Política e Resenha

Quando o perigo não faz barulho: as doenças silenciosas que desafiam a vigilância em Vitória da Conquista

Enquanto as arboviroses como dengue, zika e chikungunya concentram grande parte da atenção da população, outras doenças igualmente graves seguem sob monitoramento constante do Centro de Controle de Endemias da Secretaria Municipal de Saúde. Patologias como Doença de Chagas, Leishmaniose Visceral e Esquistossomose continuam presentes, sobretudo na zona rural, exigindo ações permanentes de vigilância, prevenção e controle.

De acordo com a coordenação de Endemias, as equipes que atuam no meio rural são capacitadas para lidar com diferentes vetores e cenários epidemiológicos. O trabalho se estende ao longo de todo o ano e inclui inspeções em residências, estabelecimentos comerciais e áreas de risco, com o objetivo de identificar e eliminar focos de insetos transmissores e outros vetores associados às doenças endêmicas.

No caso da Doença de Chagas, a atenção tem sido intensificada em localidades do distrito de Bate Pé, onde foram identificados casos positivos e a presença do triatomíneo, conhecido popularmente como barbeiro. O inseto é o principal transmissor do protozoário Trypanosoma cruzi, agente causador da doença. Embora seja de hábito silvestre, o barbeiro pode invadir e colonizar residências, o que aumenta o risco de transmissão.

A Doença de Chagas é considerada uma enfermidade silenciosa. Na fase inicial, os sintomas costumam ser leves e inespecíficos, como febre baixa e mal-estar, o que dificulta o diagnóstico precoce. Em muitos casos, a confirmação ocorre anos ou até décadas após a infecção, quando a doença já se encontra na fase crônica e pode comprometer órgãos vitais, como coração, esôfago e intestino. Dados da Vigilância Epidemiológica apontam que, em 2025, foram registrados nove casos da forma crônica da doença em Vitória da Conquista.

Após a identificação de casos humanos ou da presença do barbeiro, as equipes de endemias realizam o controle químico nas residências, com aplicação de inseticida para eliminar focos de colonização e interromper a cadeia de transmissão. O acompanhamento não se encerra com a primeira intervenção: um ano depois, os agentes retornam ao imóvel para nova avaliação e, se necessário, repetem o procedimento.

Além da Doença de Chagas, a Leishmaniose Visceral também demanda atenção contínua. Em 2025, foram confirmados três casos na zona rural do município, conforme registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). O controle da doença envolve uma atuação integrada entre Vigilância Epidemiológica, Coordenação de Zoonoses e Controle de Endemias.

O fluxo de trabalho inclui a investigação de casos humanos, a pesquisa em cães para identificação de animais soropositivos e o monitoramento do vetor, o flebotomíneo, conhecido como mosquito-palha. A captura do inseto é realizada, preferencialmente, no período noturno, com a instalação de armadilhas no interior das residências e em áreas externas. Caso seja confirmada a presença do vetor no ambiente domiciliar, é feita a borrifação com produtos químicos, e a área permanece sob monitoramento por até seis meses.

A Leishmaniose Visceral apresenta sintomas como febre prolongada, aumento do fígado e do baço, perda de peso, fraqueza, anemia e redução da força muscular. O diagnóstico pode ser feito por métodos imunológicos e parasitológicos, e o tratamento precoce é decisivo para evitar agravamentos. Quando não tratada adequadamente, a doença pode evoluir para óbito.

As ações desenvolvidas pelo Centro de Controle de Endemias revelam um trabalho contínuo e, muitas vezes, pouco visível, mas fundamental para a saúde pública. Ao atuar na prevenção dessas doenças silenciosas, as equipes buscam não apenas conter casos já existentes, mas reduzir riscos futuros, protegendo comunidades que vivem em áreas mais vulneráveis e mantendo a vigilância ativa diante de ameaças que nem sempre ganham destaque, mas seguem presentes no cotidiano da população.

(Maria Clara)