
A política, meus caros, não é o reino das intenções piedosas. É o território áspero da aritmética orçamentária. Discurso não tapa buraco, não paga folha de hospital, não amplia leito de UPA. O que faz isso é dinheiro. Recurso. Dotação. Empenho. Liquidação. Pagamento. O resto é fumaça retórica.
Pois bem.
A vereadora Dra. Lara, na tribuna da Câmara de Vitória da Conquista, fez o que muitos evitam: trouxe números. E números, quando honestos, têm a deselegância de não permitir maquiagem. A comparação é simples e devastadora. Enquanto Petrolina recebeu cerca de R$ 300 milhões em emendas parlamentares, Vitória da Conquista ficou com minguados R$ 29 milhões. Repito: R$ 29 milhões. Estamos falando de menos de 10% do valor destinado à cidade pernambucana.
É preciso dizer o óbvio: Conquista não fica em Nárnia.
Não é um enclave imaginário fora da República. A cidade está submetida ao mesmo pacto federativo capenga que rege o país inteiro. O município arrecada apenas 18% dos tributos. O Estado fica com 24%. A União concentra 48%. Trata-se de uma centralização asfixiante. O dinheiro sai do comércio local, da indústria, da prestação de serviços, do suor do contribuinte conquistense e vai abastecer os cofres de Brasília. Se metade da riqueza produzida aqui é sugada para o centro do poder, o mínimo que se espera é que o fluxo de retorno seja republicano e proporcional.
Mas não é.
Quando cidades de porte semelhante recebem valores tão díspares, o problema não é técnico. É político. A diferença de 300 milhões para 29 milhões não é detalhe contábil — é sintoma de irrelevância. É ausência de articulação. É déficit de eficiência administrativa no plano da representação parlamentar.
A pergunta que se impõe é incômoda: a bancada eleita com votos da região sofre de anemia política ou é apenas desinteresse pelo chão da paróquia? Falta prestígio? Falta trânsito nos ministérios? Falta vontade? Ou sobra conveniência em posar para fotografia enquanto o Orçamento passa ao largo?
Em ano eleitoral, convém abandonar a conversa mole. Não se mede eficiência por discursos inflamados nem por vídeos nas redes sociais com trilha sonora épica. Mede-se por recursos garantidos no Orçamento Geral da União. Mede-se por capacidade de pressão institucional. Mede-se por resultados.
Petrolina demonstra que articulação republicana funciona quando há empenho. Vitória da Conquista, ao receber menos de 10% do que uma cidade comparável conseguiu, revela um problema de peso político. E peso político, gostem ou não, se constrói com presença, negociação, capacidade técnica e firmeza de posição — não com retórica vazia.
O pacto federativo brasileiro já é estruturalmente desigual. A União concentra poder demais. Mas a desigualdade estrutural não explica tudo. Explica parte. O resto é falha de representação. É incapacidade de fazer o dinheiro do contribuinte percorrer o caminho de volta.
A política não é exercício de intenção piedosa. É disputa concreta por orçamento. Quem não disputa perde. Quem não pressiona fica à margem. Quem não articula é ignorado.
E aqui chegamos ao ponto crucial: o eleitor.
Em ano de escolha, cabe ao cidadão decidir se premia a irrelevância ou se exige eficiência administrativa real. Se aceita continuar assistindo ao dinheiro embarcar rumo a Brasília sem bilhete de volta, ou se cobra, com o peso do voto, que cada centavo arrecadado tenha destino visível em asfalto, saúde, educação e infraestrutura.
A política, afinal, não se faz com discursos. Faz-se com recursos no Orçamento.
O resto é Nárnia.




