
A política tem dessas ironias silenciosas. Às vezes, a derrota não nasce na força do adversário — mas na soberba dos aliados que deixam de ser ouvidos.
É nesse terreno delicado que o governo de Jerônimo Rodrigues começa a caminhar rumo às eleições. E o caminho, que parecia pavimentado pela ampla coalizão de partidos que sustentaram sua vitória, hoje revela fissuras que podem custar caro ao Partido dos Trabalhadores.
Não se trata apenas de divergências pontuais. Trata-se de um movimento político que, pouco a pouco, vai rearrumando o tabuleiro da sucessão baiana.
E nesse tabuleiro, o Movimento Democrático Brasileiro pode deixar de ser peça de apoio para se tornar peça decisiva — inclusive contra o próprio governo.
O recado que veio das entrelinhas
Nos bastidores da política, mensagens raramente são inocentes. Quando são públicas, então, quase nunca são.
O ex-ministro Geddel Vieira Lima, uma das figuras mais influentes do MDB baiano, publicou recentemente uma frase do escritor e ex-governador paraibano José Américo de Almeida:
“Ninguém se perde na volta, porque voltar por vezes é uma forma de renascer.”
Não foi apenas uma citação literária. Foi uma provocação política.
Na mesma postagem, Geddel marcou nomes centrais da política baiana: Lúcio Vieira Lima, Geraldo Júnior, Jaques Wagner, o próprio Jerônimo Rodrigues, além de outras lideranças.
Na política, marcações assim não são distrações digitais. São recados.
E o recado parecia claro: o MDB não está disposto a ser apenas figurante na eleição de 2026.
O erro estratégico que pode custar caro
O problema para o PT não é apenas a insatisfação do MDB. O problema é a sequência de movimentos políticos que, somados, começam a desenhar um cenário perigoso.
Primeiro veio o desgaste com o senador Angelo Coronel, uma liderança de peso dentro da base governista.
Agora surge a tensão com o MDB, partido que, embora aliado circunstancial do lulismo em alguns momentos, nunca foi — de fato — um partido petista ou lulista em suas bases.
Essa é uma diferença fundamental.
O MDB funciona como um organismo político próprio, com identidade pragmática e forte capilaridade municipal. Suas bases obedecem às orientações da direção partidária, mas não têm compromisso ideológico com o projeto petista.
Se o diretório nacional do partido decidir outro caminho, dificilmente os prefeitos e lideranças locais resistirão.
E isso muda completamente o cálculo eleitoral.
As cidades que não vieram
Outro ponto que revela os limites da articulação governista foi a tentativa de deslocar grandes centros políticos para a base de Jerônimo.
Falou-se muito na possibilidade de mudanças em cidades estratégicas como:
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Feira de Santana
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Vitória da Conquista
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Jequié
Mas o movimento não prosperou.
Na prática, os prefeitos dessas cidades permaneceram alinhados com o campo liderado por ACM Neto, principal adversário do governo estadual.
Esse detalhe, aparentemente técnico, tem enorme peso eleitoral. Grandes cidades organizam redes políticas, mobilizam votos regionais e criam ondas eleitorais.
Sem elas, qualquer campanha começa a corrida alguns quilômetros atrás.
O risco do isolamento
Se o MDB decidir realmente se afastar do governo, o cenário muda radicalmente.
Não apenas pela força histórica do partido na Bahia, mas pela simbologia política que esse gesto carregaria.
Seria o sinal de que a coalizão construída pelo PT começou a se desfazer.
E na política brasileira — especialmente na Bahia — quando aliados começam a sair pela porta lateral, a sensação de fragilidade se espalha rápido.
Mais rápido, às vezes, do que o próprio governo consegue reagir.
A eleição que pode ser perdida dentro de casa
O adversário mais visível do governo é ACM Neto. Mas o adversário mais perigoso pode ser outro: o erro de cálculo.
A política é, antes de tudo, a arte da convivência entre diferentes. E governar uma coalizão exige mais que força institucional; exige humildade política.
Se o PT perder o governo da Bahia, talvez a derrota não venha apenas da oposição.
Pode vir de algo mais silencioso — e mais fatal.
A sensação, entre antigos aliados, de que já não são mais necessários.
E quando um aliado começa a pensar em voltar, como sugeriu Geddel, a história política brasileira mostra que isso quase nunca é apenas literatura.
É estratégia.
E estratégia, na política, costuma custar caro.




