Política e Resenha

PITUBA, QUANDO O AR ERA FRESCO — E O PREÇO DO PROGRESSO AINDA NÃO TINHA CHEGADO

 

 

Por Padre Carlos

O que é que uma fotografia antiga é capaz de fazer com a gente?
Às vezes, mais do que mostrar o passado, ela nos confronta.

E aqui falo em voz baixa, quase num sussurro ao leitor: ao ver essa imagem da Pituba em 1928, fui atravessado por uma emoção funda. Não apenas saudade — mas consciência. Consciência do que fomos, do que poderíamos ter sido e do que deixamos escapar por entre os dedos em nome de um progresso que nem sempre soube respeitar limites.

A Pituba ainda intocável.
O mar aberto.
A vegetação exuberante.
Canoas de pescadores recortando a paisagem com simplicidade e dignidade.

Era um tempo em que o bairro — então balneário — respirava. A classe média de Salvador passava ali suas férias, buscando descanso, vento no rosto e um tipo de riqueza que não cabia em escritura: o ar fresco. Não por acaso, Pituba vem do tupi-guarani e significa exatamente isso. Ar fresco. Natureza viva. Equilíbrio.

Naquele território amplo e contínuo existia uma grande fazenda. Pertencia a Manoel Dias da Silva e também a seu cunhado, Juventino Silva. Dois nomes que ajudam a entender a origem do bairro antes que ele virasse mapa, zoneamento e mercado imobiliário. De Juventino, guardo algo raro: a memória pessoal. Tive o privilégio de conhecê-lo quando eu ainda era menino. E isso muda tudo. Porque o passado, quando ganha rosto, deixa de ser abstração.

A Pituba foi, registre-se, o primeiro bairro planejado de Salvador. Um dado que costuma ser repetido como selo de modernidade. Mas aqui é preciso coragem moral para dizer o que nem sempre se diz: apesar de planejado no papel, fui testemunha — e isso digo com o peso de quem viu — de inúmeros crimes ambientais cometidos ao longo de sua expansão.

E é aqui que o texto muda de tom.

Porque planejar não é apenas desenhar ruas. Planejar é preservar. E o que se viu foi o oposto. Córregos inteiros soterrados. Vegetação virgem derrubada sem cerimônia. Máquinas avançando onde antes havia silêncio, sombra e água limpa. A antiga Igreja, referência espiritual e comunitária, desapareceu. A Fonte da Luz — marco histórico, simbólico, quase sagrado — foi vendida como se fosse apenas mais um terreno. Um lote qualquer. Como se memória também pudesse ser passada em escritura.

No meio daquela vastidão verde, a fotografia revela um detalhe que hoje soa quase irônico: ali foi construído, e mais tarde demolido, o Clube Português da Pituba. Um símbolo de época que também não resistiu ao tempo nem à lógica da substituição permanente. Caiu o prédio, mas ficou a pergunta: o que estamos colocando no lugar de tudo o que destruímos?

Esse é o ponto de virada inevitável. Porque a imagem deixa de ser apenas afeto e se transforma em denúncia. A Pituba cresceu, sim. Salvador precisava crescer. Mas cresceu atropelando sua própria geografia, violentando seus cursos d’água, apagando referências históricas e tratando a natureza como obstáculo — nunca como herança.

Há algo profundamente político nessa fotografia. Ela revela que o desenvolvimento urbano não é neutro. Ele escolhe vencedores e vencidos. Decide o que fica e o que some. E, muitas vezes, sacrifica o bem comum no altar do lucro imediato.

Ainda assim, lembrar é um ato de resistência. Escrever sobre isso é uma forma de preservar o que as máquinas não conseguiram levar: a consciência. Compartilhar essa memória é dizer às novas gerações que ali existiu vida antes do concreto, história antes da especulação, ar fresco antes do abafamento.

A Pituba de 1928 não volta. Não sejamos ingênuos. Mas a lição que ela nos oferece segue urgente: cidades que se desenvolvem sem respeitar sua memória ambiental e histórica constroem riqueza, mas empobrecem a alma.

E uma cidade sem alma — por mais moderna que pareça — já começou a perder o futuro.