
Padre Carlos
Há momentos na vida pública em que o discurso encontra a realidade — e, quase sempre, esse encontro é desconfortável. A abertura de um Processo Administrativo Disciplinar pela Corregedoria da Polícia Federal contra Eduardo Bolsonaro expõe exatamente esse choque: o da retórica política com a prática cotidiana do serviço público.
O caso é, em essência, simples e brutalmente objetivo. Não se trata de ideologia, perseguição política ou revanchismo institucional. Trata-se de planilhas, registros de ponto e mais de 30 faltas injustificadas. No setor privado, o desfecho seria automático: demissão por justa causa. No serviço público, o nome é outro — abandono de função —, mas o princípio é o mesmo. Quem não trabalha, não permanece.
O simbolismo político, porém, é inevitável. A família Bolsonaro construiu sua trajetória pública associando-se às forças de segurança, exaltando a disciplina, a hierarquia, a meritocracia e o combate aos privilégios. Criticou duramente o funcionalismo que, segundo sua narrativa, receberia sem produzir. Agora, a própria Polícia Federal — instituição frequentemente usada como símbolo em seus discursos — cobra explicações formais de um de seus principais expoentes.
Eduardo Bolsonaro não é um servidor qualquer. É escrivão concursado de uma das carreiras mais disputadas do Estado brasileiro, com salários que podem ultrapassar os R$ 20 mil mensais, além de estabilidade, aposentadoria especial e benefícios funcionais relevantes. Ao mesmo tempo, recebe cerca de R$ 44 mil como deputado federal, somados a verbas e auxílios. A pergunta que ecoa nos corredores da opinião pública é simples: por que manter o cargo na PF sem exercer suas funções?
Enquanto participava de eventos internacionais, cúpulas conservadoras e cultivava a imagem de celebridade política, os registros administrativos apontavam ausências não justificadas. O PAD instaurado pela direção-geral da Polícia Federal funciona como qualquer cobrança de recursos humanos: explique sua ausência ou arque com as consequências legais. Não há exceção para sobrenomes famosos.
O argumento de perseguição política, tão comum em tempos de polarização, perde força diante da frieza dos dados. A própria corregedoria ressalta que o processo não questiona posições ideológicas, mas a inexistência de dias trabalhados ou justificativas formais. A lei é clara, e o Estatuto do Servidor Público não abre margem para interpretações emocionais quando se configura abandono de cargo.
Há ainda uma ironia histórica difícil de ignorar. Mesmo durante o governo de Jair Bolsonaro, a relação de Eduardo com a Polícia Federal foi marcada por tensões, acusações de aparelhamento e conflitos internos. Agora, num momento em que a instituição busca reafirmar sua autonomia, transparência e foco em produtividade, o rigor administrativo recai justamente sobre quem sempre discursou em favor da ordem, da disciplina e da igualdade perante a lei.
Se confirmada, após o amplo direito de defesa e do contraditório, a demissão a bem do serviço público terá um peso simbólico devastador. Não apenas pelo impacto financeiro ou pela perda de um cargo de elite, mas porque desmonta a narrativa moral que sustentou boa parte de seu discurso político. Meritocracia, quando aplicada de forma universal, cobra coerência.
No fim, o caso Eduardo Bolsonaro não é apenas um episódio administrativo. É um teste institucional. Um sinal de que, ao menos neste episódio, a lei parece valer para todos — inclusive para quem sempre falou em nome da ordem, do combate a privilégios e da moralização do Estado. Quando a meritocracia deixa o palanque e entra na planilha, ela revela quem realmente acredita nela.




