
(Padre Carlos)
Há hospitais que atendem. Há hospitais que lutam. E há o Hospital Municipal Esaú Matos, que faz as duas coisas enquanto carrega nas costas uma região inteira, como um velho gigante exausto, mas ainda de pé. O que os números revelados recentemente mostram não é apenas um relatório administrativo: é um grito de alerta que ecoa pelo interior da Bahia, pelo Norte de Minas Gerais e por cada comunidade que depende da saúde pública como único caminho para sobreviver.
A superlotação do Esaú Matos deixou de ser fato extraordinário e tornou-se paisagem diária. A maternidade que deveria ser um porto seguro tornou-se uma fortaleza pressionada por demandas infinitas. Cerca de 135 municípios despejam ali suas urgências, suas gestantes vulneráveis, seus recém-nascidos frágeis — uma verdadeira peregrinação involuntária que reflete o colapso silencioso da rede básica de saúde. Não é normal, mas virou rotina: 200 crianças por dia, classificadas como fichas verdes e azuis, abarrotam a emergência com problemas que deveriam ser resolvidos nas UBS. O hospital, que deveria ser a última linha de cuidado, virou a primeira, a segunda e a terceira.
E quando um sistema falha na base, a tragédia se instala no topo. A direção do Esaú revelou sem rodeios aquilo que todos já imaginavam: falta médico porque falta remuneração digna; falta estrutura porque a Tabela SUS é uma peça arqueológica; falta respiro porque o déficit mensal ainda beira os R$ 600 mil, mesmo após um esforço hercúleo de redução. Em tempos recentes, o rombo chegou à marca aterradora de R$ 1,4 milhão por mês — um abismo financeiro que só começou a ser enfrentado graças às negociações incansáveis da prefeita Sheila Lemos, que desde março bate às portas do Governo da Bahia em busca de reforço.
É preciso reconhecer: o Estado respondeu, ainda que tardiamente. O incentivo Mãe Bahia, no valor de R$ 898 mil mensais, é um sopro de sobrevivência em um organismo que respirava por aparelhos. Além disso, o compromisso de liberar o custeio federal do Centro de Parto Normal e de construir uma nova maternidade de alto risco reacende uma esperança antiga, mas nunca plenamente atendida. São passos importantes, ainda que insuficientes para a magnitude do problema.
Do lado político, as emendas dos deputados Waldenor Pereira, Tiago Correia, Leur Lomanto Júnior e Jean Fabrício Falcão representam um gesto de responsabilidade. Não resolvem tudo, mas aliviam parte da dor. Cada recurso enviado é um remédio que prolonga a vida de um sistema que insiste em não morrer.
Já o tão esperado apoio do Governo de Minas Gerais naufragou antes de sair do cais. A visita do governador Romeu Zema gerou expectativas, mas a burocracia — essa velha inimiga da vida real — tornou inviável qualquer repasse interestadual. Enquanto os papéis emperram nos gabinetes de Belo Horizonte, Vitória da Conquista continua arcando sozinha com uma demanda mineira que nunca foi pequena.
No fim, esta realidade revela algo maior que a crise de um único hospital: revela o retrato de um Brasil que ainda não decidiu se quer administrar emergências eternas ou construir políticas públicas capazes de impedir que elas existam. O Esaú Matos resiste. Resiste com profissionais que fazem milagres diários, com gestantes que chegam sem alternativa, com bebês que respiram pela primeira vez em meio ao caos, com famílias que esperam por respostas que nunca vêm.
E no centro dessa realidade brutal está uma verdade que não pode mais ser ignorada: Vitória da Conquista está pagando sozinha por um serviço que atende a uma região inteira. E nenhum município, por mais forte que seja, pode carregar indefinidamente a responsabilidade de 135 cidades. A saúde materno-infantil não é tema para discursos de palanque, não é brinde político, não é favor. É a linha tênue entre vida e morte.
E essa linha, esticada ao limite, está prestes a romper. Antes que isso aconteça, é preciso mais que promessas: é preciso coragem política, visão de futuro e compromisso com a dignidade humana. Porque dignidade — essa palavra tantas vezes repetida e tão pouco praticada — não pode ser adiada. Não mais. Não aqui. Não no Esaú Matos.




