Na política, o cargo de vice muitas vezes parece apenas um detalhe protocolar. Um nome colocado ao lado do titular para preencher a fotografia da chapa. Mas quem conhece o tabuleiro do poder sabe: o vice raramente é um detalhe. Ele é uma mensagem. E, em alguns casos, um recado poderoso ao eleitorado.
Na Bahia, esse jogo começou a se revelar nos bastidores da pré-campanha do ex-prefeito de Salvador, ACM Neto, que se movimenta para disputar novamente o governo do estado. A pergunta que ecoa nos corredores da política baiana não é apenas quem será o vice, mas o que essa escolha dirá sobre o projeto de poder da oposição.
Foi nesse cenário que o deputado estadual Paulo Câmara levantou a voz para defender que o PSDB ocupe esse espaço estratégico na chapa majoritária. A declaração não é apenas uma reivindicação partidária. É, antes de tudo, uma tentativa de reposicionar os tucanos dentro de um campo político em transformação.
O PSDB, que já foi protagonista da política nacional e regional, hoje busca reencontrar seu lugar na engrenagem eleitoral. Defender a vice é, portanto, uma forma de afirmar relevância num cenário em que as alianças políticas se reorganizam diante da disputa pela eleição na Bahia.
Mas enquanto o PSDB reivindica protagonismo, outros nomes circulam com força nos bastidores.
Entre eles, a prefeita de Vitória da Conquista, Sheila Lemos, figura que representa não apenas um partido, mas uma geografia política decisiva. Conquista é a terceira maior cidade da Bahia e um polo regional capaz de influenciar votos em grande parte do sudoeste do estado. Colocar Sheila na chapa seria um gesto estratégico de interiorização da candidatura de ACM Neto.
Outro nome que aparece no radar é o do prefeito de Jequié, Zé Cocá, liderança que carrega o peso político de uma região historicamente disputada nas eleições baianas. Seu capital eleitoral no interior também poderia ampliar a musculatura da oposição em áreas onde a disputa costuma ser voto a voto.
Diante disso, a escolha do vice deixa de ser uma simples composição partidária e passa a ser uma equação complexa. De um lado, partidos que desejam espaço e reconhecimento. De outro, lideranças regionais que podem trazer votos decisivos.
A decisão de ACM Neto será, portanto, muito mais do que uma escolha de companhia eleitoral. Será um gesto político carregado de significado.
Se optar pelo PSDB, enviará um sinal claro de fortalecimento institucional da aliança partidária. Se escolher um nome do interior como Sheila Lemos ou Zé Cocá, estará apostando numa estratégia territorial para ampliar sua presença fora da capital.
E há ainda um elemento que a história da política brasileira insiste em lembrar: vice não é apenas vice.
A trajetória do país está cheia de exemplos em que o coadjuvante se transformou no personagem principal. Governos mudaram de rumo, alianças foram redefinidas e projetos políticos foram reescritos por causa daquele nome que, no início da campanha, parecia apenas um complemento.
Na política da Bahia, onde as alianças muitas vezes definem mais do que os discursos, a escolha do vice pode ser a chave para abrir portas — ou para fechá-las.
Por isso, enquanto os holofotes se concentram no candidato principal, é nos bastidores que a verdadeira disputa acontece. Ali, longe dos palanques e dos microfones, partidos negociam, líderes calculam e estratégias são desenhadas.
No fim das contas, a pergunta não será apenas quem estará ao lado de ACM Neto na urna eletrônica.
A pergunta que realmente importa é: qual Bahia essa escolha pretende conquistar.
Porque na política, como no xadrez, às vezes a peça aparentemente menor é justamente aquela que decide a partida.
(Padre Carlos)





