Sábado, 11 de Abril de 2026 · Edição 2.847
O Viaduto que Conquista
há décadas espera
Entre promessas e asfalto, a saída para Itambé segue sendo a mais perigosa cicatriz do anel viário — e a visita de sábado pode ser o primeiro sinal concreto de que o descaso está com os dias contados.

Editorial · 11 abr. 2026
Ivan Cordeiro e o dep. Vitor Azevedo vistoriam o cruzamento crítico do anel viário na saída para Itambé — Foto: Assessoria
Há certas feridas numa cidade que você aprende a contornar antes de aprender a curá-las. Para os motoristas de Vitória da Conquista, o trecho do anel viário na saída para Itambé é exatamente isso: uma cicatriz no asfalto que se aceita como natural, como o calor do sertão ou o atraso do ônibus. Mas cicatrizes que sangram todo dia não são destino — são negligência com prazo de validade.
Foi com esse espírito que o presidente da Câmara de Vereadores, Ivan Cordeiro, e o deputado estadual Vitor Azevedo estiveram presentes naquele cruzamento na manhã deste sábado. Não foi um ato protocolar. Foi, acima de tudo, um gesto de lucidez política: antes de exigir investimento, é preciso ter a coragem de ir ao chão, olhar o problema nos olhos e deixar que ele olhe de volta.

Fluxo crítico: o trecho concentra caminhões, carretas e veículos leves em fusão contínua, sem separação de nível — um dos pontos mais perigosos do município.
Empregos em risco: a Dass, maior empregadora local, tem quase 10 mil trabalhadores cujo deslocamento diário depende da fluidez deste corredor.
Logística regional: a via conecta Conquista ao Sul do estado, sendo eixo de escoamento produtivo para toda a macrorregião.
A construção de um viaduto naquele ponto não é luxo urbanístico. É matemática básica de segurança viária. Quando se cruza um fluxo de caminhões pesados com o movimento cotidiano de trabalhadores, estudantes e famílias, o resultado já foi calculado — em acidentes, em horas perdidas, em vidas interrompidas. O viaduto é a resposta engenheirada para uma equação que o improviso já não consegue resolver.
“A cidade que não investe na mobilidade de seus trabalhadores não investe em si mesma — cobra o tributo em acidentes, em horas perdidas e em projetos que nunca chegam.”
Ivan Cordeiro foi direto ao ponto ao destacar a dimensão estratégica da obra: estamos falando de um corredor que liga Vitória da Conquista ao Sul da Bahia e que serve de artéria para uma das maiores empregadoras industriais do interior nordestino. A Dass, com seus quase dez mil empregos diretos, não é apenas uma empresa — é o coração econômico de um bairro inteiro, de uma cadeia produtiva inteira. Paralisar ou fragilizar o acesso a esse polo é enfraquecer a própria economia conquistense.
Mas o que mais chama atenção nesta agenda não é só o diagnóstico correto do problema — é a metodologia política adotada. Vitor Azevedo tem sido visto com frequência crescente nas ruas de Conquista. Não no palanque de inaugurações, mas nos pontos de atrito real: onde o asfalto afunda, onde o semáforo falta, onde o cidadão sente no corpo a ausência do Estado. Essa presença tem valor que nenhum pronunciamento em plenário consegue substituir.
A articulação entre o legislativo municipal e o estadual é, aliás, o caminho mais promissor para destravar esse tipo de demanda histórica. Obras de infraestrutura viária de porte raramente nascem de uma única vontade política. Elas exigem alinhamento entre esferas, pactuação de recursos, projetos técnicos aprovados, licitações conduzidas. É um processo lento por natureza — e que só avança quando há representantes comprometidos em cada elo da cadeia.
É razoável ser cético. Conquista já viu muitas vistorias se transformarem em fotografias emolduradas em gabinetes. A memória coletiva da cidade está cheia de promessas que amadureceram no discurso e apodreceram na execução. O ceticismo, nesses casos, não é cinismo — é aprendizado histórico.
Há, porém, diferença entre uma visita eleitoral orquestrada para câmeras antes de um pleito e uma movimentação de articulação real, feita na entressafra política, com atores que têm capacidade concreta de influenciar a alocação de recursos. A movimentação de Ivan e Vitor parece se encaixar mais no segundo perfil — e isso merece, ao menos, o benefício da atenção.
O que a população de Vitória da Conquista precisa agora não são apenas boas intenções fotografadas no cruzamento. Precisa de projeto executivo entregue, de emenda destinada, de licitação publicada. Precisa que o viaduto saia do mapa mental dos políticos e entre no mapa físico da cidade. Cada dia que passa sem isso é mais um caminhão cruzando em velocidade onde não deveria, mais uma família que chega atrasada ao trabalho, mais um acidente que poderia ter sido evitado.
A política que serve ao povo não é a que apenas nomeia os problemas. É a que os resolve. E Vitória da Conquista — com sua história de povo bravo, de cidade que cresceu apesar das adversidades, de centro regional que se fez a duras penas — merece uma liderança à altura dessa tradição. O viaduto da saída para Itambé não é apenas uma obra. É um teste de caráter institucional. E o relógio, como sempre, segue correndo.




