Os bastidores do poder e o pecado político de Geraldo Jr.
Por Padre Carlos
A política, sobretudo a política do PT, nunca foi um mosteiro de monges zen onde todos meditam em silêncio e se curvam respeitosamente uns diante dos outros. Quem imagina isso provavelmente acredita também em Papai Noel, coelhinho da Páscoa e na pureza angelical das alianças partidárias.
Dentro do PT — como em qualquer grande partido — há correntes, disputas, ambições e projetos de poder. E na Bahia, onde o partido governa há quase duas décadas, essas tensões são ainda mais sofisticadas.
Existe, por exemplo, uma disputa silenciosa — mas muito real — entre o PT paulista e o PT baiano pelo protagonismo dentro do governo federal. Afinal, não é pouca coisa ter na Casa Civil um ministro como Rui Costa, ex-governador da Bahia, homem de confiança do presidente e figura central na engrenagem administrativa de Brasília.
Mas as disputas não param por aí.
Há também o PT de Wagner e o PT de Rui. Correntes que nasceram na mesma trincheira, mas que ao longo dos anos foram desenvolvendo estilos, estratégias e campos de influência distintos. O senador Jaques Wagner é o grande arquiteto da hegemonia petista na Bahia, o estrategista paciente que construiu a base política que governa o estado desde 2007.
Já Rui Costa sempre foi visto como o administrador duro, o gestor técnico, o homem das planilhas e das decisões rápidas.
Entre esses dois polos se movimenta hoje o governador Jerônimo Rodrigues, ainda relativamente novo no tabuleiro do poder. Ele chegou ao cargo com a bênção dos dois padrinhos políticos, mas governa sabendo que cada gesto seu é observado como quem observa uma peça no xadrez.
É nesse universo de equilíbrios delicados que entra o vice-governador Geraldo Júnior.
E aí está o problema.
O maior pecado político de Geraldo Jr. talvez não tenha sido a mensagem enviada no WhatsApp. O verdadeiro pecado foi outro: não conhecer a liturgia do poder petista.
Na política, bastidores são mais importantes que discursos. Silêncios dizem mais que entrevistas. E um gesto mal calculado pode ecoar por semanas nos corredores do poder.
Segundo sua própria versão, tudo não passou de um “erro tecnológico”. Um deslize de alguém da “época analógica” que apertou o botão errado e enviou uma mensagem crítica ao ministro Rui Costa para um grupo de WhatsApp.
Pode ser.
Mas na política, erros tecnológicos muitas vezes revelam verdades políticas.
O problema é que Geraldo Jr. parece ter acreditado que estava em um ambiente onde todos são japoneses — discretos, silenciosos e disciplinados. Não percebeu que estava em um território onde cada movimento é observado, registrado e interpretado.
Na Bahia política, WhatsApp não é apenas aplicativo.
É arquivo histórico.
Quando a mensagem vazou, o constrangimento foi inevitável. E veio então o gesto clássico da política brasileira: o pedido público de desculpas.
Humilde, contrito, quase penitente.
Mas na política existe um velho provérbio que não costuma falhar:
Quem ajoelhou, tem que rezar.
Ou, como diz outro ditado ainda mais irônico:
Quem não sabe rezar, xinga a Deus.
Geraldo Jr. tentou explicar o episódio como um acidente digital, desses que acontecem quando se aperta o botão errado. Disse que estava cansado, que havia chegado de viagem às três da manhã, que pretendia mandar a mensagem para o filho e acabou enviando para um grupo.
Tudo muito humano.
O problema é que a política é o território onde os erros humanos ganham consequências institucionais.
Curiosamente, quem primeiro entrou em contato com ele foi o próprio Rui Costa. E quem ligou logo depois foi Jaques Wagner. Dois veteranos da política que conhecem como poucos o valor da estabilidade dentro de uma base aliada.
Isso indica algo importante: ninguém ali tem interesse em transformar o episódio em guerra aberta.
Mas também indica outra coisa: todos anotaram o episódio no caderno da memória política.
Na política baiana, memória é uma moeda poderosa.
Desculpas públicas ajudam a apagar incêndios, mas raramente apagam completamente as marcas da fumaça.
E Geraldo Jr., ao que parece, acaba de aprender uma das primeiras lições do poder:
Na política, o maior erro não é falar demais.
É falar no lugar errado.





