
(Padre Carlos)
Havia um tempo em que a manhã nascia dentro de nós.
Não era apenas o sol que se erguia — éramos nós. Havia uma pressa bonita no coração, uma urgência de viver como se o mundo estivesse à espera de um gesto nosso. E talvez estivesse. Naquele tempo, a juventude brasileira não era apenas uma fase da vida; era um território mítico, onde o amor e a coragem caminhavam de mãos dadas, onde cada esquina escondia uma promessa e cada olhar carregava estrelas.
Sim, estrelas nos olhos.
E quem viveu sabe: não eram metáforas. Eram reais. Brilhavam quando se acreditava que era possível atravessar cidades, romper distâncias, desafiar o impossível apenas para ver um sorriso, apenas para tocar uma mão. O amor era absoluto, quase sagrado. Não se media esforço, não se contava o tempo. O tempo… ah, o tempo ainda não tinha aprendido a roubar.
Porque depois ele aprende.
Depois ele chega manso, como quem não quer nada, e vai levando. Primeiro leva a pressa. Depois leva a ilusão da eternidade. Vai apagando, sem violência, as flores que antes colhíamos com tanta facilidade. Flores que já não se colhem. Flores que agora existem apenas na memória afetiva, esse lugar onde a juventude nunca morre — apenas se esconde.
E é curioso… porque enquanto o tempo nos transformava por dentro, também nos incendiava por fora.
Era uma geração ideológica. Uma geração que não sabia amar pela metade — nem pessoas, nem ideias. Amor e política se confundiam, se entrelaçavam, se alimentavam mutuamente. Amar alguém era também acreditar no mundo. E acreditar no mundo era, inevitavelmente, escolher um lado da história.
Havia livros sendo lidos como se fossem mapas de libertação. Havia discussões que atravessavam noites. O marxismo-leninismo, o socialismo, o trotskismo — não eram apenas teorias; eram caminhos possíveis para reinventar a história do Brasil. E, ao lado disso, uma Igreja que, em suas correntes mais vivas, mais humanas, ousava descer do altar para caminhar com o povo, para falar de justiça, de dignidade, de transformação social.
Era uma luta. Era uma entrega. Era uma fé — ainda que sem nome.
E ali estavam eles: jovens apaixonados e revolucionários. Gente que escrevia cartas de amor e panfletos políticos com a mesma intensidade. Que beijava com urgência e marchava com esperança. Que acreditava que o mundo podia ser outro — e que esse outro mundo começava dentro deles.
Mas o tempo…
O tempo é um ladrão silencioso.
Ele não pede licença. Ele não anuncia suas intenções. Quando percebemos, já levou a velocidade dos passos, já levou o fôlego das corridas, já levou aquela sensação de invencibilidade. O corpo, antes ágil, torna-se um objeto gasto — mas ainda humano, ainda necessário, ainda capaz.
E talvez seja aí que mora o segredo que a juventude não conhece.
Porque não, não se trata de decadência.
Trata-se de transformação humana.
Hoje, já não atravessamos mil léguas por impulso. Já não acreditamos que podemos deter o pôr do sol com as mãos. Já não colhemos flores como antes. Mas aprendemos outra coisa: aprendemos a permanecer.
Aprendemos que há um valor imenso naquilo que resiste.
Aprendemos que a memória não é apenas saudade — é também fundamento. Que a luta social não termina com o cansaço do corpo. Que a história continua sendo escrita, ainda que com passos mais lentos. Que o amor, mesmo sem o fogo de antes, ganha outra forma: mais silenciosa, mais profunda, mais verdadeira.
E é então que, diante do espelho da vida, talvez nos vejamos assim: não mais como heróis velozes, não mais como figuras invencíveis… mas como algo simples.
Talvez como um velho objeto esquecido num canto.
Desgastado pelo tempo.
Marcado pela travessia.
Mas ainda capaz.
Capaz de aquecer. Capaz de servir. Capaz de dar sentido.
Porque no fim — e talvez seja essa a mais dura e mais bela verdade — não é a velocidade que nos define, nem as flores que colhemos, nem os sonhos que perdemos.
É aquilo que, apesar de tudo, ainda oferecemos ao mundo.
E enquanto houver em nós esse resto de calor, essa insistência em amar, essa teimosia em acreditar…
Então não.
O tempo não venceu.
Ele apenas nos ensinou a existir de outra forma.




