Política e Resenha

O Silêncio Ensurdecedor de uma Promessa Quebrada

 

 

 

 

Por Ivan Cordeiro

Presidente da Câmara de Vereadores de Vitória da Conquista

Há promessas que carregamos no peito como se fossem sementes de esperança, regando-as diariamente com a fé de quem acredita que dias melhores virão. E há promessas que, quando quebradas, não apenas desabam — elas nos esmagam, deixando sob os escombros não apenas sonhos desfeitos, mas vidas que poderiam ter sido salvas.

O anúncio do Governo Federal sobre o adiamento da licitação para a concessão da BR-116 não é apenas mais uma notícia administrativa que se perde entre tantas outras nas páginas dos jornais. É um golpe que ressoa nas entranhas de cada conquistense que já perdeu um ente querido naquele asfalto manchado de sangue. É o eco de um abandono que nos grita aos ouvidos: vocês não importam.

Vitória da Conquista — este nome que carrega em si a força de quem venceu, de quem lutou, de quem conquistou — hoje se vê vencida pelo descaso. Fomos prometidos. Fomos iludidos. E agora, mais uma vez, somos esquecidos enquanto outras rodovias, em outros estados, recebem os investimentos que nos foram negados.

Quantas mães ainda precisarão chorar a perda de seus filhos? Quantos pais terão que carregar o peso insuportável de enterrar suas crianças? Quantas famílias serão despedaçadas antes que alguém, em Brasília, olhe para a BR-116 e enxergue não apenas números ou quilômetros de asfalto, mas rostos, histórias, vidas?

A Rio-Bahia não é apenas uma rodovia. Ela é a artéria que pulsa em nossa região, o caminho por onde transitam nossos sonhos de desenvolvimento, nosso comércio, nosso futuro. Mas essa artéria está doente, ferida, sangrando. E nós, aqui, continuamos implorando por um tratamento que nunca chega.

O anel viário sem viadutos e passarelas é um cenário de tragédia anunciada. Cada dia que passa sem essas obras é um dia em que colocamos em risco nossas crianças, nossos idosos, nossos trabalhadores. É como se enviássemos nossos entes queridos para uma roleta-russa diária, onde o destino decide quem volta para casa e quem ficará apenas na memória e na saudade eterna.

Pergunto-me, e pergunto a todos que me leem: até quando seremos invisíveis? Até quando nosso luto será apenas estatística? Até quando nossas lágrimas cairão no vazio de uma indiferença que mata tanto quanto os acidentes em si?

O governo Lula prometeu. Prometeu olhar para o Nordeste, prometeu inclusão, prometeu desenvolvimento. Mas Vitória da Conquista, mais uma vez, foi riscada do mapa das prioridades. Enquanto bilhões são destinados para outras regiões, nós continuamos aqui, recolhendo os pedaços dos nossos mortos, consolando viúvas, abraçando órfãos.

Não é revolta vazia que sinto — é uma decepção profunda, visceral, que nasce do cansaço de ver as mesmas cenas se repetirem. É a frustração de quem grita e não é ouvido, de quem chora e não é visto, de quem morre e não é lembrado.

A BR-116 é conhecida nacionalmente como uma das rodovias mais perigosas do país. Esta não é uma honraria da qual nos orgulhamos — é uma condenação que carregamos nas costas. Cada curva perigosa, cada trecho sem duplicação, cada ponto sem iluminação adequada é uma sentença de morte em potencial para quem por ali trafega.

E o mais cruel é saber que isso poderia ser diferente. As soluções existem. Os projetos estão prontos. O conhecimento técnico está disponível. O que falta é vontade política. O que falta é olhar para Conquista e enxergar gente, não apenas votos ou números.

O descaso com nossa cidade precisa acabar, e precisa acabar agora. Não podemos mais aceitar que nossas vidas valham menos do que as de outros brasileiros. Não podemos mais normalizar a dor que assola nossas famílias. Não podemos mais assistir passivamente enquanto nossos filhos crescem sob a sombra de uma rodovia que deveria conectar, mas que separa — separa famílias, separa sonhos, separa vidas de seus destinos.

Este artigo é um grito. Um grito de quem não aguenta mais ver promessas virarem pó, de quem não suporta mais contar mortos quando poderíamos estar contando progressos. É o grito de uma cidade inteira que merece respeito, investimento e, acima de tudo, o direito básico de ir e vir com segurança.

Vitória da Conquista não pede esmolas. Não pedimos favores. Pedimos justiça. Pedimos que nos vejam. Pedimos que nosso clamor não seja mais uma vez sufocado pelo silêncio ensurdecedor da burocracia e da indiferença.

Porque enquanto não formos ouvidos, enquanto a duplicação da BR-116 continuar sendo apenas uma promessa vazia, continuaremos a contar nossos mortos. E cada nova vida perdida será um peso na consciência de quem teve o poder de mudar essa realidade e escolheu fechar os olhos.