Política e Resenha

QUANDO SE VÊ, A VIDA JÁ PASSOU

Padre Carlos

H
á textos que a gente lê. E há textos que, de alguma maneira misteriosa, parecem ler a gente.

Foi assim quando reencontrei o poema de Mario Quintana sobre o tempo. Li aqueles versos sobre as horas que passam, sobre a semana que termina, sobre os anos que escorrem pelas mãos, e tive a estranha sensação de que alguém havia entrado silenciosamente na minha memória e começado a abrir gavetas que eu já nem lembrava que existiam.

“Quando se vê, já são seis horas.”
E eu me vi.

O menino da Pituba

Vi primeiro aquele menino da Pituba. Um menino que ainda não sabia que o tempo existia. Corria pelas ruas sem imaginar que um dia sentiria saudade delas. Vivia as tardes como se fossem eternas. O mundo parecia grande demais e, ao mesmo tempo, cabia inteiro dentro de uma infância.

Naquele menino havia uma espécie de confiança ingênua no futuro. Ele não tinha pressa. Não sabia que um dia teria pressa. Não sabia que haveria relógios, compromissos, responsabilidades, perdas, despedidas e essa estranha sensação que chega com a maturidade: a de que os anos começaram a correr mais depressa justamente quando descobrimos o quanto eles valem.

O jovem do Nordeste de Amaralina

Depois encontrei o jovem do Nordeste de Amaralina. Já não era o mesmo menino. O mundo havia ganhado outras cores, outras perguntas, outras inquietações. A juventude chegou trazendo consigo sonhos grandes demais para caberem numa vida pequena. Eu queria compreender o mundo, talvez até transformá-lo. Como tantos jovens de minha geração, acreditava que a história estava diante de nós e que seria possível empurrá-la para algum lugar melhor.

Hoje, olhando para trás, percebo que a juventude é também uma forma de desconhecimento. A gente acredita que tem muito tempo porque ainda não aprendeu que o tempo não se mede apenas pelos anos que temos pela frente, mas também pelas coisas que já não voltarão.

Fui jovem quando o Brasil atravessava tempos sombrios. Vivi as inquietações e os sonhos de uma geração marcada pela ditadura, pela censura, pelo medo e pela esperança. Fui militante. Carreguei comigo as perguntas do meu tempo, as utopias, as indignações e também os temores que muitas vezes não dizíamos em voz alta.

Havia uma juventude que acreditava que a política podia mudar o destino dos homens. Talvez ainda exista em mim alguma coisa daquele jovem que se recusava a aceitar o mundo simplesmente porque ele estava dado.

O tempo passa, mas algumas convicções não envelhecem. Elas apenas aprendem a conversar com a experiência.

O seminário

Depois veio o seminário. E aqui a minha história ganhou outra paisagem. O seminário não foi apenas um lugar de formação religiosa. Foi uma estação profunda da minha existência. Ali aprendi, questionei, duvidei, rezei, estudei, renunciei, descobri e procurei compreender o sentido da vida.

Há lugares que não permanecem apenas no espaço. Permanecem dentro de nós. O seminário é um desses lugares. Talvez porque ali eu tenha aprendido que a vida não é feita apenas daquilo que escolhemos, mas também daquilo a que renunciamos.

Toda escolha carrega uma despedida. Quando escolhemos um caminho, muitos outros ficam para trás. E somente mais tarde compreendemos que a vida é construída tanto pelas portas que abrimos quanto por aquelas que decidimos não atravessar.

As pessoas

Vieram os anos, os encontros, os amores, a família, as responsabilidades, os amigos, as lutas, as alegrias e as perdas. E vieram também as pessoas. Ah, as pessoas! Talvez seja isso que mais pesa quando olhamos para trás. Não são os anos que doem. São os rostos que desapareceram deles.

Há amigos que um dia estiveram tão próximos que parecia impossível imaginar a vida sem eles. Hoje vivem apenas em algum canto da memória. Algumas partiram pela morte. Outras partiram simplesmente porque a vida nos levou por estradas diferentes. E existem aquelas que continuam vivas, mas pertencem a um tempo que não existe mais.

Talvez essa seja uma das formas mais silenciosas da saudade: sentir falta não apenas de alguém, mas daquilo que éramos quando estávamos juntos.

Às vezes tenho saudade de pessoas. Outras vezes tenho saudade de mim mesmo. Tenho saudade daquele menino da Pituba. Tenho saudade do jovem do Nordeste de Amaralina. Tenho saudade de conversas que não terminaram porque ninguém imaginava que seriam as últimas. Tenho saudade de pessoas que eu gostaria de abraçar novamente.

O relógio e as horas que restam

É curioso como a memória trabalha. Ela não guarda a vida inteira. Guarda fragmentos. Uma rua. Uma voz. Um cheiro. Uma fotografia. Uma música. Uma tarde. Uma mesa. Um abraço. E, de repente, décadas inteiras cabem em alguns segundos.

É aí que compreendo Quintana. O relógio não marca apenas horas. Ele marca encontros. Marca aniversários. Marca partidas. Marca chegadas. Marca mortes. Marca reencontros. Marca o instante em que percebemos que determinada pessoa esteve conosco pela última vez sem que soubéssemos que era a última vez.

Passei muito tempo preparando o amanhã. E hoje uma pergunta me acompanha: quantas vezes deixamos de viver o presente porque estávamos ocupados demais tentando preparar o futuro?

Acreditamos que estamos vivendo para depois viver. Trabalhamos para depois descansar. Corremos para depois parar. Guardamos o abraço para depois. Adiamos a conversa para depois. Deixamos o amor para depois. E o depois, às vezes, não chega.

O envelhecimento nos ensina uma matemática diferente. Não contamos apenas os anos que chegam. Começamos também a perceber os anos que restam. E isso muda tudo.

A juventude nos oferece a ilusão da eternidade. A maturidade nos oferece a sabedoria da impermanência.

Fazer as pazes com o tempo

Hoje sei que não posso voltar à Pituba. Não posso voltar ao Nordeste de Amaralina. Não posso voltar aos corredores do seminário. Mas posso conversar com esse homem que fui. E talvez seja isso que estou fazendo agora: sentado diante da minha própria história, dizendo ao menino que fui — eu não esqueci você, você continua aqui.

Somos feitos de camadas: o menino, o jovem, o militante, o seminarista, o homem que amou, o homem que errou, o homem que acertou, o homem que perdeu, o homem que recomeçou. Nossa história não é uma linha reta. É uma casa cheia de quartos. Em alguns entramos com alegria. Em outros, ainda sentimos dificuldade de abrir a porta.

Não posso mudar o passado. Posso, entretanto, mudar a maneira como converso com ele. Já perdi coisas demais para continuar perdendo o presente. Quero olhar para trás e agradecer — à minha família, aos amigos, aos encontros inesperados, aos amores, às pequenas alegrias que, na época, pareciam pequenas demais para merecer nossa atenção e que hoje, quando voltam pela memória, parecem gigantes.

A verdadeira riqueza talvez nunca tenha sido o tempo que conseguimos acumular, mas o tempo que conseguimos transformar em presença.

Uma conversa sem pressa. Um café. Uma caminhada. Uma risada. Uma mão segurando outra. Um olhar demorado. Uma tarde comum. Uma mesa cheia. Um telefonema para alguém que amamos. Um pedido de desculpas. Um “eu te amo” dito enquanto ainda há alguém para ouvi-lo. É disso que a vida é feita.

O passado não volta. O presente, porém, está aqui. Ainda há manhãs. Ainda há tardes. Ainda há noites. Ainda existem pessoas para abraçar, histórias para contar, afetos para declarar e sonhos que talvez tenham mudado de tamanho, mas não desapareceram.

Não sei quanto tempo ainda tenho. Nenhum de nós recebeu o calendário completo. Recebemos apenas o dia de hoje. Talvez seja esse o segredo que demoramos uma vida inteira para compreender.

Por isso, quando penso naquele menino da Pituba, não quero mais dizer a ele que o tempo passou depressa. Quero dizer que valeu a pena. Mesmo as dores. Mesmo as perdas. Mesmo as escolhas difíceis. Valeu a pena porque cada uma dessas coisas ajudou a construir o homem que hoje olha para trás e tenta compreender sua própria caminhada.

Ainda tenho saudades. Ainda tenho perguntas. Ainda existem ausências que doem. Ainda existem sonhos que ficaram pelo caminho. Mas também existe gratidão. E, sobretudo, existe vida.

Hoje eu quero olhar menos para o relógio e mais para as pessoas. Quero prestar atenção na luz entrando pela janela. Quero ouvir as vozes de quem amo. Quero dizer aquilo que tantas vezes deixamos para depois.

Não podemos escolher quantas horas teremos, mas ainda podemos escolher o que faremos com as horas que nos foram dadas.

E então, talvez, quando se vir que o relógio já avançou outra vez, eu não precise correr. Poderei simplesmente respirar. Olhar para o menino que ainda mora em mim. Sorrir para o homem que me tornei. E seguir caminhando.

Porque o tempo continuará passando — isso ninguém pode impedir. Mas há uma coisa que ainda podemos escolher: como atravessar as horas que nos restam.


MEMÓRIA
TEMPO
CRÔNICA
MARIO QUINTANA

Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha