Análise política — Rio de Janeiro
O estado que elegeu uma lista telefônica de investigados e ainda acha que o problema é falta de sorte
Do Palácio Guanabara aos tribunais, uma crônica de gestão pública onde a tornozeleira virou acessório obrigatório de mandato

Existe uma teoria, amplamente aceita entre os fluminenses mais otimistas, de que o Rio de Janeiro é uma vítima das circunstâncias. Que a cidade — esplêndida, solar, de uma beleza quase ofensiva — simplesmente tem a infelicidade crônica de eleger pessoas erradas. Uma maldição. Um azar cósmico. Um alinhamento desfavorável de planetas sobre a Baía de Guanabara. É uma teoria reconfortante. E é, também, matematicamente improvável.
Porque quando o acaso se repete com essa regularidade, com essa precisão, com essa consistência quase didática através de décadas e partidos e Poderes, é preciso fazer as pazes com a hipótese de que talvez não seja azar. Talvez seja método.
O poder executivo — ou: a fila anda (para a cela)
Sérgio Cabral governou o Rio por oito anos. Oito anos durante os quais o estado recebia royalties do pré-sal, sediava Copa do Mundo e Olimpíadas, e acumulava uma dívida moral que ainda não terminou de ser cobrada. Quando a Polícia Federal chegou, encontrou o que os auditores competentes já suspeitavam há anos: um esquema de corrupção sistêmica que atravessava obras, contratos, secretarias e fortunas escondidas em offshores. Cabral foi preso. Condenado. E o estado que ele deixou para trás entrou em colapso fiscal poucos anos depois.
Pezão herdou o cargo e, com ele, a estrutura. Foi preso em 2018, direto do Palácio Guanabara, num gesto que teria algo de teatral se não fosse tão literal. Garotinho entrou e saiu do sistema judicial com uma frequência que desafia qualquer cronograma partidário. Witzel chegou com discurso de ruptura e saiu pelo impeachment. Cada um com seu método, cada um com sua conta, nenhum com vergonha suficiente para interromper o ciclo.
“Não se fala mais em alternância de poder. Fala-se em revezamento de prontuário.”
A assembleia — onde se legislava para si mesmo
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro não foi vítima desse sistema. Foi parte constitutiva dele. Três presidentes consecutivos presos — Picciani, Paulo Melo, Albertassi — não é uma anomalia estatística. É uma cultura. É o resultado de uma instituição que, por anos, operou como câmara de compensação de interesses privados com verniz de mandato popular.
E enquanto isso acontecia nos gabinetes, nos plenários, nos corredores onde se negociavam votos e contratos, o estado deixava de pagar servidores, fechava hospitais, acumulava uma dívida previdenciária que suas populações mais vulneráveis pagariam — e ainda pagam — com serviços que nunca chegaram.
O tribunal de contas — o fiscal que precisou ser fiscalizado
Há algo particularmente revelador na Operação Quinto de Ouro. O Tribunal de Contas do Estado existe, constitucionalmente, para uma função: garantir que o dinheiro público seja gasto como deveria ser. É o freio. É o controle. É a última linha de defesa antes do desvio virar impunidade consolidada. E foi exatamente esse órgão que a operação desmantelou — com cinco conselheiros presos, praticamente o quórum de uma sessão deliberativa.
Jonas Lopes, Domingos Brazão, Graciosa, Alencar, Nolasco. O fiscal estava sendo pago para não fiscalizar. O controle estava sendo controlado por quem deveria ser controlado. Não houve falha sistêmica. Houve captura sistêmica — e há uma diferença brutal entre as duas coisas.
Domingos Brazão, conselheiro do TCE, é também o principal suspeito de ter mandado matar Marielle Franco e Anderson Gomes. O mesmo homem. O mesmo sistema. A mesma impunidade que levou anos para ser formalmente rompida — e que ainda tramita nos tribunais enquanto as famílias esperam.
Marielle — o nome que o sistema tentou apagar
O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, em março de 2018, não foi um crime isolado. Foi a expressão mais brutal e mais visível de algo que já estava dado: a interpenetração entre o poder político institucional e o poder paralelo das milícias. Marielle incomodava porque nomeava o que muitos preferiam deixar sem nome. Foi morta por isso.
Levou seis anos para que os mandantes fossem formalmente acusados. Seis anos durante os quais o caso ficou sem resposta, as investigações foram sabotadas, e o nome dela foi usado em discursos de pessoas que, descobriu-se depois, faziam parte da mesma estrutura que a eliminou. A ironia não é apenas cruel — é institucional.
“Marielle Franco não foi morta apesar das instituições. Foi morta dentro delas, por elas, com a cumplicidade silenciosa de quem governava e sabia — e preferiu não saber.”
Eleições indiretas — o clube que se governa a si mesmo
É nesse contexto — e não no abstrato — que a discussão sobre eleições indiretas precisa ser feita. Porque a pergunta não é teórica. Não é sobre filosofia política ou modelos constitucionais comparados. A pergunta é concreta, e o Rio responde a ela com décadas de evidência empírica: se o voto popular, com toda a sua imperfeição, produziu essa sequência de gestores investigados e presos, o que produziria um processo em que esses mesmos atores escolheriam seus sucessores entre si?
A resposta não é difícil. É desconfortável. Uma eleição indireta, no contexto fluminense, não seria um mecanismo de correção — seria um mecanismo de perpetuação. Um sistema fechado onde a predação institucional elegeria a si mesma com toda a solenidade de um ritual democrático esvaziado por dentro. Não haveria ruptura. Haveria renovação de fachada com continuidade de estrutura.
O custo real — que não aparece nos relatórios
Tudo isso tem um preço que não está nos processos judiciais nem nas manchetes de operações policiais. Está nas filas de hospital que não funcionam. Nos salários de servidores pagos com meses de atraso. Nas escolas sem material, nas delegacias sem viatura, nos bombeiros sem equipamento. Está nos morros onde o Estado nunca chegou porque havia algo mais lucrativo do que governar: era cobrar para não atrapalhar quem já governava por conta própria.
O Rio de Janeiro tem uma das cargas tributárias mais pesadas do país e alguns dos piores indicadores de serviço público. Essa não é uma equação de incompetência. É uma equação de desvio. O dinheiro existia. Ele foi para outro lugar. E as pessoas que deveriam responder por isso, na sua maioria, ainda transitam pelos mesmos corredores — com mandato novo, discurso reformulado, e a mesma estrutura intacta.
“O Rio não é pobre de recursos. É pobre de instituições que funcionem para quem paga — e não para quem cobra para não atrapalhar.”
Conclusão — sem final reconfortante
O Cristo Redentor continua de braços abertos sobre uma cidade que merecia mais do que recebeu de quem jurou servi-la. O pôr do sol na Urca continua sendo uma das coisas mais belas que o mundo produziu — e continua sendo a imagem que o poder usa para vender normalidade onde há décadas de espoliação acumulada.
Não há final reconfortante aqui. Não há moral edificante que encerre o argumento com esperança calculada. O que há é uma pergunta que o Rio ainda não respondeu — e que nenhuma operação policial, por mais eficaz que seja, responde sozinha: como se reconstrói a confiança em instituições que foram capturadas por dentro, durante décadas, com a cumplicidade ativa de quem deveria guardá-las?
Essa pergunta não tem resposta jurídica. Tem resposta política. E a resposta política depende de cidadãos que decidam, coletivamente, que a beleza da cidade não é desculpa suficiente para a fealdade de quem a governa.
O Rio merece mais. Sabe disso. E continua, com uma paciência que beira o inexplicável, esperando que alguém à frente das suas instituições chegue à mesma conclusão.
O humor foi embora. O problema ficou.




