(Padre Carlos)
A história recente do Supremo Tribunal Federal (STF) não pode ser contada sem a presença controversa e, ao mesmo tempo, decisiva de Gilmar Mendes. Jurista habilidoso, combativo e dono de uma retórica que sempre provoca reações fortes, ele foi, num primeiro momento, o carrasco dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, para, mais tarde, tornar-se o grande adversário da chamada “República de Curitiba”, enfrentando o poder midiático da Lava Jato e seus operadores, especialmente Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.
Gilmar Mendes atravessou duas fases marcantes: a do crítico implacável dos governos petistas e a do guardião da Constituição contra os abusos da Lava Jato. Essa trajetória o coloca como uma das figuras mais polêmicas e influentes da história do STF. Se foi carrasco, também se tornou salvador. No fim, o que resta é a percepção de que a democracia brasileira resistiu, em parte, porque um ministro ousou enfrentar a força da mídia, o populismo judicial e a república paralela de Curitiba.
Linha do Tempo Histórica
2003-2010 – Governo Lula e os embates iniciais
No primeiro mandato de Lula, Gilmar Mendes já se destacava como uma voz dura contra decisões do Executivo. Foi crítico do aparelhamento político e da condução do mensalão, reforçando a imagem de “inimigo” do PT. Na mídia, seus votos e declarações eram apresentados como obstáculos aos governos petistas.
2010-2016 – Governo Dilma e a radicalização
Durante a presidência de Dilma Rousseff, Mendes intensificou as críticas. Foi voz ativa contra as “pedaladas fiscais” e chegou a declarar que o governo “brincava com a Constituição”. Sua postura contribuiu para o cerco jurídico e político que culminaria no impeachment de 2016, ainda que sua decisão não tenha sido isolada. Nesse período, era visto como carrasco do lulismo e aliado das forças que buscavam enfraquecer o PT.
Não podemos esquecer que a decisão de Gilmar Mendes de barrar a nomeação de Lula para a Casa Civil no governo Dilma foi uma gravíssima interferência nas atribuições privativas da Presidência da República e deixou acéfalo um ministério decisivo naquele momento, impedindo Lula de articular no Congresso para tentar barrar o impeachment.
Na primeira fase de sua trajetória, Mendes consolidou-se como uma voz incansável contra os governos do Partido dos Trabalhadores. Nomeado para o STF em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, destacou-se por sua postura combativa em relação às práticas de Lula e Dilma. Para muitos, tornou-se o símbolo da resistência judicial contra o que se via como populismo e concentração de poder.
Essa postura o colocou no centro de controvérsias. Para os petistas, era um juiz com inclinações políticas claras, alinhado aos interesses da oposição. Para seus defensores, era um guardião da legalidade em tempos de polarização.
O Guardião da Constituição
2014-2017 – O auge da Lava Jato e o império de Moro
Com a ascensão da Operação Lava Jato, Sérgio Moro e a força-tarefa de Curitiba se tornaram heróis midiáticos. A Rede Globo e outros veículos transformaram cada vazamento em espetáculo nacional. Nesse cenário, Gilmar Mendes começou a mudar de postura. Embora crítico da corrupção, passou a enxergar abusos nas prisões preventivas eternizadas e nas delações premiadas forçadas.
2017-2019 – O embate aberto contra a República de Curitiba
Foi nesse momento que deixou de ser visto apenas como opositor do PT e passou a se apresentar como defensor da Constituição. Suas críticas a Moro se tornaram duríssimas: denunciou o uso político da Lava Jato, os abusos processuais e o atropelo do devido processo legal. No STF, começou a formar maioria com outros ministros para limitar o poder dos procuradores de Curitiba.
2019-2021 – A virada histórica e a queda de Moro
As revelações da Vaza Jato, publicadas pelo The Intercept Brasil, confirmaram muito do que Gilmar já denunciava. Conversas vazadas mostraram a parcialidade de Moro e a atuação política de Deltan. Nesse período, Mendes consolidou sua imagem como “salvador da ordem jurídica”, defendendo que ninguém, nem juízes, está acima da Constituição.
Sua atuação contra o populismo judicial lhe custou impopularidade. Muitos o acusaram de proteger corruptos. Mas, ao limitar abusos e reforçar garantias fundamentais, Mendes exerceu o papel de defensor do Estado de Direito em tempos de histeria midiática e jurídica.
2021 em diante – O retorno de Lula e a reconstrução da narrativa
Com a anulação das condenações de Lula e a recuperação de seus direitos políticos, a história parecia dar razão a Gilmar Mendes. O ministro, que outrora foi visto como carrasco, passou a ser lembrado como aquele que enfrentou o populismo jurídico da Lava Jato, mesmo quando a opinião pública ainda aplaudia Moro.
Conclusão
A dualidade de Gilmar Mendes — carrasco de uns, salvador de outros — reflete a complexidade de um país em constante tensão política. Sua trajetória no STF é um espelho das contradições da democracia brasileira: um sistema que resiste, mas que é testado incessantemente por crises, polarizações e tentações autoritárias.
Mendes, com sua retórica afiada e disposição para enfrentar tanto o poder político quanto a opinião pública, personifica o papel do Judiciário como contrapeso em tempos turbulentos.
No fim, o que resta é a percepção de que a democracia brasileira, apesar de suas fragilidades, sobreviveu a esses embates porque um ministro ousou desafiar forças que ameaçavam desestabilizá-la. Gilmar Mendes, com todas as suas controvérsias, enfrentou a pressão da mídia, o populismo judicial e a narrativa de uma cruzada moral que, muitas vezes, sacrificava o Estado de Direito em nome de uma justiça imediatista.
Sua atuação reforça a ideia de que a democracia não se sustenta apenas por heróis ou vilões, mas por instituições e indivíduos dispostos a defender seus princípios, mesmo sob o peso da impopularidade.





