Política e Resenha

Quem quer governar o Brasil precisa defender a democracia

 

O Brasil precisa de uma direita que diga não ao golpismo

Padre Carlos

Há uma frase de Miriam Leitão que ficou ecoando em minha cabeça porque toca em uma ferida que venho percebendo há algum tempo na política brasileira: o mais grave nesta campanha talvez não seja apenas a disputa entre candidatos, partidos e ideologias, mas a quantidade de políticos que parecem dispostos a negar aquilo que aconteceu diante dos nossos olhos. Não estamos falando de uma simples divergência de interpretação sobre um episódio qualquer da história. Estamos falando da tentativa de ruptura da ordem democrática brasileira e do perigo de transformar o golpismo em uma questão eleitoralmente conveniente.

É preciso ter coragem para dizer aquilo que deveria ser óbvio: houve uma tentativa de golpe de Estado no Brasil e ela não pode ser tratada como uma invenção da esquerda, uma narrativa do PT ou uma fantasia de jornalistas. As investigações, documentos, depoimentos e processos judiciais construíram um conjunto de fatos que precisa ser enfrentado com seriedade. Isso não significa abandonar o devido processo legal, antecipar condenações ou transformar acusados em culpados antes da decisão definitiva da Justiça. Significa apenas reconhecer que existe uma realidade que não desaparece porque um candidato prefere não falar sobre ela.

E é justamente aí que começa minha preocupação.

Quando um candidato é perguntado sobre golpe e responde falando de anistia, quando outro prefere mudar de assunto, quando outro diz que não houve tentativa de ruptura institucional, estamos diante de algo que merece ser analisado para além da estratégia eleitoral. Afinal, o que estamos ensinando ao eleitor brasileiro? Que uma tentativa de golpe pode ser relativizada dependendo de quem a praticou? Que a democracia só merece ser defendida quando nosso grupo político está vencendo? Que perder uma eleição pode justificar a procura de caminhos extraordinários para permanecer no poder?

Não deveria ser assim.

E faço aqui uma distinção que considero fundamental para a própria democracia brasileira: ser de direita não significa ser golpista.

É perfeitamente legítimo alguém ser conservador, liberal, antipetista, defensor do mercado, crítico do Supremo Tribunal Federal, defensor de uma política de segurança mais dura ou adversário ferrenho do governo Lula. Tudo isso faz parte da pluralidade democrática. O que não pode ser confundido com isso é a aceitação da ruptura institucional.

O Brasil precisa urgentemente de uma direita democrática.

Uma direita capaz de olhar para seus próprios excessos e dizer: “Até aqui, não”.

Uma direita que possa afirmar sem constrangimento: “Sou de direita, sou conservador, sou oposição ao governo, mas não aceito golpe.”

Essa frase não diminuiria ninguém.

Ao contrário.

Daria grandeza.

Daria identidade.

Daria maturidade política.

E talvez seja justamente isso que esteja faltando.

Porque uma democracia precisa de oposição. Precisa de uma direita forte. Precisa de conservadores. Precisa de liberais. Precisa de socialistas. Precisa de progressistas. Precisa de gente que pense diferente e tenha liberdade para defender suas ideias.

Mas nenhum projeto político pode estar acima da Constituição.

Nenhum líder pode estar acima das instituições.

Nenhuma eleição pode ser considerada legítima apenas quando produz o resultado que desejamos.

Esse talvez seja o teste definitivo de qualquer democrata: o que você faz quando perde?

Ganhar é fácil.

Difícil é perder e continuar acreditando nas regras que permitiram ao adversário vencer.

O problema do golpismo brasileiro, entretanto, não começou em 2022.

E aqui precisamos olhar para a nossa própria história.

A República brasileira nasceu de uma ruptura. Ao longo de sua trajetória, o país passou por crises institucionais profundas, pela Revolução de 1930, pelo Estado Novo, por períodos de instabilidade política e, finalmente, pelo golpe de 1964, que abriu caminho para uma longa ditadura militar.

Nós temos, portanto, uma história que deveria nos ensinar alguma coisa.

O Brasil possui uma espécie de golpismo estrutural, uma cultura política que, em determinados momentos de crise, procura uma solução fora das urnas, fora da Constituição e fora da normalidade institucional.

E isso é muito perigoso.

Porque o golpismo não começa necessariamente com tanques nas ruas.

Às vezes começa com uma frase.

“Se meu candidato perder, a eleição foi fraudada.”

Depois vem outra:

“As instituições não representam o povo.”

Depois outra:

“É preciso fazer alguma coisa.”

E, quando percebemos, aquilo que ontem parecia absurdo começa a ser apresentado como alternativa política.

É assim que a democracia vai sendo corroída.

Não apenas pela força.

Também pela normalização.

É por isso que considero tão preocupante quando candidatos tentam tratar a tentativa de ruptura democrática como assunto secundário ou inconveniente.

Não estou dizendo que todos aqueles que defendem anistia sejam golpistas.

Seria intelectualmente desonesto fazer essa associação.

Anistia é um tema jurídico e político que pode ser debatido dentro da democracia. Parlamentares podem defendê-la. Candidatos podem defendê-la. Juristas podem discutir seus limites e sua constitucionalidade.

O que não podemos aceitar é que a anistia seja utilizada para produzir uma espécie de amnésia nacional.

Uma coisa é perdoar.

Outra é apagar.

Uma coisa é discutir a punição.

Outra é negar que houve um problema.

Uma coisa é defender a revisão de uma pena.

Outra é dizer que tudo aquilo que aconteceu simplesmente nunca aconteceu.

Precisamos ter memória.

Não para alimentar vinganças políticas, mas para impedir que a história se repita.

E é aqui que a classe política precisa ser chamada à responsabilidade.

Eu gostaria de ouvir candidatos de direita falando claramente sobre democracia.

Gostaria de ouvir alguém dizer:

“Eu quero derrotar o PT nas urnas, não fora delas.”

Gostaria de ouvir:

“Quero derrotar Lula eleitoralmente, não através de uma ruptura institucional.”

Gostaria de ouvir:

“Posso criticar o STF, mas não aceito destruir o Supremo.”

Gostaria de ouvir:

“Posso defender Bolsonaro, mas não defendo golpe.”

Isso seria uma demonstração extraordinária de maturidade.

Porque a direita brasileira não precisa carregar o golpismo nas costas para continuar sendo direita.

Aliás, talvez precise justamente se libertar dele.

O mesmo vale para a esquerda.

Não existe democracia verdadeira quando apenas um lado precisa respeitar as regras.

A esquerda também precisa aceitar que democracia significa alternância de poder, respeito ao adversário, liberdade de imprensa, independência institucional e direito de a oposição existir.

A defesa da democracia não pode ser seletiva.

Não pode valer somente quando o nosso lado ganha.

E talvez esse seja o maior desafio da eleição que se aproxima.

Não deveríamos estar apenas escolhendo quem governará o Brasil.

Deveríamos estar escolhendo também qual cultura política queremos consolidar para as próximas décadas.

Queremos um país em que a derrota eleitoral seja aceita como parte natural da democracia?

Ou queremos um país em que cada eleição perdida seja interpretada como uma autorização para contestar as instituições?

Queremos uma direita democrática?

Queremos uma esquerda democrática?

Queremos adversários políticos ou inimigos a serem destruídos?

Essas perguntas são muito maiores do que Bolsonaro.

São maiores do que Lula.

São maiores do que PT e PL.

São maiores do que esquerda e direita.

Estamos falando do Brasil.

Um país que já pagou caro demais pelas rupturas institucionais.

Um país que já conheceu censura, perseguição política, cassações, tortura, exílio e supressão das liberdades.

Um país que conquistou, depois de muita luta, uma Constituição que colocou a democracia no centro da vida nacional.

Por isso, não podemos banalizar o golpismo.

Não podemos transformá-lo em instrumento eleitoral.

Não podemos permitir que a defesa da democracia se transforme em uma questão de conveniência.

A classe política precisa compreender que existe uma diferença entre ser radical nas ideias e ser radical contra a democracia.

Podemos ser radicais na defesa de nossas convicções.

Podemos querer mudar profundamente o Brasil.

Podemos querer mudar a economia, a política, as instituições e até a Constituição, desde que façamos isso respeitando os mecanismos previstos pela própria democracia.

O voto deve decidir quem governa.

O Congresso deve legislar.

A Justiça deve julgar dentro de suas competências.

A imprensa deve fiscalizar.

E as Forças Armadas devem cumprir seu papel constitucional.

Essa divisão não é uma fraqueza.

É a própria essência do Estado Democrático de Direito.

Miriam Leitão tocou, portanto, em uma questão que merece ser levada muito a sério: o perigo não está somente naqueles que desejam um golpe. Está também na sociedade que começa a achar normal alguém desejar um golpe.

Quando o absurdo deixa de escandalizar, ele começa a se tornar possível.

É por isso que eu gostaria de ver surgir nesta eleição uma nova voz dentro da direita brasileira.

Uma voz que diga com coragem:

“Sou de direita. Quero vencer. Quero governar. Quero mudar o Brasil. Mas, se eu perder, vou para casa e volto para disputar a próxima eleição.”

Isso não seria derrota.

Isso seria democracia.

E talvez seja justamente essa a pergunta que a classe política brasileira precise responder antes de pedir novamente o voto do povo:

Quando as urnas disserem não ao seu candidato, você continuará defendendo a democracia?

A resposta a essa pergunta talvez diga muito mais sobre um candidato do que seu programa de governo, seus discursos ou suas promessas eleitorais.

Porque defender a democracia quando vencemos é fácil.

Defendê-la quando perdemos é que revela quem somos.