
Por Padre Carlos
Há um momento em que as cidades precisam encarar o espelho — e Vitória da Conquista está diante desse reflexo incômodo. A fala do presidente da Câmara, vereador Ivan Cordeiro (PL), nesta quarta-feira (9), trouxe à tona uma questão que há muito tempo é sussurrada nos pontos de ônibus, mas raramente ecoa com força nas tribunas: como é possível que um sistema de transporte coletivo subsidiado em R$ 9 milhões por mês continue tão distante das reais necessidades da população?
A pergunta de Ivan não é apenas contábil; é moral. O transporte público, ao lado da saúde e da educação, é um dos pilares da dignidade urbana. Quando ele falha, a cidade se torna menor — mais segregada, mais injusta e mais cansada. O vereador, ao propor a ampliação da gratuidade para pessoas a partir de 60 anos, não faz um favor: ele aponta para uma dívida social que cresce silenciosa, dia após dia, nos bancos frios dos terminais.
O Estatuto do Idoso garante o benefício a partir dos 65 anos, é verdade. Mas quem vive a realidade das ruas de Conquista sabe que o corpo de quem tem 60 muitas vezes carrega o peso de 80. São pessoas que ainda precisam trabalhar, buscar remédio, cuidar dos netos — e que, não raramente, deixam de se deslocar por falta de dinheiro para a passagem. Ampliar o direito à mobilidade é, portanto, um gesto de humanidade, e não um luxo orçamentário.
Mas o discurso de Ivan vai além da questão etária. Ele toca num ponto sensível: a transparência e a eficiência do subsídio público. Se o município destina R$ 9 milhões mensais às empresas de ônibus, é legítimo — e urgente — que a sociedade saiba o que está recebendo em troca. Linhas reduzidas, horários escassos e veículos sucateados não condizem com o peso desse investimento.
O vereador acerta também ao propor uma audiência pública. É nesse espaço que a democracia se oxigena, e que o cidadão pode questionar, sem filtros, onde estão os resultados desse aporte milionário. Afinal, se o transporte é público, a discussão sobre ele deve ser igualmente pública.
A lembrança feita por Ivan sobre o atual coordenador de transporte, Sérgio Hubner — que já esteve “dos dois lados do balcão”, como ele disse —, não é mero detalhe. Trata-se de um convite à coerência administrativa. Conhecer o sistema de dentro é uma vantagem, mas também uma responsabilidade. A experiência não pode ser usada como escudo, e sim como ferramenta de reforma.
Por fim, há algo de simbólico na sugestão de expansão das linhas para regiões como Bate-Pé, o Parque Logístico e o Condomínio Europa Unida. A cidade cresce, mas o transporte parece encolher. O poder público precisa acompanhar esse movimento — não apenas com ônibus, mas com visão de futuro.
O debate levantado por Ivan Cordeiro é mais do que oportuno: é necessário e corajoso. Porque discutir o transporte coletivo é discutir o próprio direito de existir plenamente na cidade.
E talvez o verdadeiro desafio de Vitória da Conquista não seja apenas o de gastar R$ 9 milhões com ônibus — mas o de fazer com que cada real investido faça o povo andar com dignidade.




