Política e Resenha

Vitória da Conquista Finalmente Fecha a Porta (Mas Já Perdeu Metade do Cavalo)

 

 

 

Em outubro de 2025, o Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista aprovou o tombamento de cinco imóveis históricos, entre eles o **Antigo Prédio da Câmara de Vereadores** — hoje Memorial Manoel Fernandes de Oliveira —, construído em 1910 pelo mestre de obras Luiz Pedreiro. A iniciativa partiu da própria Presidência da Câmara, um gesto raro de autoproteção institucional que merece aplausos. Pela primeira vez em décadas, o Poder Legislativo local assume protagonismo na defesa da própria história.

 

 

O casarão, que já foi residência do Coronel Maneca Santos, hotel, fórum e Justiça do Trabalho, tornou-se sede da Câmara em 1960. Sobreviveu exatamente porque nunca deixou de ser poder: o uso contínuo blindou-o contra a especulação imobiliária que devorou tantos outros. Enquanto casarões privados viraram estacionamentos ou lojas de R$ 1,99, este aqui continuou ativo, com vereadores discutindo o destino da cidade entre suas paredes centenárias.

O tombamento é, portanto, um ato de inteligência institucional. Preserva não só tijolos, mas a materialidade da democracia local — o lugar onde se votaram leis, se brigou por verbas e se construiu, bem ou mal, o que Conquista é hoje.

 A Trajetória Multifuncional do Edifício

| Período Aproximado | Função Principal | Significado Institucional |

Período Aproximado Função Principal Significado Institucional
1910 – c. 1960 Residência particular, hotel, Fórum e Justiça do Trabalho Arquitetura fundacional e infraestrutura jurídica inicial
Pós-1960 Sede do Poder Legislativo Municipal Consolidação como centro político-democrático
Outubro 2025 em diante Bem tombado (Memorial + Presidência) Proteção definitiva contra pressões urbanas

| 1910 – c. 1960 | Residência particular, hotel, Fórum e Justiça do Trabalho | Arquitetura fundacional e infraestrutura jurídica inicial |
| Pós-1960 | Sede do Poder Legislativo Municipal | Consolidação como centro político-democrático |
| Outubro 2025 em diante| Bem tombado (Memorial + Presidência) | Proteção definitiva contra pressões urbanas |

 O Contraponto Doloroso: O que Acontece Quando Não Há Tombamento

Enquanto a Câmara municipal comemorava a proteção de sua sede, o Governo do Estado demolia, em junho de 2025, o antigo prédio do **Centro Integrado Luiz Navarro de Brito (CIENB)**, na Avenida Frei Benjamin. Um abaixo-assinado, apelos de ex-alunos, professores e pais — “aqui estudaram meus avós, meus pais, eu e meus filhos” — foram ignorados. O argumento vencedor: “precisamos de 36 salas novas, laboratório, teatro e restaurante estudantil”.

O novo complexo será, sem dúvida, mais moderno. Mas Conquista perdeu um pedaço irrecuperável de sua alma educacional pública. O CIENB não era só um prédio; era um marco afetivo onde gerações se formaram. Sua demolição unilateral revela a hierarquia cruel das prioridades: o patrimônio do poder (Câmara, Prefeitura) consegue se proteger; o patrimônio do povo, quando depende do Estado, vira entulho.

 Preservação × Demolição: Dois Pesos, Duas Medidas

| Bem Histórico | Natureza do Valor | Gestor Responsável | Decisão Tomada | Resultado |

Bem Histórico Natureza do Valor Gestor Responsável Decisão Tomada Resultado
Antigo Prédio da Câmara (1910) Institucional, político, arquitetônico Câmara Municipal Tombamento municipal Preservado para as futuras gerações
Antigo CIENB (décadas de uso) Educacional, social, afetivo Governo da Bahia Demolição unilateral Memória comunitária apagada

| Antigo Prédio da Câmara (1910) | Institucional, político, arquitetônico | Câmara Municipal | Tombamento municipal | Preservado para as futuras gerações|
| Antigo CIENB (décadas de uso) | Educacional, social, afetivo | Governo da Bahia | Demolição unilateral | Memória comunitária apagada |

 Lições para o Futuro (Se Houver Vontade de Aprendê-las)

O tombamento do Antigo Prédio da Câmara é vitória, sim — mas vitória tardia e parcial. Servirá de precedente? Tomara. O diretor de comunicação da Câmara, Fábio Sena, já disse: “pode inspirar outros tombamentos”. Que inspire mesmo, e rápido. Porque o centro de Conquista já perdeu demais: casarões viraram estacionamentos, a “plástica da cidade antiga” está desfigurada.

O desafio agora é claro: estender a proteção urgente ao patrimônio que não tem CPF de vereador ou prefeito. Às escolas onde o povo estudou, às praças onde o povo se encontrou, aos sobrados onde o povo morou. Se a memória institucional merece ser eterna, a memória afetiva do povo merece o mesmo respeito.

Vitória da Conquista, em novembro de 2025, tem uma escolha: continuar fechando a porta depois que o cavalo já fugiu — ou, finalmente, trancar o estábulo antes que não sobre nenhum animal vivo dentro dele.

Que o tombamento da Câmara seja o começo, não o canto do cisne de uma cidade que ainda pode decidir se quer ter passado ou apenas futuro de concreto.