Política e Resenha

O menino que queria o brinquedo do outro

 

Há algo de profundamente humano — e também profundamente cômico — na incapacidade de aceitar a derrota. Não basta perder. É preciso reclamar, recorrer, protestar, judicializar, consultar os astros, pedir VAR celestial e, se possível, tentar convencer a História de que ela também errou na contagem.

Pois é exatamente esse espetáculo que estamos assistindo.

A democracia tem dessas coisas curiosas: ela funciona com votos. E, pasmem, às vezes o candidato que se imagina destinado ao trono descobre que o eleitorado não leu o roteiro que ele escreveu para si mesmo. O povo — esse ente indisciplinado — vai lá e escolhe outra pessoa.

O normal, numa democracia madura, seria aceitar o resultado, recolher os argumentos, refletir sobre o erro e preparar a próxima batalha. Mas não. Há quem trate eleição como criança trata brinquedo no parquinho.

Perdeu? Então começa o drama.

Primeiro vem o recurso. Depois o recurso do recurso. Em seguida o agravo do agravo do recurso. E, se ainda restar um tribunal, lá vai mais uma tentativa. Não porque haja novidade jurídica relevante, mas porque há uma esperança infantil de que, em algum lugar do sistema, alguém diga: “Tudo bem, toma aqui o brinquedo que você queria”.

Mas a realidade é cruel com os birrentos.

Quando a Justiça Eleitoral decide, analisa, debate e conclui, a democracia segue seu curso. Pode até haver novos questionamentos jurídicos — o direito existe para isso. O problema não é recorrer. O problema é transformar o recurso em terapia emocional para quem não conseguiu aceitar o veredito das urnas.

Aí o debate deixa de ser jurídico e passa a ser psicológico.

Porque a sensação é exatamente essa: a de um menino no parque que viu outro brincar com o carrinho vermelho e decidiu que aquele carrinho deveria ser seu. Não importa que o carrinho tenha sido entregue pelo dono do parque — o eleitor. Não importa que o juiz do parquinho já tenha explicado a regra. O menino continua chorando, apontando o dedo e exigindo justiça.

A cena é quase pedagógica.

Numa democracia, perder faz parte do jogo. Aliás, perder é uma das formas mais importantes de aprender política. Quem nunca perdeu uma eleição dificilmente compreende o eleitor. Quem não aceita perder dificilmente compreende a democracia.

O curioso é que, às vezes, o esforço para reverter a derrota acaba produzindo exatamente o contrário do que se pretendia.

O eleitor observa.

E o que ele vê?

Não um líder injustiçado lutando contra um erro monumental. Mas um político incapaz de aceitar que o povo decidiu outra coisa.

A história, que costuma ser menos sentimental que os tribunais, registra essas coisas com uma ironia silenciosa. Ela não costuma guardar na memória os recursos protocolados nem as petições bem redigidas.

Ela guarda os símbolos.

E, nesse caso, o símbolo pode acabar sendo este: o deputado que não se contentou em perder nas urnas, insistiu em perder na Justiça e, pelo visto, caminha para perder também na memória política.

Porque, no fim das contas, há derrotas que são apenas eleitorais.

Outras viram lições.

E algumas — as mais insistentes — acabam virando anedota.

E ninguém quer ser lembrado na política como o menino chorão que queria o brinquedo do outro.