
(Padre Carlos)
A política baiana, como velho tabuleiro de xadrez jogado à beira-mar, nunca se move em linha reta. As peças avançam, recuam, blefam, e às vezes caem pela própria soberba. O senador Otto Alencar, figura experiente e habilidosa, deu um lance decisivo ao ajudar a rifar Angelo Coronel da chapa majoritária governista, movimento que escancarou seu domínio interno sobre o PSD na Bahia e, ao mesmo tempo, prestou um serviço estratégico ao PT e, em especial, ao senador Jaques Wagner.
Ao emplacar o filho no Tribunal de Contas do Estado e, posteriormente, colaborar para isolar Coronel até sua saída da base governista, Otto demonstrou força, articulação e lealdade ao projeto hegemônico do grupo que hoje controla o Palácio de Ondina. Nos bastidores, Wagner e Rui Costa viam Coronel como um corpo estranho, um aliado pouco confiável, mas preferiram que a lâmina não fosse empunhada diretamente por eles. Otto foi o operador silencioso dessa cirurgia política.
O problema é que, em política, todo serviço cobrado cedo demais vira dívida impagável depois. Otto pode até colher, no curto prazo, gratidão e acenos de apoio – fala-se, inclusive, em planos de longo alcance para o nome do filho Daniel em 2030 –, mas a realidade é mais dura: o senador baiano não controla o PSD. Quem controla é Gilberto Kassab, o verdadeiro alquimista da política nacional, capaz de transformar contradição em método e ambiguidade em força.
Kassab fez do PSD uma espécie de “Pasárgada partidária”, onde cabem direita, centro, esquerda e o que mais for necessário para vencer eleições e ampliar poder. É um partido pragmático, flexível, camaleônico. E isso explica o nervosismo que tomou setores do governo baiano desde que Angelo Coronel anunciou sua saída da base. O que deveria ser comemorado como vitória política virou motivo de apreensão.
A consolidação da chamada chapa “puro-sangue” parecia o desfecho natural: Jerônimo Rodrigues ao governo, Jaques Wagner e Rui Costa ao Senado, garantindo ao PT três das quatro vagas principais da sucessão estadual. Um arranjo partidariamente abusivo, mas politicamente imposto. Ainda assim, o clima não é de segurança. Nem o governador, nem o ministro da Casa Civil tratam a saída de Coronel como fato consumado. Há algo no ar que incomoda.
Faltando poucos meses para as convenções partidárias, a política brasileira – marcada por instabilidade, oportunismo e mudanças bruscas de rota – ensina que nada está decidido. Otto, apesar do capital político acumulado, está exposto. O PSD hoje abriga três presidenciáveis e pode, a qualquer momento, redefinir suas prioridades nacionais. Não existe garantia concreta de que Kassab manterá o partido alinhado a Lula e a Jerônimo na Bahia se outro projeto se mostrar mais viável eleitoralmente.
E aqui entra a variável mais explosiva do tabuleiro: ACM Neto. Se o líder da oposição baiana decidir, após pesar riscos e vantagens, seguir o caminho de Ronaldo Caiado e migrar para o PSD, o cenário muda radicalmente. Neto chegaria com densidade eleitoral, recall político e musculatura suficiente para se tornar, instantaneamente, o candidato natural do partido ao governo da Bahia. Nesse cenário, Otto deixaria de ser o maestro para virar apenas mais um músico na orquestra de Kassab.
Não há amizade, camaradagem ou gratidão que sobreviva quando o projeto nacional entra em jogo. Kassab não sacrificará uma vitória estratégica em nome de acordos regionais. Se Neto migrar, Otto perde o controle do PSD na Bahia. Simples assim. As pedras começaram a rolar, e quem conhece a política baiana sabe: quando a ladeira desce, não há freio que segure.




