
Por Padre Carlos
A política, dizem, é a arte do possível. Mas em Vitória da Conquista, ela vem se revelando também como a arte da contradição. A recente aprovação do projeto que transforma a Cosip em Cosip-MU — garantindo isenção total da conta de luz para famílias de baixa renda — expôs, de forma cristalina, a incoerência de certos discursos que, até ontem, se apresentavam como defensores do povo.
Durante semanas, as redes sociais foram inundadas por postagens inflamadas. Políticos e militantes bradavam que o novo modelo de cobrança da iluminação pública seria um golpe contra o bolso do cidadão pobre, um ataque às famílias mais vulneráveis. Mas quando o projeto chegou ao plenário da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, a verdade foi revelada: aqueles que se diziam defensores dos mais humildes votaram contra um texto que justamente os beneficia.
A proposta, aprovada por ampla maioria — 15 votos a favor contra 4 contrários —, não só mantém a justiça tributária, como cria isenções e incentivos inéditos:
Isenção integral para famílias de baixa renda inscritas na Tarifa Social, com consumo de até 80 kWh/mês;
Incentivo à energia limpa, com possibilidade de isenção para produtores solares;
E ainda, investimentos em modernização urbana, segurança, pontos de ônibus e sustentabilidade.
Ou seja: o projeto amplia a qualidade dos serviços públicos sem criar novos tributos, mas democratizando o custeio e exigindo transparência total na aplicação dos recursos.
Diante disso, fica a pergunta que ecoa como um lampejo sobre as praças e avenidas de Conquista: por que votar contra?
Difícil não enxergar aí um paradoxo: a direita em Brasília é acusada de proteger os ricos, enquanto em Conquista, é a esquerda que se ergue contra um projeto que alivia o peso das contas para os mais pobres. Talvez, no fim das contas, a ideologia tenha falado mais alto que o bom senso — ou o medo de ver o governo municipal marcar um ponto importante na pauta social.
O fato é que o discurso se desfez no confronto com a realidade. Aqueles que espalharam alarmismo sobre a “taxa de luz” agora precisam explicar por que rejeitaram uma proposta que isenta os mais pobres e estimula a sustentabilidade.
A população conquistense não é ingênua. O eleitor de hoje lê, compara e julga. E, neste caso, o julgamento é inevitável: quem votou contra, será que votou com os mais ricos?
Enquanto os holofotes da iluminação pública se preparam para iluminar novas avenidas e bairros, talvez eles também sirvam para lançar luz sobre o que estava nas sombras da política local: o abismo entre o discurso e a prática.
A verdade, como a boa iluminação, sempre encontra um jeito de aparecer.




