Por Padre Carlos
Num enredo que beira o realismo fantástico, a política brasileira nos presenteia com mais um capítulo de sua tragicomédia. A recente sugestão do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que o ex-presidente Jair Bolsonaro viaje aos Estados Unidos a fim de “discutir o tarifaço com Donald Trump” não é apenas uma anedota; é um sintoma agudo do desespero que assola o bolsonarismo.
Fica a dúvida sobre quem peca mais pela ingenuidade: o governador, ao acreditar que uma proposta tão esdrúxula seria acolhida pela mais alta corte do país, ou o ex-presidente, ao supor que sua ânsia por deixar o território nacional passaria despercebida sob um pretexto tão frágil. A verdade, contudo, é que ambos parecem subestimar, e muito, a inteligência do povo brasileiro e a liturgia do poder Judiciário.
A manobra é transparente. Tudo o que Jair Bolsonaro mais deseja, no atual cenário de investigações que se avolumam e cercam seu núcleo político e familiar, é encontrar uma rota de fuga. Impedido de deixar o país por decisão judicial, qualquer pretexto se torna uma oportunidade, qualquer articulação se transforma numa potencial tábua de salvação. A ideia de que o ex-mandatário, hoje uma figura sem poder institucional, pudesse negociar uma política tarifária com um ex-presidente americano (e atual candidato) é tão absurda que só pode ser interpretada de uma maneira: um teste, uma armadilha mal disfarçada para ver se a porta da gaiola se abria.
O plano, como era de se esperar, foi considerado “fora de propósito e do rito institucional” pelos ministros do STF. Não poderia ser diferente. A sugestão ignora a diplomacia, os canais oficiais e, mais grave, a própria condição legal de Bolsonaro. É uma jogada que expõe o nervosismo e a falta de opções de um grupo político que vê o cerco se fechar.
Tarcísio, ao se prestar a esse papel, busca talvez um duplo movimento: agradar sua base mais radical, mostrando-se leal ao seu padrinho político, e, ao mesmo tempo, tentar construir uma imagem de negociador. O resultado, porém, é um desgaste de sua própria imagem como gestor. Ao embarcar em uma aventura jurídica e diplomática com pouquíssimo fundamento, o governador de São Paulo se apequena, colocando os interesses de seu aliado acima da lógica e do bom senso.
Este episódio serve como um retrato fiel do momento. De um lado, um ex-presidente que, acuado, flerta com a ideia de exílio. Do outro, seus aliados tentando criar narrativas e saídas mirabolantes. No meio, a nação, que assiste atônita a mais uma tentativa de brincar com sua capacidade de discernimento.
Não, não somos ingênuos. A ânsia de Bolsonaro por ares internacionais não tem nada a ver com tarifas ou com o bem-estar do Brasil. Tem a ver com o medo da Justiça e com a busca desesperada por um refúgio. A armadilha foi montada, mas, para o infortúnio de seus arquitetos, era por demais evidente. O Brasil, felizmente, não caiu.





