
Autor: Padre Carlos
Há partidos que nascem com ideais. Outros, com instinto de sobrevivência. O MDB pertence à segunda categoria — e, talvez por isso, seja o mais longevo entre todos. Desde a redemocratização, o velho Movimento Democrático Brasileiro carrega a alma do poder sem jamais se comprometer inteiramente com ele. Se a política é a arte do possível, o MDB é o artista que pinta o quadro conforme a luz do momento.
Chamá-lo de “centro” é um eufemismo elegante. Na verdade, o MDB sempre foi o camaleão da política brasileira — adaptável, pragmático, elástico ao ponto de estar em todos os governos, de Sarney a Lula, de Temer a Bolsonaro (ainda que por vias indiretas). É um partido que aprendeu a respirar em qualquer atmosfera. E, por isso mesmo, raramente morre.
Hoje, seu irmão mais novo, o PSD, segue o mesmo roteiro. Ambos se autodenominam “centro”, mas na prática são o que o país convencionou chamar de centrão — essa entidade política que não governa, mas decide quem governa. Ganhe quem ganhar, eles serão sempre governo. É a política de gravata reversível: de um lado o vermelho, do outro o azul.
O MDB, que comanda três ministérios — Planejamento (Tebet), Transportes (Renan Filho) e Cidades (Jader Filho) —, vive dividido sobre os rumos de 2026. A ala nordestina, sempre mais próxima do Planalto, vê vantagem em apoiar Lula. Já os diretórios do Sul e Sudeste preferem a ambiguidade confortável da neutralidade. O argumento é simples e cínico: manter as portas abertas em cada Estado, casar por conveniência, garantir o dote do fundo partidário.
A verdade é que o MDB não precisa de candidato à Presidência — precisa apenas garantir espaço. E é isso que faz com maestria. Em 2022, lançou Simone Tebet, mas permitiu que cada diretório votasse como quisesse. Foi a liberdade calculada que lhe rendeu ministérios e sobrevida política.
Agora, às vésperas de 2026, o partido repete o mesmo roteiro. O Pará, com Helder Barbalho, flerta abertamente com Lula. Já São Paulo, com Ricardo Nunes e parte da bancada, acena ao bolsonarismo. Minas Gerais, comandada por Newton Cardoso Jr., mantém os dois pés em campos opostos — ora acena ao presidente, ora vota com os radicais da direita. É a síntese perfeita da natureza do MDB: estar em todos os lugares, sem estar em lugar nenhum.
O que explica tamanha resiliência? A resposta está na estrutura: quase 500 votos em convenção, dezenas de diretórios regionais autônomos e uma bancada robusta. Cada deputado é uma pequena república, com seus próprios interesses, alianças e urgências. Não é um partido — é uma federação de sobreviventes.
O MDB sobrevive porque o Brasil ainda não superou o fisiologismo como método. Ele é o espelho da política que temos: a do cálculo, não da convicção. Enquanto houver poder a distribuir, cargos a ocupar e verbas a repassar, o MDB (e seu espelho, o PSD) continuará sendo o fiel da balança — ou, mais precisamente, o dono da balança.
E assim, entre Tebet e Barbalho, entre Lula e Bolsonaro, o MDB segue no seu habitat natural: o centro do poder. Não o centro ideológico, mas o centro gravitacional — aquele que atrai tudo o que orbita em volta do Estado.
No final, pouco importa quem ganha. O MDB sempre vence.




