Política e Resenha

Quando a Sanfona Chama, um Povo Inteiro Responde

Por Maria Clara

Há algo de mágico nas noites de junho do interior nordestino. O frio chega de mansinho, as luzes coloridas recortam a escuridão, o cheiro de milho assado e amendoim cozido invade as ruas, e a sanfona começa a tocar como se estivesse chamando cada pessoa pelo nome. Não importa a idade, a profissão ou a história que cada um carrega. Quando o forró ecoa, o povo responde.

Foi exatamente essa cena que Vitória da Conquista viveu na abertura do Arraiá da Conquista 2026. Milhares de pessoas atravessaram os portões do Parque de Exposições Teopompo de Almeida para dar início a cinco dias de celebração que vão muito além do entretenimento. O que começou como uma festa popular transformou-se, ao longo dos anos, em uma das maiores expressões culturais do interior da Bahia e em um dos mais importantes eventos juninos do Nordeste brasileiro.

Mas reduzir o Arraiá da Conquista a uma simples programação de shows seria ignorar aquilo que realmente acontece quando uma cidade inteira se reúne para celebrar suas tradições. O São João não é apenas uma festa. É uma declaração de identidade.

Vivemos tempos em que tudo parece transitório. As notícias envelhecem em poucas horas. As redes sociais transformam acontecimentos em tendências descartáveis. O mundo corre numa velocidade que muitas vezes nos impede de olhar para trás. Talvez por isso as festas juninas tenham se tornado ainda mais importantes. Elas funcionam como uma âncora coletiva, lembrando quem somos e de onde viemos.

Quando uma multidão ocupa o Parque de Exposições para cantar forró, dançar quadrilha e celebrar a cultura nordestina, não está apenas se divertindo. Está reafirmando uma herança construída por gerações de homens e mulheres que fizeram da alegria uma forma de resistência.

É impossível falar do sucesso do Arraiá da Conquista sem reconhecer a transformação que o evento experimentou nos últimos anos. A mudança para o Parque de Exposições ampliou o espaço, trouxe mais conforto, melhor organização e permitiu que a festa alcançasse uma dimensão compatível com a importância que conquistou.

Os relatos da noite de abertura mostram uma cidade tomada por visitantes. Hotéis movimentados. Restaurantes cheios. Comércio aquecido. Aplicativos de transporte operando intensamente. Vendedores ambulantes encontrando oportunidades de renda. Pequenos empreendedores ampliando suas vendas.

Essa é uma das faces mais bonitas das festas populares: a capacidade de transformar cultura em desenvolvimento econômico.

Durante muito tempo, desenvolvimento foi associado apenas a grandes indústrias, investimentos bilionários ou obras monumentais. Hoje, a economia criativa demonstra que cultura também gera riqueza. E gera uma riqueza que circula por toda a sociedade.

Quando um turista escolhe Vitória da Conquista para passar o São João, ele não compra apenas um ingresso para assistir a um show. Ele ocupa um quarto de hotel, faz refeições em restaurantes, compra artesanato, abastece veículos, utiliza serviços e movimenta toda uma cadeia produtiva.

A festa gera emprego, renda e oportunidades.

E talvez esteja aí um dos maiores méritos do Arraiá da Conquista: mostrar que tradição e desenvolvimento não são conceitos opostos. Pelo contrário. Quando bem organizadas, as manifestações culturais tornam-se instrumentos poderosos de crescimento regional.

A presença de atrações como Tarcísio do Acordeon, Dorgival Dantas e diversos artistas locais demonstra um equilíbrio importante entre popularidade e valorização da identidade nordestina. O público encontra nomes consagrados da música nacional, mas também reencontra suas raízes.

Porque o verdadeiro protagonista do São João não é o palco.

É a sanfona.

É o triângulo.

É a zabumba.

São os casais dançando agarradinhos.

São as famílias reunidas.

São os amigos que passam o ano inteiro esperando pela chegada de junho.

São os idosos que revivem lembranças da juventude.

São as crianças que estão criando memórias que carregarão para o resto da vida.

A senhora de 73 anos que declarou não perder um único São João da cidade talvez represente melhor do que ninguém o significado dessa celebração. Para ela, pouco importa quem está se apresentando. O importante é estar ali. Participar. Sentir-se parte de algo maior.

E ela tem razão.

Porque o São João nunca foi apenas sobre música.

É sobre pertencimento.

Em um mundo cada vez mais individualista, as festas populares continuam sendo um raro espaço de convivência coletiva. Pessoas de diferentes origens, classes sociais, idades e opiniões dividem o mesmo espaço para celebrar aquilo que têm em comum.

Não há algoritmo capaz de reproduzir essa experiência.

Não há tela que substitua o calor humano de uma praça iluminada por bandeirolas.

Não há tecnologia capaz de replicar a emoção de ouvir uma sanfona ao vivo enquanto milhares de pessoas cantam juntas.

Talvez seja justamente por isso que o São João permaneça tão forte.

Enquanto tantas tradições desapareceram ao longo das décadas, as festas juninas continuam crescendo. Elas resistem porque atendem a uma necessidade humana fundamental: a necessidade de conexão.

Vitória da Conquista parece ter compreendido essa verdade.

Ao investir na infraestrutura, na segurança, na organização e na ampliação do evento, a cidade não está apenas promovendo uma festa. Está fortalecendo um patrimônio cultural que pertence a toda a região.

O sucesso do Arraiá da Conquista não é uma vitória de governos, partidos ou administrações específicas. É uma conquista coletiva. É o resultado do trabalho de servidores públicos, artistas, comerciantes, empreendedores e, sobretudo, da população que abraça a festa ano após ano.

Nenhuma estrutura seria suficiente sem o entusiasmo do povo.

Nenhum palco teria significado sem o público.

Nenhuma programação seria memorável sem a emoção compartilhada por quem participa.

No fundo, o que acontece em Vitória da Conquista durante o São João é um encontro entre passado e futuro. De um lado, tradições centenárias transmitidas entre gerações. Do outro, uma cidade moderna que descobre na própria cultura uma poderosa ferramenta de desenvolvimento.

Poucas combinações são tão promissoras.

Quando uma cidade consegue crescer sem abandonar suas raízes, ela encontra algo raro: uma identidade sólida.

E identidades sólidas são construídas justamente assim, através de histórias compartilhadas, símbolos coletivos e celebrações capazes de atravessar o tempo.

Por isso, quando os portões do Parque de Exposições se abriram naquela noite fria de junho, não foi apenas o início de mais uma programação festiva.

Foi a abertura de um espaço onde memórias são criadas, laços são fortalecidos e a cultura nordestina reafirma sua vitalidade.

Enquanto houver uma fogueira acesa iluminando a noite, enquanto houver uma sanfona transformando saudade em música, enquanto houver um povo disposto a celebrar suas origens com orgulho e alegria, o Nordeste continuará contando sua própria história.

E essa história, felizmente, continua sendo escrita ao som do forró.