
ANÁLISE ELEITORAL · VITÓRIA DA CONQUISTA
Como Waldenor Pereira e o petismo conquistense perderam densidade eleitoral nas urnas majoritárias e proporcionais de 2024 — e o que os números revelam sobre o ocaso de um ciclo político de duas décadas.
Vitória da Conquista não é uma cidade qualquer no mapa político baiano. Por quase duas décadas, sob a liderança de Guilherme Menezes, ela funcionou como uma espécie de laboratório do petismo do interior — um reduto que resistia enquanto outras praças baianas se afastavam da legenda. Em 2024, esse capítulo se encerrou de forma inequívoca. Waldenor Pereira, deputado federal e nome escolhido pelo PT e por Lula para tentar recuperar a prefeitura, terminou a disputa em segundo lugar isolado, com 26,74% dos votos válidos — uma derrota que não pode ser lida apenas como o resultado de uma eleição, mas como o retrato estatístico de um processo de erosão eleitoral que já vinha em curso desde 2020.
Este texto se propõe a examinar, com rigor numérico, duas frentes complementares dessa derrota: a queda de densidade do PT na disputa majoritária (a corrida para prefeito) e na disputa proporcional (a corrida para vereador). Os dois movimentos, observados em conjunto, mostram que o problema de Waldenor em 2024 não foi um acidente de percurso, mas a continuidade — e o agravamento — de uma tendência que começou quatro anos antes.
- A queda na disputa majoritária: de 47,63% a 26,74%

O primeiro número que precisa ser confrontado é o da força eleitoral do candidato petista no comando da chapa majoritária. Em 2020, Zé Raimundo chegou ao primeiro turno na frente, com 81.721 votos (47,63% dos válidos), e ainda assim perdeu o segundo turno para Herzem Gusmão, que fechou a eleição com 56% dos votos válidos. Em 2024, o PT não disputou segundo turno: a eleição se decidiu em rodada única, com Sheila Lemos eleita com 58,83% e Waldenor estacionado em 26,74%, pouco mais da metade do percentual que o partido havia obtido no primeiro turno de quatro anos antes.
VOTAÇÃO DO PT/CANDIDATO PETISTA PARA PREFEITO — % DE VOTOS VÁLIDOS
| Ano | Candidato | Votos | % Válidos |
| 2020 (1º turno) | Zé Raimundo | 81.721 | 47,63% |
| 2024 (turno único) | Waldenor Pereira | 52.947 | 26,74% |
| Queda em 4 anos (-28.774 votos absolutos) | –20,9 p.p. | ||
Fonte: TSE / Tribunal Regional Eleitoral da Bahia
A leitura técnica dos dados é direta: o PT perdeu praticamente 21 pontos percentuais de densidade eleitoral na disputa pela prefeitura em apenas um ciclo. Não se trata de uma migração marginal de eleitores — é o desmonte de uma base que, em 2020, ainda era competitiva o suficiente para liderar o primeiro turno. Em votos absolutos, a queda é igualmente expressiva: de 81.721 para 52.947, uma perda de quase 29 mil votos, em um universo eleitoral que, no mesmo período, cresceu.
“A força do voto majoritário do PT em Conquista não desapareceu de um dia para o outro: ela vinha sendo corroída desde a derrota de Zé Raimundo em 2020, e 2024 apenas confirmou, em números ainda mais duros, uma tendência que a militância já temia.”
- A queda na disputa proporcional: menos vereadores, menos peso na Câmara
O segundo eixo da análise é o desempenho proporcional — a eleição de vereadores — que costuma ser o termômetro mais fiel da capilaridade real de um partido, pois depende de centenas de candidaturas pulverizadas no território, e não apenas da força de um nome de topo de chapa. Em 2020, o PT elegeu quatro vereadores em uma Câmara de 21 cadeiras (Alexandre Xandó, Fernando Jacaré, Valdemir Dias e Viviane), o equivalente a 19% das vagas. Em 2024, mesmo com a Câmara ampliada para 23 cadeiras, o partido manteve apenas três vereadores eleitos — uma fatia de 13% do total, abaixo da marca anterior tanto em número absoluto quanto, principalmente, em peso relativo.
BANCADA DO PT NA CÂMARA DE VITÓRIA DA CONQUISTA
| Eleição | Vereadores PT | Total de cadeiras | % da Câmara |
| 2020 | 4 | 21 | 19,0% |
| 2024 | 3 | 23 | 13,0% |
| Redução do peso relativo na Câmara | –6 p.p. | ||
Fonte: TSE / Tribunal Regional Eleitoral da Bahia
O dado da Câmara é particularmente revelador porque expõe um problema estrutural que vai além do desgaste de uma candidatura específica: o eleitorado de bairro, aquele que historicamente sustentava redutos petistas em zonas como Brasil, Candeias e Recreio, vem se dispersando entre legendas que ocuparam o espaço deixado pelo PT — União Brasil, PSD, Republicanos e PC do B (este último mantendo-se estável, com três cadeiras em ambos os pleitos, sinal de que parte da esquerda conquistense conseguiu reter capilaridade mesmo enquanto o PT perdia a sua).
- Por que o PT perdeu densidade em Vitória da Conquista
Quatro fatores técnicos ajudam a explicar essa erosão, e nenhum deles, isoladamente, seria suficiente para produzir um resultado tão acentuado — é a combinação deles que gera o efeito de queda abrupta observado nos dados acima:
- a) Aprovação consolidada da gestão adversária. Sheila Lemos chegou à disputa de 2024 como prefeita em exercício, com índices de aprovação consideravelmente altos nas pesquisas de opinião realizadas antes do primeiro turno, fator que historicamente reduz o espaço para qualquer candidatura de oposição, independentemente do partido.
- b) Efeito acumulado de duas derrotas seguidas. A derrota de Zé Raimundo em 2016 e novamente em 2020 — ambas para o mesmo campo político hoje liderado por Sheila Lemos — já vinha desidratando o capital eleitoral do petismo local. Waldenor não herdou uma base intacta: herdou uma base que perdia força havia dois ciclos consecutivos.
- c) Nacionalização do desgaste do PT. O apoio explícito de Lula e do governador Jerônimo Rodrigues a Waldenor amarrou a candidatura municipal à avaliação do quadro estadual e federal do partido, em um pleito no qual o eleitorado tende a privilegiar critérios locais de gestão — o que pode ter neutralizado parte do efeito de arrasto que esse apoio buscava produzir.
- d) Fragmentação da capilaridade proporcional. A queda de quatro para três vereadores, mesmo com mais cadeiras em disputa, indica que o problema não foi apenas a imagem do candidato a prefeito, mas a capacidade do partido de manter estruturas de base capazes de puxar votos distrito a distrito.
Lula e o governador Jerônimo Rodrigues declararam apoio público a Waldenor durante toda a campanha, reforçando o peso da chancela federal e estadual na disputa conquistense — um movimento que, no entanto, não foi suficiente para conter a perda de densidade do petismo na cidade.
- O retrato consolidado: dois pleitos, uma só direção
Quando se sobrepõem os dois movimentos — a queda de 47,63% para 26,74% na majoritária e a redução de 19% para 13% do peso proporcional na Câmara — o diagnóstico técnico é convergente: não houve, em 2024, um problema isolado de candidatura ou de coligação, mas uma perda sistêmica de densidade eleitoral do PT em todas as camadas do voto conquistense. A tabela abaixo resume essa convergência, comparando a variação percentual de força em cada uma das duas arenas eleitorais.
VARIAÇÃO DE FORÇA ELEITORAL DO PT EM VITÓRIA DA CONQUISTA (2020→2024)
| Indicador | Variação |
| Voto majoritário (prefeito) | –20,9 p.p. |
| Peso proporcional na Câmara (vereadores) | –6,0 p.p. |
| Votos absolutos perdidos (prefeito) | –28.774 votos |
Fonte: TSE / Tribunal Regional Eleitoral da Bahia
Esse cruzamento de indicadores é o que transforma a derrota de Waldenor de um episódio de conjuntura em um sinal estrutural: quando a queda aparece simultaneamente no topo da chapa e na base da militância, o problema deixa de ser apenas ‘quem’ disputou e passa a ser ‘como’ o partido se organiza territorialmente. Reconstruir essa densidade, daqui para os próximos pleitos, exigirá do PT conquistense menos aposta em nomes de arrastão e mais investimento em capilaridade de bairro — exatamente o terreno em que a sigla perdeu mais espaço entre 2020 e 2024.
Os números, frios e técnicos, não absolvem nem condenam isoladamente nenhum nome. Eles apenas confirmam que, em Vitória da Conquista, o ciclo histórico inaugurado pelo PT no início dos anos 2000 chegou, nas urnas de 2024, ao seu ponto mais baixo desde a redemocratização do município — tanto na disputa pelo comando do Executivo quanto na disputa pelas cadeiras do Legislativo.
Política e Resenha · Análise Eleitoral · Fonte dos dados: TSE / Tribunal Regional Eleitoral da Bahia




