Política e Resenha

O Sudoeste cansou de esperar: agora quer compromissos, não promessas

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O Sudoeste cansou de esperar: agora quer compromissos, não promessas

Por Padre Carlos

Há frases que, em política, ultrapassam a circunstância de um evento e conseguem traduzir um sentimento coletivo. Foi isso que aconteceu quando a prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos, afirmou que, há duas décadas, os pleitos do Sudoeste baiano continuam praticamente os mesmos. A declaração foi feita durante o encontro entre o candidato ao Governo da Bahia ACM Neto e representantes do setor produtivo de Vitória da Conquista e região, realizado nesta terça-feira (11).

E talvez seja justamente essa a questão que deveria provocar uma reflexão mais profunda na política baiana: por que uma das regiões mais importantes da Bahia ainda precisa repetir, geração após geração, as mesmas reivindicações?

Sheila foi direta:

“Há 20 anos, os pleitos da região Sudoeste continuam sendo os mesmos. São demandas importantes que ainda esperam por um governador que olhe para a nossa região com a atenção e o compromisso que ela merece.”

Depois, acrescentou uma frase que transforma a reivindicação administrativa em aposta política:

“Com fé em Deus, [ACM Neto] será esse governador. Tenho certeza de que ele vai abraçar o Sudoeste e trabalhar para transformar em realidade as conquistas que nossa região espera há tanto tempo.”

É uma declaração de apoio, evidentemente. Mas é também uma cobrança. Porque, quando uma prefeita afirma que determinadas demandas permanecem sem solução há 20 anos, ela está colocando diante dos candidatos ao Governo da Bahia uma pergunta que não pode ser respondida apenas com discursos de campanha: quem finalmente terá coragem política para enfrentar os gargalos históricos do Sudoeste?

Uma lista de reivindicações que não é pequena

Na reunião com empresários, a lista das reivindicações mostrou que não se trata de uma pauta pequena ou localizada. Estão entre as demandas a duplicação da BR-116, a conclusão das barragens do Catolé e do Rio Pardo, melhorias na mobilidade urbana, ampliação do Distrito Industrial, infraestrutura para o setor produtivo, abastecimento de água, Centro de Convenções, melhoria da conectividade aérea e outras medidas capazes de ampliar a capacidade econômica de Vitória da Conquista e de todo o Sudoeste.

O que chama atenção é que essas reivindicações não pertencem exclusivamente a um partido, a um empresário ou a um grupo político. São demandas de uma região inteira.

E esse talvez seja o ponto mais importante da discussão.

Vitória da Conquista não pode continuar sendo lembrada pelos governos estaduais apenas quando chega a hora de pedir votos.

A cidade exerce uma função econômica estratégica para o interior baiano. Seu setor de serviços, comércio, educação, saúde e atividade agropecuária movimenta uma ampla área do Sudoeste. Por isso, quando Conquista cresce, uma parte significativa da região cresce junto.

O problema é que crescimento econômico sem infraestrutura encontra rapidamente seus limites.

Não adianta falar em desenvolvimento regional se a BR-116 continua representando um gargalo para o transporte de pessoas e mercadorias. Não adianta defender a industrialização se faltam água, infraestrutura adequada, energia e condições competitivas para novas empresas. Não adianta falar em turismo e integração regional se a mobilidade continua insuficiente.

Desenvolvimento não acontece por decreto. Ele precisa de estrada, água, energia, logística, aeroporto, educação, segurança jurídica e planejamento.

O desafio que interessa ao cidadão

Foi justamente nesse ponto que ACM Neto procurou construir sua fala diante dos empresários. O candidato defendeu que o Governo do Estado seja indutor do desenvolvimento e afirmou que pretende trabalhar em parceria com Vitória da Conquista caso seja eleito. Também assumiu compromissos relacionados às barragens e a outras demandas apresentadas pelo setor produtivo.

Mas aqui está o desafio que interessa ao cidadão.

Promessa de campanha todos os candidatos podem fazer. O que a população precisa saber é quem terá capacidade política, administrativa e financeira para transformar promessa em obra.

E a própria prefeita Sheila Lemos parece compreender isso. Segundo relatos sobre o encontro, a carta de reivindicações dos empresários não ficará restrita ao candidato do União Brasil: o documento deverá ser apresentado também aos demais postulantes ao Governo da Bahia.

Essa é uma postura que merece ser observada.

Uma agenda que não pertence a partido nenhum

Porque defender Vitória da Conquista não deveria ser uma questão ideológica. Uma barragem não pergunta em quem o eleitor votou. Uma rodovia duplicada não escolhe partido. Um Centro de Convenções não pertence à esquerda nem à direita. Água, energia, transporte, aeroporto e desenvolvimento econômico são necessidades concretas da população.

É preciso, portanto, retirar o debate regional da pequena política.

O Sudoeste precisa de uma agenda de Estado. E essa agenda deveria sobreviver às eleições.

Há algo particularmente simbólico na fala de Sheila: “há 20 anos”.

Vinte anos significam uma geração inteira. Pessoas que eram crianças quando determinadas obras começaram a ser prometidas hoje são adultas, trabalham, têm filhos e continuam ouvindo as mesmas reivindicações.

Não podemos aceitar que a política transforme a esperança da população em uma espécie de patrimônio eleitoral permanente.

As perguntas que o eleitor precisa fazer

O eleitor do Sudoeste precisa fazer outra pergunta aos candidatos: qual é o prazo? Qual é o projeto? Qual é a fonte dos recursos? Quem será responsável? Quando começa? Quando termina?

É assim que uma reivindicação deixa de ser discurso e passa a ser compromisso público.

ACM Neto terá agora a oportunidade de apresentar ao Sudoeste não apenas uma declaração de intenção, mas um projeto concreto para a região. Se pretende ser o governador que Sheila Lemos acredita que possa “abraçar o Sudoeste”, terá de demonstrar como pretende fazer isso.

E os demais candidatos terão exatamente a mesma obrigação.

Porque a carta dos empresários pode ser entregue a todos. A cobrança também deve ser.

O Sudoeste já esperou demais

Quanto à prefeita Sheila Lemos, sua frase resume uma realidade que Vitória da Conquista conhece há muito tempo: o Sudoeste não está pedindo favor ao Governo da Bahia. Está reivindicando que sua importância econômica e social seja reconhecida na distribuição dos investimentos públicos.

A região produz, trabalha, empreende e movimenta a economia baiana.

Está na hora de receber infraestrutura compatível com aquilo que representa.

Talvez esta seja a grande questão das eleições de 2026 no Sudoeste: não saber apenas quem será o próximo governador da Bahia, mas descobrir quem estará disposto a transformar as antigas promessas em um novo ciclo de desenvolvimento regional.

Porque o Sudoeste já esperou demais.

Agora, mais do que promessas, quer resultados.

E, depois de vinte anos ouvindo as mesmas promessas, talvez tenha chegado o momento de perguntar aos candidatos, com toda a serenidade, mas também com toda a firmeza: quando, finalmente, o Sudoeste será prioridade?


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Escrito por Padre Carlos