Política e Resenha

O Elogio Adiado: Quando Só a Morte Nos Liberta para o Reconhecimento

 

 

 

A palavra elogio deriva de duas palavras da língua grega e significa “bom” ou “bem” — é o enaltecimento de uma qualidade ou virtude de alguém. Ressaltar as qualidades de uma pessoa em vida é muito difícil, principalmente quando se vive e milita no meio político. Tudo o que você disser poderá ser usado contra você e seu grupo um dia. Dentro de uma cultura de disputas constantes, reconhecer competências e valores nos torna, aos olhos de alguns, menores diante daquele que exaltamos. Mas eis o paradoxo que nos assombra: quando a morte chega, esse silêncio calculado se rompe em cascata de louvores. A recente partida de Raul Ferraz, figura marcante da política conquistense, nos obriga a refletir sobre esse adiamento que praticamos. Foi assim também com José Pedral, Jadiel Matos, Sebastião Castro, Clóvis Assis, Coriolano Sales, Herzem Gusmão — homens que só receberam o devido reconhecimento quando já não podiam mais ouvi-lo.

O Tabu Cultural que Nos Empobrece

Vivemos em uma cultura política onde o reconhecimento dos méritos alheios, especialmente dos adversários, parece ser um tabu quase sagrado. Há um receio instintivo de que elogiar o outro — ainda que por suas virtudes, sua dedicação à vida pública ou sua contribuição à cidade — seja interpretado como fraqueza ou traição ideológica. Essa postura, porém, nos empobrece profundamente como sociedade. Machado de Assis, em sua argúcia implacável, já havia percebido essa hipocrisia humana quando escreveu: «está morto: podemos elogiá-lo à vontade». A frase, publicada há mais de um século, continua a ecoar com perturbadora atualidade em nossos dias.

A morte, no meio político, tem essa capacidade quase mágica de propiciar a unanimidade no elogio. Por quê? Porque, na verdade, ninguém é absolutamente mau ou inteiramente bom. O defeito e a virtude coexistem em cada um de nós e traduzem essa circunstância que nos individualiza e humaniza. Quando alguém parte, a ameaça desaparece — já não há competição, já não há disputa eleitoral, já não há risco de fortalecimento do adversário. Então, e somente então, nos permitimos ser generosos. Que triste libertação é essa que só a morte proporciona!

O Esvaziamento de Uma Geração e a Saudade do Projeto

Perante esta atmosfera de luto que se repete com frequência crescente, o consenso e os elogios que estamos habituados a testemunhar nos questionam sobre nossos propósitos e sinceridade em relação ao outro. E aqui chegamos ao cerne mais doloroso desta reflexão: tenho cada vez mais a certeza de que uma geração de políticos forjados nas lutas contra o regime militar, que viveu a política com sentido de projeto e de serviço, está acabando. Não se trata de idealização nostálgica, mas de reconhecer uma verdade histórica incontornável.

Essa geração — que incluía Raul Ferraz, José Pedral, Jadiel Matos e tantos outros — carregava consigo uma visão de mundo moldada pela resistência, pela clandestinidade, pelo sacrifício pessoal em nome de um ideal coletivo. Eram homens e mulheres que aprenderam política não em cursos rápidos ou em marketings eleitorais, mas nas reuniões secretas, nos porões da ditadura, nas greves operárias, nas comunidades de base. A política, para eles, não era carreira — era missão. Não era performance — era compromisso existencial.

O vazio que se forma no meio político hoje tem muito a ver com esse esvaziamento geracional. Constata-se, em alguns quadros atuais, um amadorismo preocupante, uma falta de densidade intelectual e de preparo técnico que contrasta brutalmente com a formação daquela geração. Não se trata de romantizar o passado ou de negar que aqueles homens também tinham suas falhas — como disse o filósofo, somos a soma de todos os sins e nãos que damos em nossas vidas. Qualquer pessoa está sujeita a gestos de extrema covardia e pode, ao mesmo tempo, nos surpreender com atos heroicos que jamais poderíamos esperar. Mas há uma diferença qualitativa inegável entre quem aprendeu política na escola da vida e da luta, e quem a aprendeu como técnica de conquista de poder.

E agora me pergunto, com genuína angústia: será que vamos repetir esse padrão com Guilherme Menezes e Elquisson Soares? Vamos esperar que eles também partam para, só então, reconhecer suas trajetórias, sua firmeza de ideias, suas contribuições ao debate público? Quantos nomes mais precisarão desaparecer para que aprendamos a valorizar a presença enquanto ela ainda se faz corpo, voz e ação entre nós?

O Remédio do Reconhecimento em Vida

Precisamos romper com essa lógica que adia o elogio e posterga a gratidão. Valorizar o outro em vida — mesmo que pense diferente de nós, mesmo que tenha sido adversário em disputas acirradas — é um gesto de grandeza, de maturidade democrática e de humanidade. Não somos o que somos por acaso: diversos fatores externos e internos nos forjam o caráter e nos definem como pessoas. Reconhecer isso no outro é reconhecer nossa própria humanidade compartilhada.

Ressaltar as qualidades dos companheiros — e por que não dos adversários dignos? — talvez seja o remédio que tanto falta ao nosso ambiente político. Esse reconhecimento promove a autoestima coletiva, fortalece o sentido de comunidade e nos lembra de que somos capazes não apenas de assumir responsabilidades em partidos, mas de construir uma política à altura dos desafios que nossa cidade e nosso país enfrentam. A história de Vitória da Conquista é feita por muitos nomes, de diferentes matizes, e todos eles merecem ser lembrados com justiça e respeito enquanto ainda caminham entre nós.

Portanto, meu apelo final é simples, mas urgente: não esperemos a morte para sermos justos. Não precisemos de caixões para sermos generosos. A grandeza de uma sociedade se mede não apenas por suas conquistas materiais, mas por sua capacidade de reconhecer, valorizar e celebrar aqueles que se dedicam ao bem comum — ainda que imperfeitos, ainda que falíveis, ainda que diferentes de nós. Quem, em sua vida, merece hoje um elogio que você tem adiado? Quem merece ouvir, ainda em vida, o reconhecimento que certamente receberá quando não puder mais escutá-lo? A resposta a essa pergunta pode ser o primeiro passo para uma política mais humana, mais madura e mais digna do legado daquela geração que, infelizmente, está se despedindo de nós.

Padre Carlos