Política e Resenha

O Deputado do Teco-Teco: Especialista em Reclamar do Próprio Governo

 

Há uma arte muito peculiar na política brasileira: a capacidade de governar por décadas e, ainda assim, discursar como se fosse oposição. É quase um talento sobrenatural. Um dom. Uma vocação.

E não é que, de repente, surge mais um iluminado, com ar preocupado, voz grave e semblante de quem acaba de descobrir a pólvora, denunciando a precariedade dos voos entre Salvador e Vitória da Conquista? Ora, que revelação impactante! Quem diria que a população já sabia disso há anos?

O mais curioso — para não dizer tragicômico — é que alguns desses arautos da indignação caminham lado a lado com o poder há mais de vinte anos. Duas décadas. Tempo suficiente para construir aeroportos, estradas, soluções… ou pelo menos assumir responsabilidades. Mas não. Preferem o confortável papel de comentaristas da própria omissão.

Vitória da Conquista, essa cidade pujante, polo regional, referência em educação e saúde, ostenta um aeroporto de padrão nacional… para aviões que parecem saídos de um museu da aviação. Não é exagero: o cidadão embarca com esperança e pousa com alívio — não pelo destino, mas por ter chegado inteiro.

É o aeroporto do futuro… que nunca chega.

Enquanto isso, o trabalhador ajusta sua vida aos horários escassos, paga caro por passagens e ainda agradece quando não há cancelamento. Uma verdadeira ginástica de sobrevivência logística. E, claro, tudo isso embalado por discursos oficiais que falam em “articulação”, “estudos” e “busca de alternativas”. Tradução: seguimos aguardando.

A ironia maior é ver quem sempre esteve no comando agir como fiscal indignado. Como se a caneta nunca tivesse passado por suas mãos. Como se a responsabilidade fosse sempre de um ente abstrato chamado “sistema”.

Não é.

Acorda, Conquista. Porque enquanto o povo se acostuma com o improviso, há representantes que se especializam em transformar negligência em narrativa. E narrativa em palanque.

Governar não é apenas aparecer quando o problema explode. É evitar que ele exploda.

Mas isso, convenhamos, dá muito mais trabalho do que discursar.