Por Padre Carlos
A história, quando contada pelos vencedores, costuma vestir fraque, perfumar-se com retórica e esconder as cicatrizes. Mas, vez ou outra, o tempo abre uma fresta — e por ela escapa a verdade em carne viva. Foi assim que, trinta anos depois, a voz de Leonel Brizola voltou a ecoar, retirada do fundo de quatro fitas cassetes esquecidas, restauradas com o zelo de quem desenterra um relicário.
No livro “Leonel Brizola por ele mesmo – Documento inédito”, organizado por Juliana Brizola e pela jornalista Rejane Guerra, o ex-governador não é o tribuno inflamado das praças, nem o líder exilado que enfrentou ditaduras. É o menino descalço de Carazinho. É o filho órfão antes mesmo de saber o peso da palavra “orfandade”.
“Eu me criei sob o signo desse fato, da morte do velho”, diz ele. O pai, José Brizola, camponês maragato, tombado na Revolução de 1923, vítima das disputas entre chimangos e maragatos. E ali, naquele instante inaugural, como se fosse capítulo de romance social, estava forjado o primeiro aço de sua personalidade: a dor como pedagogia.
Brizola não tinha sapatos até os seis anos. Não conhecia escova de dentes. Trabalhava antes de completar dez. A mãe, Onívia, alfabetizou os filhos com a dignidade das mulheres que não se rendem ao destino imposto. O menino dividia o tempo entre o açougue e o sonho. Distribuía carne com ganchos de ferro e, às escondidas, invadia o internato da cidade apenas para olhar os meninos “arrumadinhos” que podiam estudar.
Há nessa imagem uma potência literária que Jorge Amado compreenderia de imediato: o herói não nasce pronto — ele é moldado na injustiça. O Partido Comunista Brasileiro, em sua pedagogia política, sabia construir seus quadros como símbolos vivos da luta de classes: extraía da biografia o mito, da carência a chama, da exclusão a narrativa épica. Brizola, embora nunca comunista — como ele próprio sublinha com certa ironia —, carregava em sua trajetória todos os elementos da forja popular: origem humilde, enfrentamento precoce da desigualdade, consciência adquirida no trabalho.
Na universidade, encontrou a polarização. De um lado, os “punhos de renda”, filhos da elite rural. De outro, os comunistas organizados em células, seguros de sua doutrina. Ele, porém, vinha de outra trincheira: a dos que trabalhavam. Sargentos, cabos, funcionários da Varig. Homens que suavam antes de discursar. Ali, no meio dessa terceira margem, nasceu o trabalhismo que o consagraria.
Não era ideologia de gabinete; era política de chão batido.
Quando conta que viveu quase um ano nas ruas de Porto Alegre, enfrentando as piores condições, não há vitimismo. Há constatação. Como se dissesse: “Foi assim que aprendi”. E é impossível não perceber que os CIEPs, décadas depois, não foram apenas um projeto educacional — foram a resposta de um menino que um dia foi expulso do portão da escola.
O herói popular, na tradição das esquerdas latino-americanas, não é o homem sem falhas. É o homem que encarna o sofrimento coletivo e o transforma em programa político. Brizola tornou-se isso: símbolo do órfão que desafiou o destino, do trabalhador que enfrentou a elite, do político que falava com o povo sem pedir licença aos salões.
O prefácio de Roberto D’Ávila e a apresentação de Bernardo Mello Franco não apenas legitimam a obra — ajudam a inseri-la no debate contemporâneo. Porque, num tempo de lideranças plastificadas e discursos calculados por marqueteiros, ouvir a voz rouca de um homem que não tinha certidão de nascimento aos 14 anos é quase um choque moral.
Este livro não é um monumento. É um espelho.
Ele nos obriga a perguntar: onde estão hoje os meninos que distribuem carne e sonham com escola? Quem fala por eles? Quem invade simbolicamente os portões fechados do privilégio?
A história de Brizola, resgatada do pó magnético das fitas, não serve apenas para veneração. Serve como advertência. O Brasil continua sendo um país onde muitos ainda estudam e trabalham antes da infância terminar. Onde a certidão de nascimento — literal ou simbólica — ainda é negada a milhões.
O menino que olhava o internato pela fresta decidiu, um dia, abrir os portões. Eis o gesto fundador do herói popular: transformar a própria carência em política pública.
E talvez seja isso que mais incomoda — ontem como hoje. Porque um homem que conhece a fome não negocia facilmente o direito à dignidade.
Brizola não inventou apenas discursos. Inventou a si mesmo. E, ao fazê-lo, inventou também uma possibilidade de amanhã para os descalços deste país.





