Política e Resenha

O Imperador Nu do Século XXI: Quem Pode Conter a Sanha de Donald Trump?

 

 

 

Por trás de cada frase de Donald Trump há sempre uma ameaça mal disfarçada, uma bravata geopolítica ou uma perigosa confusão entre interesses nacionais e delírios pessoais. A mais recente investida — a declaração de que a Dinamarca “falhou em afastar a ameaça russa da Groenlândia” e de que “chegou a hora” — não é apenas mais uma excentricidade retórica. Trata-se de um passo concreto na escalada de uma lógica imperial que flerta abertamente com o autoritarismo e o revisionismo territorial, algo que o mundo acreditava ter enterrado após o século XX.

Trump voltou à Casa Branca não como um presidente moderado pela experiência, mas como um líder ainda mais ressentido, cercado por aduladores, convencido de que o cargo lhe confere poderes quase monárquicos. A ameaça de anexar a Groenlândia — território autônomo ligado à Dinamarca, membro da OTAN — é sintomática de uma visão de mundo primitiva: a política internacional como jogo de força bruta, onde quem tem mais armas e dinheiro decide o destino dos outros.

A justificativa, como sempre, é “segurança nacional”. Trump invoca a suposta ameaça russa e a necessidade de proteger o chamado “Domo de Ouro”, um escudo antimísseis que mais parece retirado de um filme de ficção científica dos anos 1980. Segurança, aqui, é palavra-coringa: serve para atropelar o direito internacional, deslegitimar aliados históricos e transformar soberania em mercadoria negociável.

O problema não é apenas Trump. O problema é o que ele representa e o que revela. A ideia de que um presidente dos Estados Unidos possa falar abertamente em anexar territórios de aliados sem sofrer consequências imediatas demonstra o grau de erosão das instituições internacionais e da própria democracia americana. O homem não age no vácuo. Ele testa limites porque percebe que eles estão enfraquecidos.

A reação europeia — com Alemanha, França, Reino Unido, Noruega, Holanda e Suécia enviando tropas à Groenlândia — é, ao mesmo tempo, necessária e reveladora. Necessária porque mostra que a Europa começa a entender que não pode mais tratar Trump como uma “anomalia passageira”. Reveladora porque expõe o fracasso da dependência quase infantil que o continente manteve em relação aos EUA por décadas. Quando o suposto guardião da ordem internacional passa a agir como predador, resta aos aliados aprender a se defender.

Mas quem, afinal, pode barrar Trump?

No plano externo, há limites claros. Nenhum país isoladamente — nem mesmo a Dinamarca — tem força para conter os Estados Unidos. A contenção só pode vir de uma resposta coletiva: OTAN, União Europeia, organismos multilaterais e, sobretudo, a reafirmação clara de que fronteiras não são peças de xadrez movidas ao bel-prazer de um líder intempestivo. Se Trump perceber hesitação, avançará. Ele sempre avança.

No plano interno, a resposta é ainda mais complexa. O sistema político americano foi desenhado para conter impulsos autoritários, mas está visivelmente tensionado. O Congresso, dominado por uma ala republicana submissa, tem falhado em exercer seu papel fiscalizador. A Suprema Corte, cada vez mais politizada, tornou-se imprevisível. Resta a imprensa — atacada diariamente — e uma sociedade civil profundamente polarizada, cansada, confusa e, em parte, seduzida pela retórica da força.

Trump se comporta como um imperador porque foi autorizado a fazê-lo. Não por lei, mas por omissão. Cada vez que uma ameaça vira “apenas mais uma declaração polêmica”, o terreno é preparado para o próximo passo, mais grave, mais ousado, mais perigoso.

A Groenlândia, hoje, é símbolo. Amanhã pode ser outro território, outro aliado, outra “ameaça” conveniente. O discurso é sempre o mesmo: eles falharam, nós somos fortes, agora é a hora. É a linguagem clássica dos aventureiros do poder, dos líderes que confundem o mundo com um tabuleiro pessoal.

Chamar Trump de “louco” pode aliviar a indignação, mas é insuficiente. Ele é, antes de tudo, produto de um sistema que tolerou o intolerável, normalizou o absurdo e relativizou o autoritarismo. Loucura individual se torna tragédia coletiva quando encontra instituições frágeis e uma comunidade internacional hesitante.

Quem pode pará-lo? Apenas uma combinação de freios institucionais internos, resistência diplomática externa e pressão política contínua. Nada disso é simples. Nada disso é garantido. Mas a alternativa — aceitar a lógica do imperador do mundo, nu, barulhento e perigoso — é abrir mão de décadas de esforço civilizatório.

A Groenlândia pode até estar longe dos centros de poder tradicionais, mas o que está em jogo ali é central: se o mundo ainda acredita em regras ou se voltamos, sem disfarces, à lei do mais forte. Trump já fez sua escolha. Resta saber se o mundo fará a sua.