
Padre Carlos
Há nomes que não pertencem apenas à filosofia — pertencem à formação de uma consciência. Jürgen Habermas foi, para muitos de nós, mais do que um autor: foi um tempo, um método, uma disciplina do espírito.
Nos seminários das décadas de oitenta e noventa, quando o mundo ainda tentava reorganizar os próprios escombros morais do século XX, sua voz ecoava como uma espécie de bússola. Não uma bússola que apontava para certezas — mas para algo mais raro: para o modo como devemos caminhar mesmo sem elas.
Ali, entre textos sublinhados, debates que avançavam noite adentro e uma juventude ainda aberta ao rigor do pensamento, aprendíamos que discutir não era vencer — era compreender. Que a palavra não era arma, mas ponte. E que o outro, mesmo quando discordava, não era um inimigo a ser derrotado, mas uma presença necessária para que a verdade pudesse, quem sabe, emergir.
Havia algo de profundamente formativo nisso. Algo que hoje parece quase ingênuo — e justamente por isso, profundamente revolucionário.
A morte de Habermas, aos 96 anos, não encerra apenas uma biografia longa e monumental. Ela marca, simbolicamente, o enfraquecimento de uma era que ainda acreditava que a razão pública poderia nos salvar de nós mesmos. Uma geração que viu o abismo — as guerras, o fascismo, os totalitarismos — e decidiu que pensar era uma forma de resistência.
Sua grande aposta nunca foi o consenso fácil. Ao contrário do que muitos repetem sem ler, Habermas jamais prometeu harmonia. Ele sabia que o conflito é constitutivo da vida humana. O que ele exigia — com uma insistência quase ética — era outra coisa: que o conflito fosse digno.
Que se ouvisse antes de responder.
Que se argumentasse antes de acusar.
Que se reconhecesse, no outro, alguém que também reivindica verdade.
Parece pouco. Mas talvez seja exatamente o que perdemos.
Hoje, o debate público se parece mais com um ritual de extermínio simbólico. As palavras foram sequestradas pela pressa, pela performance e pela necessidade de aplauso imediato. Não se fala para construir — fala-se para marcar território. Não se discute para esclarecer — discute-se para humilhar.
As redes sociais, com seus algoritmos silenciosos e implacáveis, amplificam o pior de nós. Criam bolhas, alimentam ressentimentos, transformam divergências em identidades fechadas. E, nesse processo, aquilo que Habermas chamou de esfera pública vai sendo lentamente asfixiado.
A democracia, que depende dessa respiração coletiva, começa a sufocar.
Mas talvez o mais importante — e o mais difícil — seja reconhecer que ainda há escolha.
Habermas nunca foi um filósofo da ingenuidade. Foi, antes, um pensador da insistência. Alguém que acreditava que, apesar de tudo, ainda podemos escolher a palavra em vez do grito. O argumento em vez da agressão. O encontro em vez da exclusão.
E isso, num mundo que parece recompensar exatamente o contrário, é um ato de coragem.
Para aqueles de nós que o leram nos anos de formação, fica algo que não envelhece: a sensação de que pensar é um compromisso com o outro. De que falar é assumir responsabilidade. E de que a linguagem — essa ferramenta tão banalizada — ainda pode ser o lugar onde a humanidade se salva de sua própria violência.
Talvez sejamos, agora, órfãos de uma certa confiança na razão. Mas não precisamos ser desertores dela.
Descanse em paz, Habermas.
Nós, porém, ficamos.
E a palavra — se ainda tivermos coragem — também.




