisiva. Em vez de uma simples cruz, sugeriu algo maior, algo que dialogasse com o horizonte da cidade.

Algo que marcasse o tempo.

Algo que falasse ao futuro.

A arte que deu rosto ao sertão

Para transformar essa ideia em matéria, foi chamado um dos maiores artistas do Brasil: Mário Cravo Júnior.

Cravo não criou apenas uma escultura.

Criou um retrato.

O rosto daquele Cristo não é europeu. Não é romano. Não é clássico.

É nordestino.

Tem a expressão do homem que enfrenta o sol impiedoso, a terra seca, a luta diária contra a fome e a desigualdade. É um Cristo que parece carregar não apenas a cruz bíblica, mas também a cruz histórica do sertão.

Talvez por isso ele cause uma impressão tão profunda em quem chega à cidade pela BR-116.

No meio da paisagem árida, quase silenciosa, ergue-se aquela figura gigantesca — 33 metros de altura, no ponto mais elevado da serra.

Ele parece olhar para a cidade.

Mas quem chega sente algo diferente.

Parece que ele olha para cada um de nós.

A última despedida do Nordeste

Durante décadas, milhares de nordestinos migraram para o Sudeste em busca de sobrevivência.

Antes de partir, muitos passavam por Vitória da Conquista.

A Serra do Periperi era uma espécie de fronteira simbólica. Ali terminava o sertão conhecido e começava o desconhecido da estrada para São Paulo.

Para muitos viajantes, o Cristo parecia fazer um gesto silencioso:

uma despedida.

Um Deus que ficava.

Um Deus que permanecia guardando o povo que partia.

Quando cheguei a Conquista e contemplei aquela imagem pela primeira vez, compreendi imediatamente a força espiritual daquele lugar. Não era apenas um monumento. Era uma catequese silenciosa.

Ali estava um Cristo com rosto de povo.

Ali estava um Cristo que compreendia o sofrimento nordestino.

E confesso: foi daquela mística que nasceu boa parte da minha vocação pastoral. Dediquei meu ministério a esse povo sofrido porque, de certa forma, aquele Cristo da serra já me havia ensinado tudo.

Raul Ferraz e Pedral: dois homens públicos que pensaram grande

Por isso, o tombamento do Cristo tem também um significado político no melhor sentido da palavra.

Ele reconhece o legado de dois homens públicos que compreenderam o valor da história:

Pedral Sampaio, que sonhou o projeto.

Raul Ferraz, que teve a coragem de realizá-lo.

Em 1980, quando a obra foi finalmente inaugurada, uma multidão subiu a serra a pé. Foi, segundo relatos da época, uma das maiores manifestações populares da história de Vitória da Conquista.

Não era apenas uma inauguração.

Era um nascimento simbólico da cidade moderna.

Patrimônio não é apenas pedra

Hoje, o debate sobre o tombamento ganhou força dentro das instituições locais.

Especialistas como o historiador Fábio Sena lembram algo fundamental: patrimônio não é apenas edifício antigo. É memória compartilhada.

O também membro do núcleo de tombamento Wal Cordeiro vai além ao afirmar que preservar o patrimônio é também uma estratégia de sustentabilidade cultural e turística.

Já o presidente da Câmara Municipal, Ivan Cordeiro, lembrou que proteger esses símbolos é proteger a história contra o esquecimento.

E ele tem razão.

Cidades que esquecem seus símbolos acabam perdendo sua própria narrativa.

O tombamento como pacto de memória

 

Por isso, o tombamento do Cristo de Mário Cravo não é apenas uma homenagem artística.

É um pacto.

Um pacto entre gerações.

Um compromisso entre passado e futuro.

É reconhecer que algumas obras ultrapassam o tempo político dos governos e passam a pertencer à história profunda de uma cidade.

Preservar o Cristo é preservar:

  • a memória de Pedral Sampaio

  • a visão de Raul Ferraz

  • a genialidade de Mário Cravo

  • e a fé simples do povo nordestino

Porque cidades também precisam de alma

Vitória da Conquista cresceu.

Expandiu suas avenidas.

Multiplicou bairros.

Tornou-se um polo econômico do interior da Bahia.

Mas cidades não vivem apenas de concreto e comércio.

Cidades vivem de símbolos.

O Cristo da Serra do Periperi é um desses raros símbolos que transformam paisagem em significado.

Ele nos lembra, todos os dias, que uma cidade só se torna grande quando aprende a respeitar a própria história.

Por isso, quando o Cristo for oficialmente tombado — e espero que isso aconteça em breve — não será apenas uma vitória da cultura.

Será um gesto de justiça.

Justiça com os homens públicos que pensaram grande.

Justiça com o artista que deu rosto ao sertão.

E justiça com o povo que, há décadas, olha para aquela cruz e reconhece ali algo que nenhuma estatística consegue medir:

a alma de Vitória da Conquista.


Padre Carlos