
Por Padre Carlos | 28 de agosto
H
oje, 28 de agosto, a Igreja celebra Santo Agostinho, um dos homens mais fascinantes da história do cristianismo. E talvez seja impossível falar de Agostinho sem falar também de nós mesmos. Porque, quando lemos suas palavras, não encontramos apenas o bispo de Hipona, o filósofo, o teólogo, o Padre da Igreja. Encontramos um homem que procurou desesperadamente compreender a própria existência.
É justamente isso que me fascina em Santo Agostinho.
Um homem que não escondeu suas contradições
Ele não escondeu suas contradições. Não tentou construir diante de Deus a imagem de um homem perfeito. Ao contrário. Nas Confissões, abriu a própria alma como quem abre uma janela diante da luz. Falou de suas inquietações, de seus desejos, de seus erros, de sua procura pela verdade e, sobretudo, de sua longa caminhada até descobrir que aquilo que procurava fora de si talvez estivesse mais perto do que imaginava.
Agostinho foi um homem que procurou o sentido da vida antes de encontrar o Deus que daria sentido à sua vida.
Sua história é também uma história de inquietação. Jovem brilhante, apaixonado pelo conhecimento, pela retórica e pela filosofia, percorreu caminhos intelectuais e espirituais diferentes. Experimentou o mundo, seus prazeres, suas ambições e suas certezas. Mas alguma coisa dentro dele continuava insatisfeita.
“Inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti.”
Talvez essa seja uma das frases que melhor definem a condição humana.
Uma inquietação bem atual
Nós também somos inquietos. Corremos atrás de coisas, pessoas, reconhecimento, dinheiro, sucesso, respostas. Pensamos que, quando conquistarmos determinada coisa, finalmente encontraremos paz. Mas, muitas vezes, quando chegamos lá, percebemos que a inquietação continua.
Agostinho conheceu essa experiência na própria carne. Por isso sua conversão não é apenas uma história religiosa. É uma história profundamente humana. Ele não se converteu porque deixou de fazer perguntas. Converteu-se porque encontrou, no cristianismo, uma resposta que não anulava sua inteligência, mas dava direção à sua inteligência; não destruía sua liberdade, mas a conduzia para aquilo que compreendia como verdadeiro bem.
E talvez seja por isso que Santo Agostinho continue tão atual. Vivemos numa época de enorme avanço tecnológico e, ao mesmo tempo, de profundas angústias existenciais. Temos inteligência artificial, redes sociais, comunicação instantânea e uma quantidade praticamente infinita de informação. Podemos falar com alguém do outro lado do mundo em poucos segundos. Mas ainda temos dificuldade para conversar conosco mesmos.
Agostinho nos convida a voltar para dentro. Não para fugir do mundo, mas para compreender quem somos diante do mundo, dos outros e de Deus.
“Ama e faze o que quiseres”
À primeira vista, alguém poderia compreender essa frase de maneira absolutamente equivocada. Poderia imaginar que Agostinho está dizendo: ame e faça qualquer coisa que desejar. Não é isso. Muito pelo contrário.
O pensamento de Agostinho parte de uma compreensão radical do amor. Se o coração estiver verdadeiramente tomado pelo amor, aquilo que fazemos necessariamente será transformado pelo amor.
Quem ama verdadeiramente:
• Não transforma o outro em objeto
• Não humilha
• Não destrói a dignidade do outro
• Não utiliza uma pessoa enquanto ela lhe serve, para depois abandoná-la como se fosse descartável
• Não encontra prazer no sofrimento alheio
Por isso, antes do “faz o que quiseres”, existe uma exigência extraordinária: ama. Primeiro ama. E aqui está a grandeza ética da frase.
O amor, para Agostinho, não é simplesmente emoção. É direção da existência. É uma escolha do coração. É aquilo que organiza os nossos desejos e determina aquilo que fazemos com a nossa liberdade. Quando o amor é verdadeiro, ele educa a liberdade.
Vivemos em uma época em que muitas relações se tornaram descartáveis. Pessoas são avaliadas pela utilidade que possuem. Relacionamentos terminam quando deixam de satisfazer expectativas. Amizades são abandonadas quando deixam de produzir vantagens. E até a fé, algumas vezes, é transformada em instrumento para conseguir aquilo que desejamos.
Agostinho nos lembra que amar é muito mais exigente. Amar é reconhecer. Amar é respeitar. Amar é perdoar. Amar é compreender. Amar é também dizer não quando o outro está destruindo a própria vida. Amar não significa concordar com tudo. Significa desejar verdadeiramente o bem.
O tempo segundo Agostinho
Pensamos o tempo como passado, presente e futuro. Mas Agostinho percebe que o passado já não existe e o futuro ainda não existe. O que realmente temos é o presente. O passado existe em nós como memória. O futuro existe em nós como expectativa. E a nossa vida acontece naquele pequeno e misterioso espaço chamado agora.
Que extraordinária lição para um mundo dominado pela ansiedade. Quantas vezes deixamos de viver o presente porque estamos presos ao passado? “Eu deveria ter feito isso.” “Eu não deveria ter dito aquilo.” “Por que aquela pessoa fez isso comigo?” “Se eu tivesse escolhido outro caminho…” E assim o passado continua acontecendo dentro de nós, mesmo depois de ter terminado.
Agostinho nos ensina que a memória é parte da nossa existência, mas não precisa ser uma prisão. É no presente que podemos olhar para o passado e agradecer pelo que foi bom. É no presente que podemos reconhecer nossos erros, pedir perdão, perdoar — e parar de carregar culpas que já cumpriram sua função.
E quantas pessoas sofrem hoje por acontecimentos que talvez nunca aconteçam? A ansiedade muitas vezes é exatamente isso: sofrer antecipadamente por aquilo que ainda não aconteceu. Agostinho nos devolve ao presente. Não significa ignorar o futuro. Significa não permitir que aquilo que ainda não chegou roube aquilo que temos agora.
Planejar é necessário. Sonhar é necessário. Esperar é necessário. Mas viver é sempre um verbo conjugado no presente.
Viva o presente
É agora que amamos. É agora que abraçamos. É agora que pedimos perdão. É agora que agradecemos. É agora que podemos recomeçar.
Não espere a vida ficar perfeita para começar a viver.
Não espere todas as feridas desaparecerem para voltar a amar.
Não espere compreender todos os mistérios para voltar a ter esperança.
Não espere que o passado seja diferente. Ele não será. O que pode mudar é a maneira como você olha para ele.
E não espere controlar completamente o futuro. Ele ainda não chegou.
Confie. Entregue. Caminhe. Viva o presente. E, sobretudo, ame.
Porque talvez, no fim de todas as nossas buscas, seja justamente isso que Santo Agostinho queira nos dizer: que a existência humana não encontra sua plenitude quando possui todas as respostas, mas quando encontra um amor suficientemente grande para transformar as perguntas.
Ama quando for difícil.
Ama quando não fores compreendido.
Ama sem transformar o amor em posse.
Ama sem humilhar. Ama sem usar. Ama sem destruir.
Ama sabendo que o outro também carrega suas próprias feridas, seus próprios medos e suas próprias esperanças — porque o amor verdadeiro não diminui ninguém. Ao contrário: faz crescer.
É por isso que Santo Agostinho continue tão vivo. Porque ele não escreveu apenas para os homens do século IV. Escreveu para todos aqueles que, em algum momento da vida, olharam para dentro de si e perguntaram: Quem sou eu? Para onde estou indo? O que estou fazendo da minha existência? Onde está a verdadeira felicidade?
Talvez a resposta continue ecoando, silenciosamente, desde Hipona até os nossos dias: volte para dentro. Reconheça suas inquietações. Reconcilie-se com sua história. Não tenha medo de suas perguntas. Confie em Deus. Viva o presente. E ame.
Porque, no fim, talvez a vida seja exatamente isso: aprender, pouco a pouco, a transformar o amor em maneira de existir.
Santo Agostinho, rogai por nós.
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Padre Carlos — Teólogo, filósofo e colunista político — Política e Resenha




