Diálogo entre Francisco de Assis, Spinoza e Gaston Bachelard
Por José Alcimar de Oliveira
I. As origens de um santo burguês
Francisco de Assis, que não nasceu Francisco, mas Giovanni, filho de Pia de Bourlemont e Pietro di Bernardone, teve seu nome mudado para Francesco, que no italiano da época seria francesinho, talvez uma homenagem de seu pai à França, país que integrava o circuito de suas atividades de rico comerciante de tecidos. Quando Francisco nasceu, na ascendente e próspera burguesia da cidade de Assis, na rica Itália Central, seu pai encontrava-se na França. Não foi vítima, portanto, da miséria pensada por Gramsci no reconhecido e inacabado escrito A questão meridional, em que problematiza a existência de duas Itálias num mesmo país presidido pela autocracia capitalista. No caso do Brasil, a questão meridional implicaria mobilizar mediações críticas para objetivar uma desigualdade social que atravessa o país em todas as latitudes. Francisco de Assis, por sua origem de classe, escapou à miséria da Itália do sul, àquela época ainda longe de ser unificada. Nasceu em berço dourado e desfrutou da boa vida dos jovens ricos de seu tempo. Com pouco mais de 20 anos, ao se identificar com a Boa Nova Samaritana do Movimento de Jesus de Nazaré, entrou em conflito com suas origens burguesas, rompeu relações familiares com o pai e assumiu a pobreza evangélica como modo de vida e posição de classe.
II. A ponte entre Bachelard, Francisco e Spinoza
Se há uma ponte — já que nesse texto vamos tratar de rios e de Amazônia — que pode ligar as belas reflexões do Gaston Bachelard noturno, da imaginação criadora, que viveu na França entre 1884-1962, ao célebre Cântico das Criaturas do Francisco de Assis solar, do louvor à vida, que viveu na Itália entre 1181-1226, essa ponte é feita pela matéria da Mãe Natureza, e não propriamente derivada de Deus — sobretudo no sentido positivado da religião —, a não ser que tal mediação epistêmica e ontológica fosse elaborada por Benedictus de Spinoza, que viveu entre 1632 e 1677, nos Países Baixos, território que hoje compreende dois países: Holanda e Bélgica. Afinal, para o autor da monumental Ética demonstrada de modo geométrico, dizer Deus implica dizer Natureza, e também o contrário, conforme a força ontológica do conceito spinozista de Deus sive Natura. Se Francisco vê a Natureza como criatura que manifesta o Criador, em Spinoza Deus é a própria unidade ontológica entre Natureza Naturante e Natureza Naturada.
III. Oitocentos anos depois: o Dia da Amazônia
Neste ano de 2026 o dia 05 de setembro, Dia da Amazônia, é celebrado — e com pouco a celebrar e muito a lutar — aos 800 anos da passagem da imanência histórica para a transcendência transepocal de Francisco de Assis, o santo mais biografado do calendário católico, haja vista, para citar apenas duas, as célebres biografias de autoria de Gilbert Keith Chesterton e de Jacques Le Goff. Chico de Assis, Il Poverello (O Pobrezinho de Assis), como se tornou conhecido, é, ao mesmo tempo, a figura mais cosmopolita da Itália, o mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos, povo que, de modo sagrado e profano, consegue abrigar pacificamente a Santa Sé e o mais ostensivo e alegre modo blasfemo de ser, atitude que está longe de ser hipócrita ou farisaica, mas, antes, expressão de uma relação humana e familiar com o divino. Algo de natureza teândrica, epicurista, nietzscheana, se quiserem. Jesus de Nazaré, judeu heterodoxo, amante das festas, do vinho e da alegria, tem mais a ver com a iconoclastia italiana do que com a triste ortodoxia vaticana.
IV. O rio que herda seu nome
São Francisco dá nome ao maior rio que nasce e morre no Brasil. Começa desde as belas pequenas fontes da Serra da Canastra mineira, toma corpo hídrico no irredento Nordeste, até desaguar e reviver nas águas do Atlântico. Francisco e o rio que lhe toma o nome manifestam a alma generosa do povo nordestino. É una a santidade de Chico de Assis e a do Velho Chico, nome reverente e carinhoso que este rio-mãe recebeu do sofrido e resistente povo sertanejo. Por sua relação demasiado humana e fraterna com a Natureza, por cuidar de todas as formas de vida, da mais ínfima formiga até o perigoso lobo que aterrorizava a comuna de Gubbio, na região italiana da Úmbria, Francisco de Assis recebeu o título de padroeiro universal da ecologia.
Malgrado a interpretação domesticada, oficial e hierática de sua vida, divulgada pela Igreja Romana e pela própria Ordem Franciscana, Francisco foi um dos primeiros críticos da forma embrionária do mundo burguês que tomava corpo nas cidades italianas dos séculos XII e XIII. Sua clássica ruptura com os laços familiares, sobretudo pelo lado paterno, significava uma rejeição ao que Paulo Freire viria depois denominar de “apetite burguês do êxito pessoal”. Chico foi uma espécie de goliardo contido, mais santo do que contestador.
V. As lágrimas do capital
VI. A imaginação da matéria e a Amazônia
E quanto à rica poética filosófica de Gaston Bachelard sobre a Natureza, desdobrada em seus quatro belos textos sobre a Água, o Ar, a Terra e o Fogo, como encontrar amparo nas ricas mediações epistemológicas de sua igualmente rica e incontornável obra científica? Como fazer a ponte entre o Bachelard diurno da descoberta científica e o Bachelard noturno da imaginação criadora? No Capítulo VII (A Supremacia da Água Doce) de seu livro A Água e os Sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria, Bachelard parece indicar um caminho:
Ao escrever este belo capítulo teria Bachelard pensado na supremacia amazônica materializada na vastidão aquática e doce de suas águas? Francisco de Assis, Spinoza e Bachelard bem que mereciam o título de Cidadãos da Amazônia.
VII. Os povos originários e uma filosofia não cartesiana
O ser social indígena e caboclo da Amazônia, tanto quanto os demais povos originários desse vasto Brasil, notadamente os povos tradicionais, quilombolas, pretas e pretos descendentes da Mãe África, embora tenham, em sua formação, os elementos exógenos do catolicismo medieval, de onde procede a visão contestatória de Francisco de Assis, têm igualmente elementos lógicos e ontológicos afins ao pensamento de Spinoza e Bachelard, por meio do que poderíamos designar de uma inteligibilidade ancestralmente coletiva e culturalmente não explicitada, haja vista sua concepção de Natureza como força a um só tempo imanente, transcendente e não comensurável ao dominante paradigma cartesiano da cultura ocidental. Arrisco a dizer que há nessas culturas não cartesianas estruturas contidas de Spinoza e Bachelard ainda não tematizadas e irredutíveis à prevalente razão instrumental que informa e conforma a dicotomia entre natureza e cultura, objeto e sujeito, que submete vida e pensamento ao metabolismo social do capitalismo. Por fim, e em síntese: o ser social da Amazônia carrega em sua constituição ontológica o ser natural da Amazônia. Guardadas as proporções epistêmicas, ambos têm muito a ver com o Deus sive Natura spinozista.
“O rio, malgrado seus mil rostos, recebe um destino único; sua fonte tem a responsabilidade e o mérito de todo o curso. A força vem da fonte. A imaginação quase não leva em conta os afluentes.”
Nota do editor — Em mais de duas décadas acompanhando o cruzamento entre pensamento político e comunicação pública no Brasil, raras vezes um texto de opinião consegue unir rigor filosófico, sensibilidade poética e clareza de posição como o que segue. José Alcimar de Oliveira confirma, neste ensaio, por que é uma das vozes mais competentes e necessárias quando o assunto é pensar a Amazônia para além do lugar-comum: ele articula Francisco de Assis, Spinoza e Bachelard sem perder o chão da urgência ambiental e social que o presente exige. É o tipo de erudição que não se afasta do povo — ao contrário, devolve a ele a complexidade da própria história. Um acerto, sem dúvida, dar a este professor o espaço para esta reflexão.
Francisco de Assis
Spinoza
Gaston Bachelard
Ecologia Política
Povos Originários
José Alcimar de Oliveira
Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, onde cursou e obteve o mestrado (1998) e o doutorado (2011). Teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA — Seção Sindical, e filho do cruzamento metafórico dos rios Solimões (Manacapuru, AM) e Jaguaribe (Jaguaruana, CE). Desde Manaus, AM, setembro de 2026.





