Política e Resenha

Quando a Cidade Aprende a Se Escutar

 

 

 

Uma lei que não legisla apenas — ela resgata

Querida Vitória da Conquista,

Há momentos em que uma lei não é apenas um texto jurídico. Há momentos em que ela se transforma em abraço, em reconhecimento, em sussurro ancestral que diz: “você existe, sua voz importa, seu canto merece ecoar”.

A sanção da Lei que destina 10% da programação radiofônica aos artistas locais não é um decreto burocrático. É um ato de amor civilizatório. É a cidade olhando-se no espelho e, finalmente, reconhecendo sua própria beleza — aquela beleza imperfeita, verdadeira, que nasce do chão vermelho da terra, do frio da serra que corta a pele e aquece a alma.

O Silêncio que Dói

Quantos compositores desta cidade já adormeceram com melodias presas na garganta? Quantos violeiros, cantadores, poetas da música popular carregaram o peso amargo de não serem ouvidos em sua própria terra?

Há uma violência silenciosa em não se ver representado nos meios que deveriam ser a voz da comunidade. Há uma ferida profunda quando um artista local precisa disputar espaço com a indústria massificada, como se seu talento fosse menos legítimo, menos digno de existir nas ondas do rádio que atravessam nossos lares.

Essa lei chega não como concessão, mas como reparação. Como um pedido de desculpas tardio a todos os que foram invisibilizados. Como uma promessa de que, daqui em diante, a cidade será palco para seus próprios filhos.

A Coragem de Legislar com o Coração

O vereador Luciano Gomes compreendeu algo que poucos políticos conseguem enxergar: cultura não é luxo, é alimento da alma coletiva. E ao propor esta lei, ele não estava pensando apenas em números ou em obrigações — estava pensando em dignidade, em pertencimento, em identidade.

A prefeita Sheila Lemos, ao sancionar, demonstrou que governar também é cuidar do invisível, daquilo que não enche barriga mas alimenta o espírito. É reconhecer que uma cidade sem cultura própria é uma cidade amnésica, que não sabe de onde vem nem para onde vai.

O Rádio como Espelho Sonoro

Imagine o poder transformador deste ato: uma jovem liga o rádio pela manhã e escuta a voz de seu vizinho, do amigo de seu pai, da mulher que canta na igreja. Ela percebe, então, que a arte não é privilégio distante — está ali, ao alcance da mão, nascendo nas mesmas ruas que ela caminha.

Imagine o compositor que, durante anos, tocou apenas para paredes, ouvindo sua canção no intervalo do noticiário. A emoção não cabe no peito. É o reconhecimento que cura, que valida, que diz: você não estava louco em sonhar.

O rádio se torna, assim, mais que um veículo de comunicação. Torna-se confessionário público, altar laico onde a cidade celebra suas próprias vozes. Onde o sotaque conquistense não é defeito a ser corrigido, mas melodia a ser exaltada.

A Identidade que Se Reconstrói em Cada Nota

Uma cidade que não conhece seus artistas é uma cidade que não se conhece. Que não sabe rir de si mesma, chorar suas próprias lágrimas, cantar suas próprias vitórias. É uma cidade órfã de memória afetiva, habitada por estrangeiros de si mesmos.

Esta lei é o início de uma reconciliação. É a oportunidade de que nossa juventude cresça ouvindo não apenas os sucessos nacionais, mas as histórias cantadas que nasceram aqui — com as referências que ela reconhece, os lugares que ela frequenta, as dores e alegrias que ela compartilha.

É a construção de um espelho sonoro onde possamos nos ver refletidos, não como cópias imperfeitas de outros lugares, mas como expressão única, autêntica, insubstituível.

O Convite que Fica

Agora, queridas rádios de Vitória da Conquista, vocês têm uma missão sagrada. Não cumpram esta lei apenas porque é obrigatório — cumpram porque é necessário, porque é justo, porque é urgente.

Busquem os artistas nos bairros, nas periferias, nos palcos improvisados. Escutem as demos gravadas com poucos recursos mas com alma abundante. Deem espaço não apenas aos já conhecidos, mas aos desconhecidos que merecem ser descobertos.

E a você, artista conquistense que lê estas linhas: sua voz sempre foi válida. Agora ela terá o amplificador que merecia. Continue criando, compondo, resistindo. Sua arte é resistência. Sua melodia é revolução silenciosa.

Porque uma cidade que aprende a se escutar é uma cidade que aprende a se amar. E o amor próprio de um povo é o primeiro passo para qualquer transformação verdadeira.

Que esta lei seja apenas o começo de uma sinfonia maior — onde cada conquistense seja, simultaneamente, compositor e ouvinte da própria história.


Com profunda esperança e emoção,
Um observador que acredita que toda cidade merece ouvir seu próprio coração bater

Padre Carlos