Por Padre Carlos
Há feridas que não sangram, mas doem. Há injustiças que não gritam, mas ecoam no silêncio dos corredores vazios de hospitais sem recursos, nas ruas sem asfalto, nos olhos cansados de quem espera por um serviço público que nunca chega. Em Vitória da Conquista, uma dessas feridas tem nome: perseguição política disfarçada de emenda parlamentar.
Enquanto vereadores como Lara Fernandes levantam questionamentos técnicos sobre a destinação de recursos — e fazem bem em fiscalizar —, há uma pergunta maior, mais dolorosa, que precisa ecoar nas consciências: por que certos deputados preferem enviar emendas para qualquer lugar, menos para a prefeitura que já possui estrutura, experiência e capacidade de execução?
O Jogo Cruel da Vingança Institucional
Existe algo profundamente desumano em usar o orçamento público como instrumento de retaliação política. Quando um parlamentar só destina recursos federais por razões puramente ideológicas, aliamento político, para iniciativas privada ou partidárias e não ao município que tem uma estrutura maior e pode gerir melhor estes municípios, ele não está ferindo apenas um prefeito ou uma gestão — está condenando milhares de cidadãos à escassez, ao abandono, à espera interminável.
A emenda parlamentar não é um troféu pessoal. Não é moeda de troca em guerras de ego. É o pão na mesa de quem tem fome de dignidade. É o remédio que salva vidas. É o asfalto que conecta sonhos. É o abrigo que protege os mais vulneráveis — inclusive os animais de rua que dependem de políticas sérias e continuadas.
Mas o que vemos? Recursos sendo direcionados para instituições que, por mais respeitáveis que sejam, não possuem presença efetiva no município na área que foi destinada o recurso. Dinheiro sendo canalizado para projetos paralelos quando já existe uma máquina pública funcionando, capaz de multiplicar cada centavo em benefício real. É como ignorar um poço de água limpa para cavar outro do lado, apenas porque o primeiro foi cavado por mãos que você despreza.
A Perversidade do Desvio Estrutural
O mais cruel nessa estratégia é sua aparência de legalidade. Formalmente, tudo está correto: a emenda foi destinada, o projeto existe, há uma instituição recebedora. Mas na essência, no impacto real sobre a vida das pessoas, há um vazio ensurdecedor.
Quando se escolhe enviar recursos para a iniciativa privada ou para órgãos sem estrutura local consolidada, em vez de fortalecer o que já funciona na gestão municipal, o que está em jogo não é eficiência — é vingança. E vingança política tem sempre as mesmas vítimas: os cidadãos comuns, aqueles que não têm partido, não têm palanque, não têm voz nos corredores do poder.
Pense na mãe que espera na fila do posto de saúde. No jovem que sonha com uma quadra esportiva no bairro. No idoso que precisa de transporte público digno. Em cada animal de rua que poderia ser castrado e tratado se os recursos chegassem onde já existe capacidade instalada. Todos eles são reféns de um jogo político que os ignora completamente.
Por Que Tanto Ódio?
É legítimo perguntar, com a alma apertada: o que move tamanha hostilidade? Que rancor é esse que prefere ver a cidade sofrer a ver uma administração adversária ter sucesso? Que tipo de “representação popular” é essa que transforma o orçamento em arma de guerra?
Não há republicanismo nisso. Não há zelo pelo bem comum. Há apenas a manifestação mais mesquinha da disputa pelo poder: a disposição de sacrificar o coletivo no altar do ressentimento pessoal.
Uma administração municipal, seja qual for, não é propriedade de um partido ou de um grupo. É a casa de todos. É onde a vida acontece, onde as necessidades batem à porta todos os dias. Atacá-la com a arma do orçamento não é atacar um adversário político — é atacar a própria população.
O Castramóvel e a Metáfora da Indiferença
O programa de castração animal em Vitória da Conquista, com suas mais de 4 mil cirurgias em 2024, é prova viva do que uma estrutura bem conduzida pode fazer. O Castramóvel percorre bairros, leva serviço até quem mais precisa, materializa política pública em ação concreta.
Mas não tem abrigo para recuperação pós-cirúrgica. Não porque não haja projeto, mas porque faltam recursos. E faltam recursos porque há quem prefira destiná-los para longe, bem longe, onde o alcance é menor, a execução é mais difícil e o impacto é quase simbólico.
É uma metáfora perfeita da crueldade política: deixar morrer de sede ao lado da fonte, por pura teimosia.
Um Apelo à Consciência Republicana
Não estamos falando aqui de defender A ou B, este ou aquele gestor. Estamos falando de defender o óbvio: o dinheiro público deve ir para onde pode fazer mais diferença. E ponto.
Se a prefeitura tem estrutura veterinária montada, clínica pública funcionando, equipes treinadas e demanda crescente, por que não fortalecer isso? Se há um abrigo faltando e ele poderia ser construído com recursos de emenda, por que inventar projetos paralelos?
A resposta é simples e dolorosa: porque a lógica da perseguição política é mais forte que a lógica do bem comum.
Conclusão: O Povo Não Merece Ser Moeda de Troca
Chegará o dia — e que ele chegue logo — em que os eleitores saberão distinguir quem legisla para o povo e quem legisla contra o povo por vingança. Chegará o dia em que uma emenda desviada por razões político-partidárias será vista pelo que realmente é: um ato de crueldade institucionalizada.
Vitória da Conquista merece mais do que ser palco de disputas mesquinhas. Merece parlamentares que entendam que não existe glória em fazer o bem por caminhos tortos quando há um caminho reto, eficiente e transparente disponível.
Que a coragem de fiscalizar aqueles que, por rancor, preferem ver a cidade sofrer a ver uma gestão adversária prosperar seja mais forte que a omissão ou amor ideológico.
Porque no final das contas, quem perde não é o prefeito. Quem perde é a criança sem escola adequada, o doente sem atendimento, o animal sem cuidado. Quem perde é sempre o povo.
E o povo, que elegeu todos vocês, não merece ser moeda de troca em guerras que não são suas.





