Política e Resenha

QUANDO O AMOR NOS IMPEDE DE JOGAR PEDRAS

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QUANDO O AMOR NOS IMPEDE DE JOGAR PEDRAS

Padre Carlos

No dia 13, celebramos Santa Dulce dos Pobres, a santa baiana que fez das ruas de Salvador o território de sua missão e dos pobres a razão mais profunda de sua existência. Irmã Dulce não precisou de grandes discursos para transformar vidas. Bastaram-lhe mãos estendidas, olhos atentos à dor do outro e um coração que parecia não conhecer a palavra “desistência”.

Escrevi sobre ela. Depois de publicar o artigo, imaginei que minha tarefa estava cumprida. Pensei que, passadas algumas horas, eu poderia seguir para outro assunto, outra história, outra reflexão. Mas algumas palavras não obedecem ao calendário. Elas entram silenciosamente na nossa consciência e ficam.

Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Uma frase de Santa Dulce começou a martelar minha cabeça.

“As pessoas que espalham amor não têm tempo para jogar pedras.”

Quanto mais eu repetia essas palavras, mais elas pareciam ganhar novos significados. Talvez porque existam frases que simplesmente lemos — e outras que nos leem. E aquela frase estava me lendo.

As pedras que carregamos sem perceber

Vivemos tempos em que parece haver sempre alguém pronto para atirar uma pedra. Pedra contra quem pensa diferente. Pedra contra quem errou. Pedra contra quem venceu. Pedra contra quem perdeu. Pedra contra o adversário político, contra o vizinho, contra o amigo que tomou uma decisão que não compreendemos.

Há pedras nas palavras, nos comentários das redes sociais, nas ironias, nos julgamentos apressados. Às vezes, nem percebemos que estamos segurando uma delas. E talvez seja justamente aí que Santa Dulce nos faça parar.

Porque enquanto algumas pessoas gastam a vida procurando culpados, ela procurava feridos. Enquanto muitos perguntavam quem merecia ajuda, ela simplesmente ajudava. Enquanto alguns discutiam sobre a pobreza, ela entrava na pobreza.

Santa Dulce não ficou olhando a miséria de uma janela confortável. Ela desceu as ladeiras de Salvador. Sentiu o cheiro das ruas, encontrou gente abandonada, viu a fome de perto, tocou feridas, acolheu doentes e fez da própria existência uma resposta concreta ao sofrimento humano.

Seu cristianismo não era uma teoria.
Era presença. Era gesto. Era pão.
Era abrigo. Era cuidado.

E talvez seja essa a grande provocação que sua frase nos deixa. O amor ocupa espaço. Quem está ocupado amando talvez realmente tenha pouco tempo para odiar. Quem está tentando levantar alguém que caiu talvez não encontre tempo para empurrar outra pessoa. Quem está carregando o peso de um irmão talvez não consiga carregar também uma pedra para atirá-la contra alguém.

Falar sobre amor não é o mesmo que praticá-lo

Existe uma diferença enorme entre falar sobre amor e praticá-lo. É muito fácil dizer que amamos o próximo quando o próximo concorda conosco. Difícil é amar quando ele nos contraria.

É fácil defender a fraternidade quando todos pensam como nós. Difícil é preservar a dignidade do outro quando ele pensa diferente. É fácil ser misericordioso com nossos próprios erros. Difícil é oferecer ao outro a mesma medida de compreensão que desejamos para nós.

Santa Dulce parece nos lembrar que o amor verdadeiro não é um sentimento decorativo. Ele dá trabalho. Amar é sair de si. É abrir a porta. É repartir. É escutar. É perdoar. É cuidar. É reconhecer que, por trás de cada rosto, existe uma história que não conhecemos completamente.

Talvez por isso a frase tenha ficado povoando minha mente. Talvez exista mesmo um propósito. Porque, às vezes, Deus — ou a própria consciência, para aqueles que preferem outra linguagem — não grita. Apenas sussurra uma frase no momento certo. E nós precisamos estar atentos para escutá-la.

E se você simplesmente largasse a pedra?

Tenho pensado muito nas pedras que carregamos. Algumas são antigas. Guardamos ressentimentos de décadas. Relembramos palavras que nos machucaram. Revisitamos injustiças. Alimentamos pequenas vinganças silenciosas.

Outras pedras são novas e chegam diariamente pelas redes sociais. Uma notícia provoca raiva. Um comentário provoca indignação. Uma opinião diferente desperta agressividade. E imediatamente queremos responder, queremos devolver, queremos vencer a discussão, queremos ferir um pouco mais do que fomos feridos.

Mas Santa Dulce parece perguntar: e se você simplesmente largasse a pedra?

Talvez esse seja um dos gestos mais revolucionários que podemos praticar hoje. Largar a pedra. Não porque o erro deixou de existir. Não porque devemos ser ingênuos. Não porque justiça e responsabilidade não sejam necessárias. Mas porque podemos combater o erro sem transformar o coração em morada do ódio.

Podemos discordar sem desumanizar. Podemos denunciar uma injustiça sem nos tornarmos injustos. Podemos defender nossas convicções sem destruir a dignidade de quem pensa diferente.

Ela via, simplesmente, uma pessoa

Essa talvez seja uma das maiores lições deixadas por Santa Dulce dos Pobres. Ela não perguntou se o sofrimento tinha partido de alguém de direita ou de esquerda. Não perguntou se aquele homem pobre votava como ela. Não perguntou se aquela mulher abandonada pertencia ao seu grupo.

Ela simplesmente viu uma pessoa necessitada. E isso bastava.

Há algo profundamente revolucionário nisso. Em um mundo que insiste em dividir pessoas entre “nós” e “eles”, Santa Dulce enxergava simplesmente seres humanos. Talvez seja por isso que seu nome ultrapassou os limites da Bahia. Porque existem pessoas que pertencem a uma época. E existem pessoas que pertencem à humanidade.

Santa Dulce pertence à humanidade.

Quando penso naquela mulher pequena, frágil fisicamente, caminhando pelas ladeiras de Salvador e enfrentando problemas que pareciam maiores do que suas próprias forças, percebo uma verdade que frequentemente esquecemos: não precisamos ser gigantes para fazer coisas gigantescas. Precisamos apenas começar.

Uma mão estendida pode parecer pequena. Um prato de comida pode parecer pequeno. Uma palavra de consolo pode parecer pequena. Um abraço pode parecer pequeno. Mas a vida é feita dessas pequenas coisas. Uma gota não é o oceano. Mas sem gotas não existe oceano.

O amor não precisa fazer barulho

Talvez o amor seja exatamente assim. Ele não precisa fazer barulho. Ele pode começar dentro de uma casa. Num pedido de desculpas. Numa visita. Numa mensagem enviada a alguém que está sofrendo. Num prato repartido. Num silêncio respeitoso. Num perdão. Num gesto de solidariedade. E, principalmente, na decisão de não transformar nossa indignação em crueldade.

Por isso aquela frase de Santa Dulce continua aqui, martelando minha consciência. Talvez eu tenha entendido, finalmente, por que ela não me deixou em paz. Eu não precisava escrever outro artigo sobre Santa Dulce. Precisava deixar que Santa Dulce escrevesse alguma coisa dentro de mim.

E talvez ela esteja escrevendo agora dentro de você também.

Vivemos numa época em que as pedras são abundantes. Mas o amor nunca será demais. Então, antes de responder aquela mensagem, antes de publicar aquela crítica, antes de condenar alguém, antes de levantar a mão para atirar sua pedra, talvez valha a pena lembrar da pequena freira que caminhava pelas ladeiras de Salvador carregando algo muito mais poderoso: amor.

Porque quem tem uma missão de amor não pode desperdiçar as mãos carregando pedras.

Ou carregamos pedras, ou carregamos pessoas.
Santa Dulce escolheu as pessoas.
E eu gostaria de aprender com ela.

Santa Dulce dos Pobres
Fé e Sociedade
Reflexão

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha