Política e Resenha

O jogo se joga no STF

 

 

 

Há muito tempo o Brasil deixou de jogar o grande jogo da política apenas nas urnas. Hoje, o tabuleiro central é o Supremo Tribunal Federal. É lá, entre togas e votos, que se decide o destino de governos, projetos e até sonhos de país. E é por isso que a saída antecipada do ministro Luís Roberto Barroso reacende um debate que a esquerda brasileira precisa encarar com coragem: a sabedoria — ou a falta dela — na escolha de seus ministros.

Com exceção das duas últimas indicações do presidente Lula, o Partido dos Trabalhadores não teve a visão estratégica de compreender que, no Brasil de hoje, o poder não se conquista apenas nas ruas nem no Congresso, mas também — e sobretudo — nas instituições que interpretam a Constituição. O “mensalão”, a “Lava Jato” e o que se convencionou chamar de lawfare foram capítulos dolorosos que demonstraram como o Judiciário pode ser transformado em arma política. A perseguição a lideranças de esquerda na América Latina segue o mesmo roteiro: promotores, juízes e delações substituindo o voto popular.

 

 

A direita aprendeu cedo o valor de um ministro “terrivelmente alinhado” — expressão que, embora cínica, traduz uma compreensão realista do jogo. A ultradireita sabe jogar, e joga pesado. Indica magistrados que não se envergonham de vestir a toga como escudo ideológico, disfarçando convicções políticas de moralismo jurídico. Já a esquerda, muitas vezes, preferiu acreditar no mito da neutralidade técnica, esquecendo que o STF é também arena de poder e de narrativa.

É preciso, sim, defender a independência dos poderes. Mas independência não é ingenuidade. Um ministro comprometido com o povo não é um militante partidário — é alguém que reconhece que a Constituição foi escrita para garantir direitos, não para perpetuar privilégios. É alguém que entende que a Justiça não é uma abstração, mas o instrumento mais nobre da democracia social.

A história recente mostra o preço da omissão. Enquanto a direita arma seus bastiões no Judiciário, a esquerda hesita em afirmar o óbvio: é preciso indicar ministros com coragem para enfrentar o lawfare, defender a soberania nacional e proteger o povo da manipulação jurídica travestida de moral.

Barroso sai, e com ele se encerra um ciclo. Mas o próximo nome que ocupar sua cadeira não pode ser apenas mais um técnico de currículo exemplar. Precisa ser alguém com compromisso inegociável com a democracia popular, com a Constituição cidadã e com a reconstrução de um Judiciário que não tema o povo, mas que por ele lute.

Porque, no fim das contas, o jogo se joga no STF — e está mais do que na hora de o povo voltar a ter quem o defenda nesse tabuleiro.

— ✍️ Padre Carlos