Política e Resenha

Quem protege o traidor?

 

 

 

 

Por Padre Carlos

Há uma verdade incômoda que atravessa a história política brasileira: neste país, o Código Penal muitas vezes dobra os joelhos diante da carteira recheada ou do sobrenome influente. O caso da deputada federal Carla Zambelli, condenada pelo Supremo Tribunal Federal, e os movimentos do deputado Eduardo Bolsonaro no exterior — conspirando nos bastidores contra instituições democráticas do Brasil — nos obrigam a encarar um dilema ético, político e jurídico: vamos continuar permitindo que crimes sejam varridos para debaixo do tapete do privilégio?

É sintomático que, ao invés de cumprir pena com a dignidade que se exige de quem deve contas à Justiça, figuras como Zambelli tratem a condenação como uma plataforma política. Enquanto o povo brasileiro paga com suor, desemprego e fome pela instabilidade causada por projetos autoritários e desinformação em massa, esses parlamentares tentam redesenhar suas penas como martírios pessoais, estendendo o tapete vermelho da vitimização internacional.

A nova estratégia de Zambelli, que agora pretende fazer lobby junto à extrema direita europeia e denunciar um “quadro de perseguição política”, é mais do que um devaneio conspiratório — é um escárnio contra o Estado Democrático de Direito. É a tentativa de transformar crimes reais, como porte ilegal de arma e ataques à ordem constitucional, em gestos heroicos de resistência. Um delírio que só encontra eco porque ainda temos uma elite política blindada por cargos, conexões e, sobretudo, por uma Justiça que reluta em aplicar penas com o mesmo rigor que adota para o cidadão comum.

Eduardo Bolsonaro não fica atrás. Em uma postura de franco desrespeito à soberania nacional, o deputado federal se empenha nos Estados Unidos para influenciar governos estrangeiros a impor sanções contra o Brasil. Que nome se dá a isso, senão traição? Quando um parlamentar eleito começa a atuar contra seu próprio país, motivado por vingança ideológica e medo das consequências legais, o que está em jogo não é apenas a sua biografia, mas a integridade da própria República.

É revoltante que, diante de crimes gravíssimos — que vão desde incitação ao golpe até obstrução da Justiça —, esses indivíduos ainda ocupem cargos eletivos, deem entrevistas ao vivo no YouTube, ou vivam confortavelmente em coberturas de frente para o mar, enquanto alegam serem vítimas de “ditadura”. Uma verdadeira inversão moral.

A democracia, se quiser sobreviver, precisa se rearmar com coragem e coerência. Não se trata de vingança, mas de justiça. Não se trata de calar opositores, mas de responsabilizar criminosos, independentemente do partido ou do poder aquisitivo. Quando se deixa de punir aqueles que tentaram destruir o Estado de Direito por dentro, abre-se o precedente mais perigoso de todos: o de que a lei não vale para todos.

A história recente do Brasil já mostrou que o autoritarismo não chega batendo à porta com tanques — ele chega pelas urnas, pela desinformação e pela tolerância à impunidade. Não se combate isso com discursos mornos ou com “prisões simbólicas”. Cadeia não é metáfora. Não é exílio voluntário em Miami. Não é live semanal. É privação de liberdade, sim. É prestação de contas à sociedade. É reparação do pacto civilizatório.

Se queremos um país onde a lei seja de fato igual para todos, precisamos parar de tratar corruptos, golpistas e conspiradores como celebridades políticas. Precisamos parar de confundir foro privilegiado com salvo-conduto. Precisamos, com urgência, de uma Justiça que desça do pedestal e entre de fato nas coberturas de frente para o mar. Porque enquanto houver uma cela para o pobre e uma varanda gourmet para o criminoso rico, seremos apenas uma democracia de fachada.

Justiça seletiva é justiça nenhuma. E a impunidade dos poderosos é o começo do fim para todos nós.