
(Padre Carlos)
O chamado “pacotaço” colocado em circulação pelo governo Jerônimo Rodrigues para evitar o rompimento com o PSD não é apenas uma manobra de contenção política. É, sobretudo, um retrato cru de como a lógica do poder, na Bahia, continua operando mais pela troca de cargos do que pela construção de projetos coletivos. Ao tentar segurar o senador Ângelo Coronel na base aliada, o governo expõe fragilidades internas, escancara disputas silenciosas e transforma o vice-governador em uma peça descartável no tabuleiro da reeleição.
O medo de perder Ângelo Coronel e ver a chapa majoritária implodir levou o núcleo governista a oferecer compensações que falam por si. A principal delas é a vaga de vice-governador para Diego Coronel, deputado federal e filho do senador. Soma-se a isso o fortalecimento político de outro herdeiro, Angelo Coronel Filho, com espaço estratégico na Assembleia Legislativa. Em troca, espera-se lealdade e silêncio diante da exclusão já dada como certa do senador da disputa ao Senado, hoje reservada ao projeto “inegociável” de Rui Costa.
Esse movimento, porém, cobra um preço político alto e imediato. Geraldinho Júnior, atual vice-governador, simplesmente desaparece do roteiro. Não há anúncio oficial, não há explicação pública, não há gesto de reconhecimento institucional. Há apenas o silêncio — e, na política, o silêncio quase sempre confirma o que ninguém quer dizer em voz alta. O vice vira ex-vice antes do fim do mandato, não por decisão popular, mas por rearranjo de bastidores.
A crise se aprofunda quando se observa o isolamento de Ângelo Coronel dentro do próprio PSD, especialmente após Otto Alencar sacramentar sua adesão ao projeto de reeleição de Jerônimo ao indicar o filho para o Tribunal de Contas do Estado. O recado foi claro: há espaço para alguns, não para todos. A resposta de Coronel veio na mesma velocidade. Ao admitir disputar a reeleição ao Senado de forma avulsa, ele sinaliza que está disposto a embaralhar o jogo e criar dificuldades reais, sobretudo para Jaques Wagner, visto por muitos como o elo mais vulnerável da chapa.
O episódio revela algo mais profundo e preocupante. Cargos eletivos, que deveriam ser expressão da vontade popular, passam a ser tratados como moedas de troca para acomodar interesses familiares e preservar alianças circunstanciais. A política deixa de ser um espaço de debate sobre projeto de governo, desenvolvimento regional e políticas públicas, e se transforma em um balcão onde sobrenomes pesam mais do que ideias, e acordos valem mais do que compromissos com o eleitor.
Ângelo Coronel, experiente e pragmático, joga com as cartas que tem. Sabe que sua força não está apenas nos votos, mas na rede de prefeitos e lideranças locais que o acompanham. Sua estratégia é legítima do ponto de vista político, mas revela um sistema adoecido, no qual alianças são frágeis, instáveis e movidas muito mais pelo interesse imediato do que por uma visão de futuro para a Bahia.
O “pacotaço” não resolve o problema central. Apenas adia o conflito e expõe uma prática antiga: aliados são úteis enquanto servem ao projeto de poder; quando se tornam obstáculos, são substituídos sem cerimônia. Em política, porém, quem é descartado raramente aceita sair em silêncio — e quase nunca sai sem deixar marcas.
No fim das contas, o episódio é sintoma, não solução. Ele mostra que a renovação política ainda é mais discurso do que realidade, que o poder continua concentrado em famílias e grupos tradicionais e que o eleitor segue sendo chamado a votar, mas raramente a decidir de fato. Mudar nomes não basta. É preciso mudar a lógica. E essa mudança só acontece quando a sociedade deixa de aceitar acordos de bastidores como algo normal e passa a exigir transparência, coerência e respeito ao voto popular.




