
Padre Carlos
Há momentos em que a preocupação deixa de ser abstrata e ganha contornos concretos, quase físicos. Foi exatamente essa a sensação ao assistir, recentemente, a um vídeo em que um suposto líder religioso discursava para uma multidão de jovens. O que se apresentou ali não foi orientação espiritual, tampouco um debate honesto de ideias. Foi algo mais raso, mais perigoso e, juridicamente falando, mais grave: charlatanismo. E charlatanismo, convém lembrar, não é opinião — é crime.
Sob o manto sedutor da liberdade de expressão e da liberdade religiosa, esse personagem — que se autodenomina pastor, mas atua com claros contornos de agitador político — constrói um discurso agressivo, excludente e intelectualmente desonesto. Em nome de um combate quase mítico ao comunismo, ataca qualquer pensamento divergente, lançando mão de rótulos como “esquerdopata”. A palavra, por si só, já revela o abismo moral em que se pisa: ela patologiza a diferença, transforma posição política em doença, opinião em desvio psicológico.
Não se trata apenas de ofensa. Trata-se de risco. Quando a divergência política passa a ser tratada como patologia, o diálogo se torna impossível e a democracia começa a apodrecer por dentro. O debate público, que deveria ser o espaço do confronto civilizado de ideias, é substituído pela desqualificação moral, pela caricatura e pela desumanização do outro. E uma sociedade que perde a capacidade de dialogar perde, junto, a capacidade de se reconhecer como plural.
O cenário se agrava quando esse discurso volta suas armas contra a educação. Universidades são atacadas como antros ideológicos, escolas são demonizadas e a ciência passa a ser tratada como inimiga. Fatos históricos são distorcidos sem pudor, informações são manipuladas com habilidade retórica, e mentiras são apresentadas com a segurança de quem sabe que parte do público não terá instrumentos críticos para contestá-las. Para dar verniz de autoridade a esse conjunto de absurdos, recorre-se a citações bíblicas fora de contexto — não como expressão de fé, mas como técnica de persuasão. A Escritura, nesse caso, deixa de ser palavra espiritual e se transforma em ferramenta de manipulação.
É charlatanismo em estado puro, disfarçado de discurso moral.
Mas talvez o aspecto mais alarmante de todo esse processo seja o ataque direto aos professores. Ao estimular jovens a desacreditarem de seus mestres, esse tipo de liderança atinge o coração de qualquer projeto civilizatório. Não existe país que se desenvolva sem educação. Não existe sociedade que avance desprezando seus educadores. Professores não são inimigos do futuro; são seus construtores. São eles que formam o pensamento crítico, o rigor científico e a ética pública de uma nação.
Quando alguém usa sua influência para colocar estudantes contra professores, o que está em jogo não é apenas uma disputa ideológica. É o próprio futuro do país.
Diante desse quadro, torna-se legítimo — e até necessário — questionar se o crime de charlatanismo, tal como previsto hoje na legislação brasileira, não precisa ser revisto e atualizado pelo Congresso Nacional. Liberdade religiosa e liberdade de expressão são direitos fundamentais e inegociáveis. Mas não podem servir de escudo para práticas criminosas, manipulação deliberada, ataque sistemático à ciência e corrosão das instituições educacionais.
Invocar a Constituição para justificar desinformação e obscurantismo é uma perversão do próprio espírito democrático. É grave. É perigoso. E, sobretudo, não pode ser normalizado.
Silenciar diante desse cenário é permitir que a ignorância se organize como projeto de poder. E esse é um risco que nenhuma sociedade minimamente responsável pode — ou deve — correr.




