(Padre Carlos)
Na madrugada silenciosa de 1º de março de 2022, no coração de Salvador, enquanto a alegria carnavalesca inundava as ruas da cidade, um grito mudo se ergueu na Gamboa de Baixo. Não era som de tambor ou de festa. Era o eco abafado da violência institucional. O jovem Alexandre Santos dos Reis, conhecido como Léo, foi levado por agentes da Rondesp, a temida unidade da Polícia Militar da Bahia. Desde então, o que resta é o vazio — e o silêncio conivente de um sistema que mata e depois cala.
A reportagem “Triste Bahia”, de Marcelo Canellas, publicada na revista piauí, não é apenas jornalismo investigativo: é um espelho incômodo da barbárie travestida de segurança pública. Canellas narra com precisão cirúrgica o modo como a PM age nas comunidades periféricas — invasiva, letal, impune. Não há mandado, não há testemunha que se sinta segura, não há explicações — apenas corpos, luto e medo.
A Bahia, berço de cultura, resistência e beleza, tornou-se também o palco de um dos maiores índices de letalidade policial do Brasil. Não se trata de combater o crime. Trata-se de exterminar suspeitos, geralmente jovens, pretos e pobres, sob a lógica perversa de que a morte é um atalho para a ordem. A política de segurança se revela, assim, como política de extermínio.
O mais grave é que tudo isso se naturaliza. A brutalidade da farda se esconde sob discursos de “combate ao tráfico”, “guerra às drogas” ou “reação à injustiça”, mas o que vemos é o Estado atuando como algoz — e não como protetor. O pacto civilizatório se rompe quando o policial, financiado pelos nossos impostos, se torna um caçador autorizado a matar.
É hora de gritar: basta!
Basta de execuções sumárias, basta de operações sem transparência, basta de silenciar mães como Silvana. A sociedade baiana não pode continuar a normalizar essa lógica necropolítica. A morte de Léo, como de tantos outros, não pode ser só estatística. Tem nome, tem história, tem sangue — e pede justiça.
Precisamos de uma nova segurança: humana, preventiva, comunitária. A Bahia merece mais que luto. Merece vida.





