Política e Resenha

Privatização dos Correios: o Roteiro Conhecido da Asfixia Estatal

 

 

 

Há processos políticos que não se anunciam em discursos oficiais nem em projetos de lei escancarados. Eles caminham em silêncio, travestidos de tecnicalidade financeira, escondidos em operações bancárias que parecem neutras, mas carregam um destino conhecido. O que se desenha hoje em torno dos Correios guarda todas as marcas de um velho método brasileiro: a privatização por endividamento.

Quando uma empresa pública estratégica passa a depender crescentemente de operações financeiras com bancos, sem um plano robusto de investimento produtivo, modernização logística e proteção institucional, o que se constrói não é sustentabilidade, mas dependência. O endividamento estatal, nesse contexto, deixa de ser instrumento de política pública e passa a funcionar como alavanca de submissão. A conta cresce, a margem de manobra diminui e, pouco a pouco, a empresa é empurrada para o discurso da inviabilidade.

Os Correios não são uma empresa qualquer. Eles cumprem função social, integram o território nacional, conectam regiões onde o mercado não vê lucro e garantem a presença do Estado onde a iniciativa privada não chega. Falar em privatização dos Correios não é discutir eficiência administrativa apenas; é tocar no coração da soberania nacional. Ainda assim, o debate público é anestesiado por uma retórica fiscal que reduz tudo a números, ignorando o valor estratégico das empresas públicas.

Nesse cenário, o papel do Tesouro Nacional torna-se central. Enquanto o Tesouro sustenta a empresa, ela permanece como patrimônio do povo brasileiro. Quando, porém, o próprio Estado permite que a dívida se torne estrutural, sem blindagem política e sem narrativa pública em defesa do interesse nacional, abre-se o caminho para a “solução inevitável”: concessão, fatiamento ou leilão. A história recente do Brasil já mostrou esse filme muitas vezes, sempre com o mesmo final e com os mesmos beneficiários.

O que mais inquieta, contudo, é o silêncio. Onde está o trabalhismo brasileiro, que nasceu para defender o Estado como indutor do desenvolvimento e guardião do interesse público? Onde estão as forças progressistas, tão ágeis para reagir a pautas identitárias, mas tão tímidas diante da corrosão material do patrimônio nacional? O silêncio, neste caso, não é neutro. Ele opera como consentimento.

Parte desse campo político parece ter naturalizado a lógica do mercado como se fosse lei da natureza. Outra parte parece paralisada pelo medo de enfrentar o discurso da austeridade, tratado como dogma incontestável. Assim, a defesa das empresas públicas vai sendo substituída por uma gestão defensiva, que aceita o endividamento como fatalidade e abandona a disputa narrativa sobre o papel do Estado.

Privatizar não é apenas vender. Privatizar é, muitas vezes, enfraquecer até que a venda pareça razoável. É transformar um projeto nacional em um problema contábil. É reduzir soberania a planilha. Se esse processo seguir sem resistência política, sem mobilização social e sem clareza histórica, os Correios poderão ser apresentados, em breve, como mais um “ativo” a ser passado adiante — não por escolha do povo, mas por exaustão induzida.

Defender os Correios hoje é defender a ideia de que o Brasil não pode ser governado apenas pela lógica financeira. É afirmar que soberania nacional não se mede apenas por superávits, mas pela capacidade do Estado de servir ao seu povo. O endividamento estatal pode ser ferramenta; jamais deve ser armadilha. Quando se aceita o contrário, a privatização deixa de ser um debate e passa a ser um desfecho programado.

(Padre Carlos)