Política e Resenha

Reler O Partido com Paredes de Vidro: Transparência ou Ilusão Óptica?

 

Há livros que explicam uma organização. Outros tentam justificá-la. E há ainda aqueles que procuram salvá-la da história.
Quando Álvaro Cunhal publicou O Partido com Paredes de Vidro, no verão de 1985, não escrevia apenas um ensaio sobre o funcionamento interno do Partido Comunista Português. Escrevia um gesto político. Um gesto de afirmação identitária num momento em que o mundo começava a tremer sob os pés do socialismo real.

A promessa era grandiosa: tornar o Partido transparente “como se as suas paredes fossem de vidro”. Tudo seria dito. Tudo seria explicado. Tudo seria iluminado pela razão. A metáfora da luz, herdada de Platão e consolidada no imaginário moderno — essa fé iluminista na racionalidade que dissipa as trevas — encontrava aqui a sua versão marxista-leninista. Como no refrão da Internacional, o sol haveria de brilhar para todos.

Mas o que significa, politicamente, uma organização totalmente transparente? E mais: é possível sê-lo?

1985: o ano da estabilização e da inquietação

O livro surge num ano decisivo. Portugal consolidava o seu regime liberal-parlamentar, preparando-se para o longo consulado de Aníbal Cavaco Silva. O país integrava-se na Comunidade Europeia. O horizonte deixava de ser revolucionário para se tornar estabilizador.

Internamente, o PCP conhecia um paradoxo: uma estrutura gigantesca — mais de 200 mil inscritos após o 25 de Abril — mas eleitoralmente incapaz de crescer. Pelo contrário, começava a definhar. A publicação do ensaio antecede uma quebra significativa de votos que não mais seria revertida.

Externamente, no mesmo 1985, Mikhail Gorbachev lançava a Perestroika e a Glasnost. A palavra “transparência” ganhava outro peso histórico. Já não era apenas metáfora de esclarecimento; tornava-se política de sobrevivência. E acabaria por ser o prólogo do colapso.

Reler O Partido com Paredes de Vidro à luz desse desfecho histórico é inevitável. Em 2002, num prefácio tardio, Cunhal reconheceria que o capitalismo não entrara na “agonia” prevista. O avanço revolucionário não fora irreversível. Mas reafirmaria, com notável inflexibilidade, o centralismo democrático como eixo identitário inegociável.

É aqui que o ensaio se torna mais interessante — e mais problemático.

Democracia sem voto?

Cunhal descreve um processo democrático interno intenso, participativo, envolvente. Mas relativiza o momento do voto. Se houver verdadeiro trabalho coletivo, diz ele, a votação torna-se desnecessária. A pluralidade seria ponto de partida, não de chegada. A discussão, bem conduzida, culminaria naturalmente na unanimidade.

Soa harmonioso. Mas é inquietante.

A democracia moderna não é apenas método de alcançar consenso; é também mecanismo de administrar o dissenso. O voto não é falha do processo — é reconhecimento de que a divergência é estrutural, não transitória. Ao desvalorizar o voto, substituindo-o pela expectativa de convergência racional, o modelo aproxima-se de uma visão ontologicamente pacificada da política.

Ora, a realidade social é conflituosa por natureza. Não porque falte tempo para discutir. Mas porque a pluralidade não é imperfeição a superar — é condição permanente.

Transparência e poder

A metáfora da luz é sedutora. Mas como alertou Michel Foucault em Vigiar e Punir, a visibilidade pode ser também armadilha. O panóptico é precisamente a máquina que organiza o poder pela exposição.

Quando Cunhal afirma a necessidade de conhecer os quadros “em todas as facetas do seu carácter”, mesmo impondo limites à intrusão na vida privada, abre-se uma tensão delicada: quem decide o que deve ser visível? Quem controla a fronteira entre transparência e vigilância?

A resposta de Cunhal é orgânica: o Partido não é máquina que domina os seus membros; são os membros que determinam o funcionamento da máquina. Cada peça é um ser humano com inteligência e vontade.

Mas a metáfora maquínica permanece. E com ela, a dúvida: pode um dispositivo organizacional escapar totalmente à lógica do poder que ele próprio estrutura?

Identidade como sobrevivência

Talvez o maior mérito — e simultaneamente a maior limitação — de O Partido com Paredes de Vidro esteja na sua função histórica: preservar identidade num mundo em transformação acelerada.

Quando a URSS colapsou, muitos partidos comunistas europeus dissolveram-se ou reinventaram-se radicalmente. O PCP optou por resistir. Preservar o leninismo como núcleo organizador foi, para Cunhal, o único caminho possível para evitar a diluição.

Mas preservar identidade não equivale necessariamente a preservar vitalidade.

Hoje, décadas depois, o PCP mantém uma estabilidade eleitoral modesta. As paredes talvez continuem de vidro. Mas o mundo ao redor mudou de tal modo que já não é a transparência que define o debate político — é a capacidade de dialogar com novas linguagens, novas causas, novas subjetividades.

Entre a luz e a sombra

Reler O Partido com Paredes de Vidro não é exercício de arqueologia ideológica. É reflexão sobre um dilema que permanece atual: como combinar unidade e pluralidade? Como conjugar disciplina organizativa com liberdade crítica? Como evitar que a transparência se transforme em mecanismo de controle?

A metáfora da luz continua poderosa. Mas talvez a maturidade democrática exija aceitar que nem toda sombra é treva, nem toda divergência é erro a corrigir.

A verdadeira transparência política não está na promessa de unanimidade futura, mas na coragem de reconhecer o dissenso como parte constitutiva da vida coletiva.

E talvez seja essa a releitura mais fecunda do ensaio de Cunhal: não a de um partido sem opacidade, mas a de uma organização capaz de conviver com a luz e com as sombras — sem medo de nenhuma delas.