
Há algo profundamente revelador na forma como uma sociedade trata seu patrimônio histórico. Não se trata apenas de preservar tijolos e argamassa, mas de decidir que tipo de relação queremos estabelecer com nossa própria história e, consequentemente, com nosso futuro.
Vitória da Conquista vive um momento crucial nesse sentido. A recente decisão do Conselho Municipal de Cultura de tombar cinco imóveis históricos, incluindo a Prefeitura Municipal e o antigo prédio da Câmara de Vereadores, representa mais do que uma vitória burocrática – é um gesto de maturidade cívica e reconhecimento de que somos, fundamentalmente, herdeiros de uma trajetória coletiva.
Quando caminhamos pela região central da cidade, da Praça Sá Barreto ao Monumento ao Índio, passamos por verdadeiras testemunhas silenciosas de 185 anos de história. Cada casarão, cada fachada preservada conta uma narrativa que transcende a biografia individual de seus antigos moradores. São capítulos de uma história maior: a nossa.
O historiador Fábio Sena tocou em um ponto essencial ao afirmar que preservar é evitar que vivamos em uma cidade que nos seja totalmente estranha. Vivemos tempos de transformações velozes, onde o novo se sobrepõe ao antigo com uma velocidade estonteante. Nesse contexto, os casarões históricos funcionam como âncoras de identidade, lembretes tangíveis de que fazemos parte de algo que nos precede e que, espera-se, nos sucederá.
O Desafio que Precisa Ser Enfrentado
Porém, é preciso ser franco: apesar dos esforços louváveis da Secretaria de Cultura e do Conselho Municipal de Cultura de nossa cidade, não podemos fechar os olhos para uma realidade preocupante. O poder econômico e a falta de compromisso de alguns empresários com o patrimônio público têm levado casarões históricos a se transformarem em estacionamentos em Vitória da Conquista.
Sim, estacionamentos. Edificações que atravessaram mais de um século, que abrigaram famílias, que testemunharam momentos decisivos da história local, reduzidas a vagas de automóveis. É um sintoma alarmante de uma visão estreita que enxerga apenas o lucro imediato, ignorando o valor inestimável – e sim, também econômico a longo prazo – do patrimônio histórico.
Ver o esforço de alguns abnegados representantes públicos em defesa destes casarões é, sem dúvida, gratificante. Reconhecemos e celebramos cada vitória, cada tombamento aprovado, cada imóvel salvo da demolição. Mas é preciso dizer com todas as letras: queremos mais. Precisamos de mais.
A Necessidade de Ação Mais Rigorosa
O que nossa cidade necessita urgentemente é de um trabalho mais rigoroso, acompanhado de projetos consistentes e leis que possam efetivamente impedir a demolição dessas propriedades. Não basta a boa vontade de alguns; é preciso criar mecanismos legais robustos que protejam nosso patrimônio da especulação imobiliária desenfreada.
Outras cidades brasileiras já demonstraram que é possível conciliar desenvolvimento econômico com preservação histórica. Basta vontade política e, principalmente, coragem para enfrentar interesses econômicos que muitas vezes se sobrepõem ao interesse coletivo. O patrimônio histórico não pertence a este ou aquele proprietário individual – pertence à comunidade, às gerações passadas que o construíram e às gerações futuras que têm o direito de conhecê-lo.
É fundamental que o município estabeleça não apenas o tombamento, mas também incentivos para a preservação e penalidades severas para a demolição irregular. Que haja fiscalização efetiva, recursos para manutenção, e um plano diretor que realmente priorize a preservação do centro histórico. Que os proprietários de imóveis históricos recebam apoio técnico e, quando necessário, financeiro para a conservação adequada dessas edificações.
Memória Não Se Negocia
A Casa Memorial Governador Régis Pacheco, o Museu Regional, a Casa de Dona Zaza – esses espaços não são apenas monumentos a um passado distante. São centros vivos de cultura, educação e identidade. Quando preservamos um casarão, não estamos apenas mantendo uma fachada bonita; estamos garantindo que as técnicas construtivas, as preocupações urbanas, a força política e a organização comunitária de nossos antepassados continuem sendo referências tangíveis para compreendermos quem somos.
Pertencer a um lugar não é apenas residir nele; é reconhecer-se em suas ruas, suas construções, suas histórias. Quando permitimos que um casarão histórico seja demolido para dar lugar a um estacionamento, não perdemos apenas uma edificação – perdemos um pedaço da nossa identidade coletiva, um fragmento do tecido social que nos une como comunidade.
Um Chamado à Ação
A preservação do patrimônio histórico é responsabilidade de todos, mas precisa começar com decisões firmes do poder público. Precisamos de coragem política para dizer não aos interesses privados quando estes ameaçam o bem comum. Precisamos de empresários que compreendam que uma cidade com identidade e história preservadas é mais atrativa, mais turística, mais valiosa economicamente a longo prazo.
Precisamos também de uma sociedade civil mobilizada, que cobre, que fiscalize, que denuncie quando um patrimônio estiver em risco. Que as associações de bairro, os movimentos culturais, as universidades e as escolas se unam nessa causa. A memória só se mantém viva quando é defendida coletivamente.
É preciso, ainda, educação patrimonial consistente. Que as escolas incluam a história local em seus currículos, que haja visitações guiadas, que os próprios moradores sejam convidados a conhecer e valorizar esse patrimônio. Só se defende aquilo que se conhece e valoriza.
O Futuro que Escolhemos
Vitória da Conquista está em uma encruzilhada. Podemos seguir o caminho fácil, permitindo que o interesse econômico imediato destrua sistematicamente nosso patrimônio histórico, até que nossa cidade se transforme em mais uma urbe sem identidade, sem memória, sem alma. Ou podemos fazer a escolha difícil, mas necessária: estabelecer regras claras, fiscalização efetiva e punições severas para quem desrespeitar nosso patrimônio.
Ao preservarmos nossos casarões, fazemos mais do que uma concessão ao passado – fazemos um investimento no futuro. Garantimos que as próximas gerações de conquistenses possam olhar ao redor e reconhecer-se em sua cidade, sentir-se parte de uma história maior, compreender que são elos em uma corrente que liga passado e futuro.
Como bem sintetizou o Assessor Especial de Cultura, Alecxandre Magno, preservar esses casarões é preservar nossa cultura. Mas cultura não se preserva apenas com discursos bonitos – preserva-se com leis claras, fiscalização rigorosa e compromisso inabalável.
Que Vitória da Conquista tenha a coragem de proteger verdadeiramente seu patrimônio. Que os representantes públicos criem e façam cumprir leis de preservação mais rígidas. Que os empresários compreendam seu papel social. Que a sociedade se mobilize. Afinal, as cidades verdadeiramente grandes não são aquelas que apagam seu passado em nome do lucro imediato, mas aquelas que sabem integrá-lo criativamente ao presente, construindo assim um futuro mais rico, mais plural e profundamente enraizado em sua própria história.
O momento de agir é agora. Antes que mais um casarão vire estacionamento. Antes que nossa memória seja completamente pavimentada.




