Política e Resenha

O Evangelho não cabe na extrema-direita

POLÍTICA E RESENHA · ARTIGO DE OPINIÃO

 Brasil precisa ouvir o Papa

Por Padre Carlos

Há momentos em que uma palavra religiosa ultrapassa os muros dos templos e alcança o debate público. Foi o que aconteceu nesta semana, quando o Papa Leão XIV, durante o voo de retorno da França para Roma, foi questionado sobre o crescimento da extrema-direita na Alemanha e sua aproximação com determinadas expressões religiosas.

A resposta do Papa merece ser lida com atenção — e também com responsabilidade.

Leão XIV não disse que todo eleitor de direita deixou de ser cristão. Não disse em quem os católicos ou evangélicos devem votar. Tampouco transformou o Vaticano em comitê eleitoral. O que fez foi muito mais profundo: colocou uma questão diante da consciência cristã.

O Papa afirmou que determinadas manifestações que combinam posições de extrema-direita com uma forma de religiosidade “não constituem uma expressão autêntica do cristianismo”. E, imediatamente, apontou para o Evangelho: compreensão, compaixão e acompanhamento, em lugar do ódio e da divisão. (Vatican News)

Essa palavra, embora pronunciada tendo como referência a realidade alemã e europeia, inevitavelmente provoca uma reflexão no Brasil.

Porque também aqui estamos diante de uma disputa pela utilização política do nome de Deus.

Quando a fé vira identidade partidária

Durante muito tempo, uma parcela significativa da política brasileira aprendeu a falar a linguagem da religião.

Bíblia na mão. Deus no discurso. Família no palanque. Pátria nas bandeiras. Cristianismo como identidade política.

Nada disso é, por si só, um problema. O cristão tem todo o direito de participar da política, defender suas convicções e votar de acordo com sua consciência.

O problema começa quando uma determinada posição política passa a reivindicar para si o monopólio da representação cristã.

Quando alguém diz: “nós somos os verdadeiros cristãos”, automaticamente coloca milhões de outros cristãos fora da comunidade da fé.

E isso é teologicamente perigoso.

O Evangelho não criou um partido político. Jesus não fundou uma legenda. Os apóstolos não organizaram uma bancada parlamentar.

O cristianismo nasceu anunciando uma novidade muito mais radical: a dignidade humana não depende de classe social, nacionalidade, poder econômico, partido ou posição política.

É justamente por isso que a declaração de Leão XIV merece ser discutida no Brasil.

O Papa lembrou que o Evangelho não é uma religião do ódio e da divisão. (Vatican News)

Essa frase deveria ser colocada diante de todos os partidos, de esquerda, centro e direita.

Mas, sobretudo, deveria ser colocada diante daqueles que pretendem falar politicamente em nome de Deus.

O cristão pode ser de direita?

Pode.

Pode ser de esquerda.

Pode ser liberal, conservador, social-democrata, socialista, democrata-cristão ou simplesmente não se identificar com nenhuma dessas classificações.

A fé cristã não elimina a liberdade política.

Mas existe uma pergunta que todo cristão deveria fazer antes de entrar na cabine eleitoral:

Minha escolha política está de acordo com os valores que afirmo defender como cristão?

Essa pergunta é diferente de perguntar:

“Qual candidato fala mais de Deus?”

Porque falar de Deus não transforma automaticamente alguém em representante de Deus.

A Bíblia já advertia sobre isso.

O cristianismo não se mede pela quantidade de vezes que um político pronuncia a palavra “Deus”. Mede-se também pela maneira como ele trata os pobres, os estrangeiros, os adversários, os presos, os trabalhadores, as minorias, os diferentes e aqueles que não possuem poder.

É aí que a política encontra a ética cristã.

Não basta colocar Deus no discurso

O Brasil precisa superar uma perigosa confusão entre cristianismo e identidade política.

Uma pessoa pode frequentar uma igreja todos os domingos e defender políticas incompatíveis com determinados princípios cristãos.

Outra pode não frequentar regularmente uma igreja e defender políticas que correspondam a valores que muitos cristãos consideram fundamentais.

A questão não é descobrir quem possui o monopólio da fé.

A questão é perguntar o que cada projeto político produz na vida concreta das pessoas.

Quem combate a fome?

Quem defende a dignidade dos trabalhadores?

Quem protege as crianças?

Quem combate a violência?

Quem defende a família sem transformar outras famílias em inimigas?

Quem trata o adversário político como ser humano?

Quem respeita o Estado Democrático de Direito?

Quem consegue discordar sem transformar o diferente em inimigo?

São perguntas que deveriam estar presentes na consciência de todo eleitor cristão.

E não apenas nas eleições presidenciais.

Também nas eleições para governador, senador, deputado federal e deputado estadual.

O Papa não escolhe o voto do brasileiro

Aqui está uma distinção fundamental.

Leão XIV não está dizendo ao brasileiro em quem votar.

Sua declaração não pode ser transformada em uma espécie de “ordem papal” para determinada eleição brasileira.

Isso seria reduzir a profundidade da mensagem do Papa.

O que ele está fazendo é recolocar o Evangelho como critério moral diante da instrumentalização política da religião.

E isso vale para todos.

Vale para a direita.

Vale para a esquerda.

Vale para o centro.

Vale para católicos.

Vale para evangélicos.

Vale para quem acredita e para quem não acredita.

A democracia exige que cada cidadão faça suas próprias escolhas.

Mas a fé cristã também exige que o cristão examine sua consciência.

E aqui está o ponto que incomoda

Talvez a pergunta mais incômoda para um cristão brasileiro não seja:

“Em quem Jesus votaria?”

Essa pergunta é impossível de responder eleitoralmente.

A pergunta mais séria é:

“O modo como estou escolhendo meu candidato é coerente com aquilo que Jesus ensinou?”

É muito diferente.

Porque permite que o eleitor examine suas próprias paixões.

O cristão pode discordar da esquerda.

Pode discordar da direita.

Pode ser contrário ao aborto.

Pode defender a família tradicional.

Pode defender políticas de segurança mais duras.

Pode defender uma economia de mercado.

Pode defender programas sociais.

Pode defender o Estado mínimo ou uma presença maior do Estado.

Tudo isso pertence ao campo legítimo do debate político.

Mas há uma fronteira ética que merece atenção: quando o adversário deixa de ser adversário e passa a ser tratado como inimigo a ser destruído.

É aí que o discurso político começa a se afastar daquele Evangelho ao qual Leão XIV fez referência.

O cristianismo não precisa de inimigos

Há uma passagem extraordinária no Evangelho de Mateus em que Jesus pergunta:

“Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis?”

Talvez essa seja uma das perguntas mais difíceis para a política contemporânea.

Porque é relativamente fácil amar quem pensa como nós.

O desafio cristão começa quando encontramos alguém que pensa diferente.

É fácil defender a liberdade de expressão quando o outro concorda conosco.

Difícil é defendê-la quando o outro nos incomoda.

É fácil falar em democracia quando vencemos.

Difícil é respeitá-la quando perdemos.

É fácil falar em família.

Difícil é construir uma sociedade onde nenhuma família precise viver abandonada pela fome, pela violência ou pela ausência do Estado.

É fácil falar em Deus.

Difícil é levar a sério aquilo que Deus exige do ser humano.

O Brasil diante das urnas

As próximas eleições brasileiras serão, mais uma vez, um grande teste para nossa democracia.

E os cristãos terão participação decisiva nesse processo.

Mas não deveriam votar simplesmente porque determinado candidato coloca a Bíblia sobre a mesa.

Nem porque alguém diz representar “os verdadeiros cristãos”.

Nem porque determinado político foi fotografado dentro de uma igreja.

Nem porque outro candidato é acusado de não ser cristão.

O voto cristão não deveria ser um voto de torcida.

Deveria ser um voto consciente.

Um voto capaz de examinar propostas, comportamentos, compromissos, histórico, respeito às instituições e, sobretudo, a maneira como cada candidato compreende a dignidade humana.

É possível ser cristão e votar diferente do meu vizinho.

É possível ser católico e votar diferente de outro católico.

É possível ser evangélico e votar diferente de outro evangélico.

Isso não destrói a fé.

Isso é democracia.

O que destrói o cristianismo político é imaginar que Deus pertence ao nosso partido.

A palavra do Papa chega ao Brasil

Quando Leão XIV fala que determinadas associações entre extrema-direita e religião não constituem uma expressão autêntica do cristianismo, ele não está oferecendo uma senha eleitoral.

Está fazendo uma advertência espiritual.

E essa advertência precisa ser levada a sério.

O cristianismo não pode ser sequestrado pela extrema-direita.

Mas também não pode ser sequestrado pela esquerda.

Deus não é cabo eleitoral de ninguém.

O Evangelho é maior do que os partidos.

Maior do que as ideologias.

Maior do que as campanhas eleitorais.

Maior do que os interesses de grupos religiosos.

E talvez seja justamente por isso que a palavra de Leão XIV incomode tanto.

Porque ela devolve ao cristão uma responsabilidade que nenhuma liderança política pode assumir em seu lugar:

a responsabilidade de examinar a própria consciência diante do Evangelho.

Nas eleições brasileiras, ninguém deveria receber do Papa uma ordem sobre em quem votar.

Mas todo cristão deveria carregar consigo uma pergunta muito mais exigente:

Meu voto ajuda a construir uma sociedade mais próxima da justiça, da compaixão, da dignidade humana, da paz e da fraternidade — ou alimenta o ódio, a exclusão e a divisão?

Essa pergunta não é de esquerda.

Não é de direita.

É uma pergunta profundamente humana.

E, para quem se diz cristão, é também uma pergunta profundamente evangélica.

Padre Carlos

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