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Raul Ferraz e a Conquista que aprendeu a se lembrar

Opinião · Memória · Vitória da Conquista

Em homenagem ao prefeito que, em 1978, deu à cidade uma bandeira, um arquivo e o hábito de celebrar a si mesma.

Uma cidade que não guarda os próprios papéis, que não tem um símbolo sob o qual se reconhecer e que não reserva uma data para olhar para si mesma corre o risco de viver apenas do presente. Cresce, mas esquece. Constrói, mas não sabe de onde veio. Foi contra esse esquecimento que se moveu, em boa medida, a gestão de Raul Carlos de Andrade Ferraz à frente de Vitória da Conquista. Às vésperas de mais um 9 de novembro, o Política e Resenha conversou com a professora Maria Célia, sua esposa, e quis prestar esta homenagem ao homem que entendeu que modernizar a cidade também era dar-lhe memória.

Um prefeito em tempo difícil

Raul Ferraz tomou posse em 1º de fevereiro de 1977, em plena ditadura militar, sob o bipartidarismo Arena–MDB e com as limitações políticas daquele regime. A cafeicultura atraía trabalhadores e migrantes, a cidade se espalhava em loteamentos e a pressão por infraestrutura, moradia e serviços crescia mais depressa que a capacidade de resposta do poder público. Em meio a esse cenário, a memória popular associa a sua gestão à modernização urbana, com a EMURC, o Ginásio de Esportes, o Viaduto do Guarani e o Cristo da Serra. Em maio de 1982, ele deixou a Prefeitura para disputar uma vaga de deputado federal, e o vice Gildásio Cairo assumiu o comando do município.

Obras são sempre lembradas, porque se veem. O que este artigo quer destacar é o que não se vê de imediato e que, justamente por isso, costuma faltar aos governantes: o cuidado com os símbolos e com a memória.

A bandeira: uma cidade que se desenha

Em 1978, durante o governo de Raul, a Prefeitura constituiu a bandeira de Vitória da Conquista. O registro oficial a relaciona ao Projeto de Lei Municipal nº 182, de 27 de outubro daquele ano, e atribui o modelo ao heraldista Fernão Dias Sá. Há ainda o relato, guardado pela memória da família Cassimiro, de que a ideia teria partido do então secretário de Educação, Vicente Cassimiro. Longe de diminuir o prefeito, isso o engrandece: governar também é reunir talentos, dar-lhes ouvidos e transformar uma ideia em instituição.

O que diz a bandeira

Nas faixas da bandeira conquistense, a oficialidade enxerga três letras: o C de Conquista, o E de Educação e o T de Trabalho. O verde remete ao café, riqueza que moldou a cidade daquele tempo.

Eis um símbolo que fala de vocação: educar e trabalhar, conquistar e prosperar. Segundo a professora Maria Célia, era uma das realizações de que Raul mais se orgulhava, e é fácil entender por quê. Uma obra de concreto envelhece e pede reforma. Uma bandeira, quando é bem escolhida, passa a pertencer a todos e atravessa gerações.

O Arquivo Municipal: a cidade que guarda o que viveu

No mesmo ano de 1978, a Prefeitura atribui à gestão de Raul a criação do Arquivo Público Municipal. Um estudo acadêmico situa a fundação em agosto daquele ano e o funcionamento efetivo a partir de 1980. Parece pouco, mas é decisivo: nenhuma história séria se escreve sem papéis, e nenhum papel sobrevive sem quem o guarde.

Quatro décadas depois, os números dão a medida da semente plantada. O fundo documental da Prefeitura reúne mais de três mil metros lineares de documentos, alguns datados de 1894, e o da Câmara de Vereadores guarda registros de 1850 a 2004. Pesquisadores já recorreram a atas da Câmara e a jornais antigos preservados ali para estudar a educação, a política e a vida administrativa da região. Cada tese, cada artigo e cada livro sobre a Conquista que se lê hoje deve algo a essa decisão de guardar.

Três pilares da memória

O símbolo, para que a cidade se reconheça.

O documento, para que a cidade se prove.

A data, para que a cidade se celebre.

O Dia da Cidade e a Semana da Cidade

O 9 de novembro lembra 1891, quando a Câmara foi instalada e a vila passou à categoria de cidade. É uma data que pertence a todos os conquistenses, e hoje é feriado municipal. A professora Maria Célia recorda que foi na gestão de Raul Ferraz que as comemorações do Dia da Cidade começaram e que a Semana da Cidade foi instituída, com a ideia de que o aniversário fosse mais que um feriado: uma semana de palestras, teatro, música e atividades cívicas, em que a população se encontrasse com a própria história.

Os registros mostram que a Semana já era tradição em 1983, anunciada pela Prefeitura como realizada “mais uma vez”, e que sobreviveu aos governos seguintes, chegando às programações de lançamentos de livros e exposições de anos recentes. O ato que a instituiu ainda espera por quem o localize nos livros de leis e nos jornais da época, e essa é uma tarefa digna dos historiadores da cidade. Felizmente, há um arquivo, o mesmo que Raul criou, onde esses papéis podem ser procurados.

Gratidão em forma de nome

Em 13 de abril de 2026, a Lei nº 3.135 deu ao ginásio municipal o nome de Ginásio Poliesportivo Municipal Raul Carlos Andrade Ferraz. É uma homenagem justa, mas creio que a melhor seria outra: que a cidade nunca deixasse de conhecer a própria bandeira, de frequentar o próprio arquivo e de celebrar a própria semana.

Raul Ferraz governou em tempo duro e entregou obras que ainda se veem pelas ruas. Mas sua marca mais duradoura talvez seja a que não se mede em metros de asfalto: ele ajudou a ensinar a Vitória da Conquista que uma cidade só é inteira quando sabe quem foi. Neste 9 de novembro, ao ver a bandeira erguida e ao abrir um velho livro de atas, vale lembrar quem começou esse trabalho.

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Padre Carlos  — Teólogo, Filósofo e colunista político — Política e Resenha