
Por Padre Carlos
A recente reação do empresariado brasileiro ao tarifaço imposto pelos Estados Unidos revela uma verdade incômoda, porém recorrente: a polarização política só incomoda quando começa a doer no bolso. Durante anos, muitos setores produtivos assistiram — e em alguns casos, incentivaram — a escalada da retórica ideológica que contaminou o debate público. Agora, diante da ameaça concreta de prejuízos bilionários, o discurso muda. O que antes era silêncio cúmplice, transforma-se em apelo por diplomacia.
O artigo da Folha de S. Paulo mostra empresários assustados com a decisão de Donald Trump de sobretaxar produtos brasileiros em 50%. A medida, claramente contaminada por motivações políticas, expõe o Brasil a riscos comerciais severos. E é nesse momento que o setor privado, antes ausente das discussões sobre moderação e institucionalidade, clama por pontes, diálogo e serenidade.
Como diz o ditado português, “agora Inês é morta”. A polarização já fez estragos: deteriorou relações internacionais, minou a previsibilidade jurídica e afastou investidores. A tentativa de reverter o tarifaço por meio de diplomacia é legítima — e necessária — mas chega tarde. O empresariado, que agora pede cautela, talvez pudesse ter exercido esse papel moderador antes que o cenário se tornasse tão tóxico.
A lição que fica é clara: não há neutralidade possível quando o extremismo se instala. O setor produtivo precisa entender que estabilidade política e institucional não são apenas abstrações democráticas — são pilares do ambiente de negócios. E quando esses pilares ruem, não há margem de lucro que resista.
Se o empresariado quiser evitar novos tarifaços, sanções ou rupturas comerciais, terá que assumir um papel mais ativo na defesa da racionalidade. Porque, como se vê, quando a polarização deixa de ser um debate e vira uma fatura, o mercado não perdoa.




