Por Maria Clara | Política e Resenha
Há momentos em que um sorriso diz mais do que qualquer explicação. No Hospital Municipal Esaú Matos, em Vitória da Conquista, a alegria de uma criança internada revelou o verdadeiro significado de uma iniciativa que vai muito além de uma comemoração: oferecer afeto, acolhimento e a oportunidade de viver a infância mesmo quando os dias são marcados por cuidados médicos e pela saudade de casa.
“Eu gostei que hoje teve essa festa. Fiquei muito mais feliz.” A frase de Bernardo, de apenas 6 anos, resume a importância da programação especial do Mês das Crianças realizada na unidade hospitalar. Para quem está internado, uma música, uma brincadeira, uma história contada com carinho ou um presente inesperado podem transformar um dia comum em uma lembrança especial.
Organizada pelo Grupo de Trabalho de Humanização (GTH), a programação teve seu Dia D na sexta-feira, 9 de outubro, reunindo atividades lúdicas, música, contação de histórias e ações solidárias. A proposta foi aproximar a infância do ambiente hospitalar, criando momentos de descontração para os pequenos pacientes e também para suas famílias, que compartilham com eles os desafios da internação.
Porque, quando uma criança precisa permanecer em um hospital, não é apenas o seu corpo que necessita de cuidados. Seus sentimentos, seus medos, sua necessidade de brincar e sua vontade de descobrir o mundo continuam presentes. A doença pode interromper temporariamente a rotina, mas não apaga a curiosidade, a imaginação nem o direito de ser criança.
O cuidado que também acolhe o coração
A hospitalização pode ser uma experiência difícil, especialmente na infância. Longe de casa, da escola, dos brinquedos e da convivência habitual, os pequenos enfrentam mudanças que nem sempre conseguem compreender ou expressar em palavras. Nesse cenário, o brincar deixa de ser apenas diversão e passa a representar uma importante forma de acolhimento.
A psicóloga do hospital, Laila Porto, destaca que as atividades lúdicas ajudam as crianças a expressar emoções, construir vínculos e lidar com o medo, a ansiedade e o sofrimento associados à internação. O brincar também permite que elas preservem parte de sua autonomia e de sua identidade em um ambiente organizado em torno dos procedimentos e cuidados de saúde.
É uma perspectiva que humaniza a assistência: enxergar a criança para além do diagnóstico, reconhecendo que cada pequeno paciente tem sentimentos, histórias, necessidades e uma maneira própria de enfrentar as dificuldades.
Essa compreensão torna iniciativas como a realizada no Esaú Matos especialmente significativas. Ao abrir espaço para a música, as brincadeiras e a imaginação, o hospital também abre espaço para que a infância continue existindo em meio à rotina dos cuidados médicos.
Pequenos gestos, grandes demonstrações de amor
A programação foi marcada pela participação de pessoas e organizações que decidiram transformar solidariedade em atitudes concretas.
Pelo segundo ano consecutivo, o Projeto Aquele Abraço levou naninhas às crianças internadas. Os pequenos objetos, preparados para oferecer aconchego, representam muito mais do que um presente: são símbolos de carinho em um momento no qual a proximidade com o lar pode fazer tanta falta.
A coordenadora do projeto, Zilmar Pereira do Carmo, destacou a satisfação de retornar ao hospital para tornar o Dia das Crianças um pouco mais leve. É nesse gesto de continuidade que a solidariedade revela uma de suas formas mais bonitas: não aparecer apenas uma vez, mas voltar, lembrar e demonstrar que o cuidado permanece.
A Ordem Filhas de Rute, da Loja Maçônica Cavaleiros do Oriente, também participou da iniciativa com a doação de brinquedos. Para a presidente da Ordem, Nilza Coelho, contribuir com a celebração representa uma oportunidade de servir às crianças com amor e dedicação.
São contribuições diferentes, reunidas por um mesmo propósito. Uma naninha, um brinquedo, uma história ou uma brincadeira podem parecer gestos pequenos diante dos desafios de um hospital. Entretanto, para uma criança que passa dias longe de casa, essas demonstrações de afeto podem adquirir um significado imenso.
A ação também contou com a participação do Circo 100 Lona, de contadoras de histórias, de profissionais do hospital e de outros colaboradores que ajudaram a construir um ambiente de alegria e acolhimento.
Quando a alegria alcança também as famílias
A emoção dessa iniciativa não ficou restrita às crianças. Ela chegou às mães, aos pais, aos avós e a todos aqueles que acompanham de perto a recuperação de um pequeno paciente.
Para Sthelen Santos Sales, mãe de João Arthur, a programação tornou ainda mais especial o primeiro Dia das Crianças do filho. Em meio à internação, a presença de pessoas dispostas a levar alegria também alcançou as famílias, que enfrentam suas próprias preocupações enquanto permanecem ao lado dos pequenos.
A avó de Lorenzo Paulino, de 9 anos, Alcilene Carmo de Oliveira, também ressaltou como a iniciativa ajuda a quebrar a rotina hospitalar. Segundo ela, o menino estava ansioso para voltar para casa, e a novidade dos presentes tornou aquele momento diferente.
Esses relatos lembram que a hospitalização de uma criança mobiliza toda a família. Enquanto os profissionais cuidam da saúde, mães, pais e avós convivem com a expectativa da recuperação, a saudade da rotina e o desejo de ver tudo voltar ao normal.
Quando a solidariedade alcança essas famílias, o acolhimento se torna ainda mais amplo. Não se trata de substituir o tratamento ou eliminar as dificuldades da internação, mas de oferecer momentos de leveza em meio a uma experiência que pode ser emocionalmente exigente.
Humanizar é reconhecer a criança por inteiro
A iniciativa do Hospital Esaú Matos deixa uma mensagem importante sobre o papel do cuidado em saúde. A qualidade da assistência não está apenas nos procedimentos realizados, nos recursos disponíveis ou na competência técnica das equipes. Também se revela na maneira como cada paciente é recebido, respeitado e tratado em sua individualidade.
No caso das crianças, isso significa reconhecer que brincar, imaginar, rir e receber carinho continuam sendo necessidades importantes, inclusive durante a internação.
A atuação do Grupo de Trabalho de Humanização, somada à participação dos projetos sociais, das organizações colaboradoras e dos profissionais envolvidos, demonstra como a união de diferentes pessoas pode tornar o ambiente hospitalar mais acolhedor.
A alegria vivida naquele dia não elimina os desafios enfrentados pelos pequenos pacientes, mas oferece algo valioso: a oportunidade de experimentar momentos de felicidade enquanto o tratamento continua.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior beleza dessa história. Bernardo não precisou de palavras elaboradas para explicar o significado da iniciativa. Aos 6 anos, expressou com simplicidade aquilo que muitas vezes os adultos tentam traduzir em discursos: naquele dia, ele ficou mais feliz.
Que essa alegria não seja lembrada apenas como parte de uma comemoração de outubro, mas como um convite permanente para que a humanização faça parte de todos os dias. Porque cuidar de uma criança é também proteger sua capacidade de sorrir, respeitar seus sentimentos e lembrar que, mesmo em um hospital, ela continua tendo o direito de viver a infância.
No Esaú Matos, a música, os brinquedos, as histórias e os gestos solidários mostraram que o carinho pode encontrar caminhos mesmo nos ambientes mais delicados. E, quando encontra, não muda apenas a rotina de um hospital: transforma a maneira como crianças e famílias atravessam um momento difícil.
Porque a medicina cuida da saúde, mas a presença, o afeto e a solidariedade ajudam a tornar a caminhada mais humana. E toda criança, especialmente aquela que enfrenta dias de internação, merece ter motivos para sorrir.





