Política e Resenha

Os que Amaram Antes do Amanhã

(por Padre Carlos, sob a pena de um poeta contemporâneo)

Eles vieram com sol nos olhos,
filhos da utopia e do barro,
calçando sandálias de esperança,
em ruas onde o medo marchava armado.

Cantavam com vozes gastas de gritar,
por um país mais justo, inteiro,
onde o pão não fosse privilégio
e o futuro coubesse no travesseiro.

Eram poucos, mas eram muitos,
de cabelos longos, corações nus,
fazendo do amor sua barricada
e do sonho, um fuzil de luz.

Deitaram-se no chão da história,
sob porretes, tanques, decretos,
derramaram os melhores anos —
a juventude como manifesto.

Amaram como se fosse revolução,
beijaram como se fosse o fim,
e mesmo nos porões da dor,
resistiam com um violão e um clarim.

E hoje, quando a memória vacila,
e o cinismo veste terno de gala,
resta o brilho em seus olhos cansados
como brasas que o tempo não cala.

Eles não mudaram o mundo todo —
mas mudaram tudo em nós.
E se hoje respiramos liberdade,
foi porque um dia, eles perderam a voz.

Então, quando disserem que amar é fraco,
lembra da geração que, por amor,
fez do impossível sua pátria,
e do amanhã…
um ato de fé e ardor.